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Como a Copa cresceu até aqui: geopolítica, boicote e dinheiro explicam expansão do Mundial, que chega a 48 seleções em 2026 | Collector
Como a Copa cresceu até aqui: geopolítica, boicote e dinheiro explicam expansão do Mundial, que chega a 48 seleções em 2026

Como a Copa cresceu até aqui: geopolítica, boicote e dinheiro explicam expansão do Mundial, que chega a 48 seleções em 2026

Se o futebol pode ser tratado como um microcosmo da sociedade, a Copa do Mundo talvez seja a melhor forma de se entender o contexto geopolítico de cada momento em que ela é disputada. Amanhã, no México, será dado o ponta pé para o maior Mundial de todos os tempos, que também será disputado nos Estados Unidos e no Canadá, e que contará com 48 seleções. Um número quase quatro vezes maior do que na primeira Copa, em 1930, no Uruguai, e 50% maior do que no Catar, em 2022. Mas, para entender o crescimento da Copa do Mundo, é preciso voltar no tempo e ir além do futebol. Depois de um período inicial com números de participantes variados, o Mundial passou a ter 16 seleções em 1954, na Suíça. Isso perdurou até 1978, na Argentina. O aumento para 24 times em 1982, na Espanha, não veio por acaso. E tem uma assinatura conhecida no mundo do futebol e, especialmente, no Brasil: João Havelange. Eleito presidente da Fifa em 1974, o histórico dirigente brasileiro, teve como uma de suas plataformas de campanha justamente o aumento de participantes na Copa do Mundo. Mas o que pode soar apenas como uma moeda de troca por votos também veio de um entendimento do cenário geopolítico do mundo naquele momento. O pós-Segunda Guerra, com o enfraquecimento e a crise vivida pelas potências europeias, que dominavam a Fifa desde a sua fundação, e o processo de descolonização da Ásia e, principalmente, da África, acentuado entre os anos 1950 e 1970, ajudaram a pavimentar o caminho de Havelange para o topo da Fifa. A independência de territórios africanos e asiáticos aumentou consideravelmente o número de membros da entidade. A Fifa passou de 74 filiados em 1950 para 143 em 1974. Em poucos anos, a África passou a ser o continente com mais representantes. Ainda assim, na 1966, na Inglaterra, por exemplo, a África tinham apenas 0,5 vaga na Copa do Mundo. Ou seja, o melhor colocado nas Eliminatórias deveria enfrentar o vencedor de um confronto entre a Ásia e a Oceania por um lugar no Mundial, o que gerou um boicote dos africanos e parte dos asiáticos — a Coreia do Norte ficou com a vaga ao bater a Austrália no play off. Em 1970, africanos e asiáticos já receberam uma vaga cada, mas a Copa ainda tinha apenas 16 seleções. Para ser eleito, João Havelange, então presidente da CDB, conseguiu unir a Conmebol e obteve, através de muitas viagens e "agrados", como excursões da seleção e de clubes brasileiros, entre outras moedas de troca, praticamente um apoio maciço da África e de parte significativa da Ásia e do Oriente Médio, o chamado "Terceiro Mundo", contra hegemonia europeia, representada pelo então mandatário da Fifa, o inglês Santley Rous. Para Luiz Guilherme Burlamarqui, professor visitante da George Washington University e autor do livro "A dança das cadeiras: a eleição de João Havelange à presidência da Fifa (1950-1974)", a eleição do dirigente brasileiro representa bem a dinâmica internacional do momento. — A primeira expansão foi principalmente por conta da descolonização. O ano-chave nessa história é 1964. É o ano da primeira leva da descolonização africana. Houve um congresso em Tóquio, que teve a filiação em massa dessas novas associações africanas, que passam a representar uma grande porcentagem dos países no congresso da Fifa. E começa a pressão pela expansão da Copa. E fazia sentindo expandir. Você teve um aumento grande no