Jornal O Globo
Ah, mas por que você anda tão fresca agora? Antes tomava café coado, agora quer cinquenta tipos de expresso”. “Ah, agora o café da Metida é sem açúcar.” Este tipo de observação geralmente vem com aquele olhar de quem acha que qualquer mudança de gosto é uma espécie de traição às origens. Como se trocar o café da garrafa térmica por um cappuccino de aveia fosse o primeiro passo para esquecer quem você é. Existe uma ideia curiosa de que autenticidade significa permanecer exatamente igual ao longo da vida. Como se acrescentar ou trocar gostos fosse uma forma de falsidade. Como se ampliar repertório fosse sinônimo de arrogância. Como se experimentar algo novo representasse uma rejeição automática ao que veio antes. Mas não é. É só atualização de sistema. A gente aceita que celular atualize. Mas ainda parece haver uma resistência enorme quando o “software” em questão está em nós. As pessoas confundem a oportunidade de atualizar gostos com frescura. Cabe lembrar que uma parte importante da população brasileira cresce sem acesso a oportunidades para expandir seus repertórios. Não apenas gastronômicos. Repertórios culturais, educacionais, profissionais, afetivos e simbólicos. A desigualdade também mora nestes detalhes. Muita gente recebe o menu da vida com páginas faltando. Não porque não tenha capacidade de escolher. Mas porque nunca soube que aquelas opções existiam. Você não escolhe o vinho quando só te apresentaram refrigerante. Você não escolhe viajar quando nunca viu alguém próximo embarcar num avião. Você não escolhe determinada profissão quando ela sequer apareceu no horizonte das possibilidades. Por isso é tão bonito e potente quando alguém consegue ampliar o próprio universo. Sabemos que isso requer muita política pública e uma força coletiva para que não seja apenas um caso isolado. Ao mesmo tempo, quando pessoas atualizam seus gostos, é importante reforçar que não é sobre abandonar o que veio antes. É sobre descobrir que existia uma estante inteira de livros que ninguém tinha te mostrado. Que havia outros caminhos na cidade. Outros sabores. Outros sotaques. Outras formas de amar. Outras formas de viver. E aí vem a parte engraçada. Porque quando finalmente temos acesso a essas novas possibilidades, frequentemente aparece alguém para dizer: “Você mudou”. Em um tom acusatório. Ao mesmo tempo, muitas mudanças são bem-vindas. Seria estranho passar décadas vivendo e continuar exatamente igual. Aliás, uma das maiores evidências de que estamos vivos é justamente a capacidade de mudar de ideia. De descobrir que não gostávamos de vinho porque só tínhamos provado vinho ruim. Que não odiávamos museus, apenas nunca tínhamos entrado em uma exposição que não nos tocou. A atualização dos gostos não é um defeito de caráter. É um efeito da ampliação das possibilidades. Você pode continuar amando o café coado da infância e descobrir um expresso maravilhoso. Pode continuar ouvindo as músicas pop que marcaram sua adolescência e aprender a gostar de jazz. Pode continuar sendo quem sempre foi e, ao mesmo tempo, tornar-se alguém novo. Porque identidade não é uma fotografia. É um filme. E crescer e conseguir mais oportunidades tem a ver com ganhar acesso às páginas do menu que estavam faltando. Sem culpa. Sem vergonha. E, para quem preferir, sem açúcar.
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