Jornal O Globo
O três estavam lá, um Maracanã inteiro viu. Eram feito três xamãs, porque o samba tem suas coisas próprias que lhe conferem alguma aura maior, muito além do gênero musical, quase um sincretismo religioso. Três dos maiores nomes da música brasileira, no maior dos estádios, cantando alguns dos maiores sambas, foi tudo superlativo, grande, gigante, no show da noite deste sábado (6) que marcou a abertura da turnê batizada de O Maior Encontro do Samba, com Alcione, Zeca Pagodinho e Jorge Aragão no palco. Pelo menos nesta noite, o Maracanã, templo do futebol, foi o Olimpo do Samba. Somando mais de 150 anos de carreiras, os três ali, diante de 65 mil pessoas, enfileiraram em duas horas de apresentação algumas das canções que ajudam a definir o que é o samba, e que também definem a trajetória de três artistas tão singulares. Dava pra ser três shows, foi um só. Público de 65 mil pessoas no Maracanã neste sábado (6) Divulgação / 30e Jogo ganho Com atraso de quase uma hora — xamãs também atrasam —, e precedidos da abertura de Arlindinho que os chamou de "meus tios", Alcione, Zeca Pagodinho e Jorge Aragão subiram no palco às 19h50, quando o estádio da Zona Norte do Rio já estava quase lotado. Os dois na beca com looks de linho bordados, ela num vestido brilhante. Saudaram a multidão com poucos acenos e poucas palavras e começaram a noite com "Mutirão de amor", sucesso de Aragão, Sombrinha e Zeca que já foi gravado pela Marrom em 1983. Mesmo que sentados na maior parte do tempo, Alcione, 78 anos, Zeca Pagodinho, 67 anos, e Jorge Aragão, 77, tinham todo mundo nas mãos, apoiados num conjunto de clássicos infalíveis. O som no Maraca estava bom, e a banda com 16 músicos orquestrada pelo diretor musical Pretinho da Serrinha seguia estendendo o tapete para os três tenores. Alcione até levantou para cantar "Você me vira a cabeça", o primeiro dos seus hinos românticos que faria ali, e foi ovacionada, mas depois voltou pro trono, tudo sob controle. Em clima de Copa, muita gente na plateia usava a camisa da seleção brasileira. Mas ali o jogo já estava ganho desde o início. Em todos os setores a plateia estava entretida, cantando alto, como se estivessem todos no gargarejo da pista premium, onde estavam famosos como Paola Oliveira e Milton Cunha, além do próprio Arlindinho e a namorada, a atriz Érika Januza. Vieram tantos outros hinos, como "Eu e você sempre", de Aragão, e "Verdade" de Zeca. É um show de muitos recursos visuais. O telão assinado por Batman Zavareze exibia fotos de arquivo dos três entre elementos ligados ao samba, como pisos de caquinhos do subúrbio, espadas de São Jorge e mesas de botequim. No palco, os três vão trocando afagos sutis. "Ela pega pesado", disparou Aragão depois de ouvir Alcione cantar "A loba". Houve músicas em que os três cantaram juntos, como "Enredo do meu samba", de Jorge Aragão, mas na maioria das vezes um assumia a frente. Jorge Aragão, Alcione e Zeca Pagodinho no palco do Maracanã Divulgação / 30e Bloco do convidado Também é um show de muitas homenagens, com canções de grandes compositores do samba, como Almir Guineto, Zé Keti, Cartola e Jovelina Pérola Negra. Já tinha passado uma hora de show quando outro baluarte foi reverenciado ali mesmo. Convidado especial, mais um papa chegava ao conclave: aos 88 anos, Martinho da Vila se juntou aos amigos pra cantar, de pé, alguns de seus sucessos como "Canta canta minha gente", "Disritmia", "Ex-amor", "Devagar" e "Mulheres". "Estou muito emocionado de estar aqui", disse Martinho. Casais abraçadinhos faziam stories quando Alcione cantava "Faz uma loucura por mim". Zeca tomou um gole da taça de vinho que estava ao seu lado antes de cantar "Deixa a vida me levar", iniciando o terço final do show. "Marrom, apresenta o maestro", pediu Zeca, e Alcione pediu palmas para Pretinho da Serrinha, apresentando a banda toda na sequência. Aragão perguntou se era pra ir embora e ouviu um sonoro não. Mas o final foi chegando, inevitável os táxis que vão chegando no entorno do Maracanã. O trio seguiu com "Não deixe o samba morrer", tratado geracional, e depois o pout-pourri "Camarão que dorme a onda leva" / "Bagaço da laranja' / "Quando eu contar (Iaiá)" / "Coração em desalinho". Tantas vezes cantada ali, no Maracanã, adotada pelas arquibancadas, "Vou festejar", composição de Aragão, Dida e Noeci Dias, fechou o repertório. Fogos, confetes, gritaria. Ali o Brasil venceu de goleada. Martinho da Vila reforçou o repertório com quatro de seus sucessos Divulgação / 30e
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