número de filiados. Não fazia sentido disputar um torneio com 16 seleções. O Havelange foi eleito como representante desse grupo e uma das promessas dele era aumentar o número de vagas na Copa — disse Luiz Guilherme Burlamarqui. Futebol como um produto global O processo de aumento de 24 seleções para 32, em 1998, tem a assinatura de duas mãos que eram praticamente uma. E vem com um novo contexto geopolítico, mas também comercial, financeiro e político da Fifa, que transformou o futebol e a Copa em um produto global, com contratos milionários de transmissão e patrocínio. Um dos principais projetos de Havelange na Fifa foi o Programa de Desenvolvimento Técnico, que ajudava a distribuir os recursos da entidade para os seus filiados, com o objetivo de desenvolver o futebol ao redor do mundo, principalmente em países periféricos. Quem comandava este programa era Joseph Blatter, que virou o braço direito do brasileiro na Fifa — não à toa, cresceu, virou secretário-geral, depois CEO e, em 1998, foi eleito presidente, se aproveitando do legado de Havelange. Também não à toa, posteriormente foi revelado uma série de escândalos envolvendo a dupla que gerou condenações na justiça da Suíça, dos Estados Unidos e processos internos na Fifa, que hoje tenta apagar este passado. O atual presidente Gianni Infantino, por exemplo, pouco ou quase nada fala sobre os ex-presidentes da entidade. Blatter era braço direito de João Havelange na Fifa FRANCK FIFE / AFP Mas, voltando ao número de participantes da Copa do Mundo, Havelange e Blatter, por vias controvérsias, foram responsáveis pelo boom comercial e financeiro da Fifa e da Copa do Mundo. Além disso, o fim da União Soviética e a fragmentação da Iugoslávia no começo dos anos 1990 levaram a um novo aumento considerável de países filiados a Fifa. Assim, em 1998, a Copa passou a ter 32 participantes. — A segunda expansão vem com o fim da Guerra Fria. Ali você também teve um aumento significativo no número de países filiados. Até 1991, Croácia, Sérvia e outros países eram um só, a Iugoslávia. A mesma coisa com os países da União Soviética. Esse processo de expansão da Fifa também levou a Copa para a Ásia em 2002, a primeira fora do eixo Europa-América — disse o doutor em História. Mais dinheiro em circulação Se nestes outros dois momentos o aumento no número de filiados da Fifa serviu como pano de fundo para o crescimento da Copa do Mundo, o mesmo não se observa na decisão de Infantino, eleito presidente da entidade em 2016. Neste século, o número de membros pouco cresceu. Os últimos associados, que fizeram a Fifa chegar a 211 filiados, foram Gilbraltar e Kosovo, justamente em 2016. Ainda assim, a ideia de um futebol cada vez mais globalizado segue viva e é importante para aumentar cada vez mais os recursos da Fifa e das próprias federações nacionais. Neste ciclo para a Copa do Mundo de 2026, a Fifa anunciou ter distribuído 1,05 bilhão de dólares (R$ 5,4 bilhões) para os seus filiados. — Um dos programas do Havelange que continua até hoje é o Programa de Desenvolvimento da Fifa (hoje chamado de "Fifa Foward"). O Infantino, além de anunciar o aumento de vagas, também anunciou um aumento dos repasses da Fifa aos países associados. É também uma questão política de para onde vão os recursos. E com mais países na Copa, você tem mais dinheiro. E você tem mais dinheiro justamente para as federações nacionais. Cada federação recebe 5 milhões de dólares por ano. Para o Brasil, por exemplo, não é muita coisa. Mas pensa numa federação como Curaçao, como Haiti, Ilhas Fiji... Eles recebem a mesma quantidade de dinheiro. Para fazer a roda econômica girar, isso é muito importante — concluiu o Luiz Guilherme Burlamaqui. Como a Copa do Mundo cresceu até aqui Arte/O Globo

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