Jornal O Globo
Bata palmas. Bata o pé. Assovie. Nem precisa ser uma melodia. Tudo é musical e tudo vem do corpo humano. O corpo, por sua vez, inspirou o formato dos instrumentos desde que eles existem, uma observação que despertou a curiosidade da curadora Bradley Strauchen-Scherer. — Muitos instrumentos fazem referência específica ao corpo humano em sua forma ou decoração, em diversas culturas, da cultura folclórica à pop e à clássica — disse Strauchen-Scherer, do Departamento de Instrumentos Musicais do Metropolitan Museum of Art (MET), em Nova York. Em SP e no Rio: Mostras destacam como signos do candomblé inspiraram obra geométrica de Mestre Didi e Rubem Valentim No dia 10: No centenário de morte de Gaudí, a celebração do sonho da Sagrada Família Essa ideia acabou levando à exposição “Corpos musicais”, em cartaz no Met até 27 de setembro. A mostra reúne objetos de milhares de anos de história: pinturas e gravuras, moda e esculturas e, claro, instrumentos. O que conecta tudo isso, disse Strauchen-Scherer, é uma exploração da “condição humana através da lente da música”. — Frequentemente pensamos na música como algo muito especializado — disse ela. — Às vezes, ela é rotulada como elitista. Mas quando analisamos por que as pessoas fazem música ao longo do tempo, percebemos que está em nosso DNA. É absolutamente fundamental para a sobrevivência humana. A voz humana tem mais timbre e possibilidades do que qualquer instrumento tradicional. Muito além de um meio para cantar, ela tem nuances e sons percussivos que ainda estão sendo desenvolvidos e aplicados à música. Ao entrar nas galerias de “Corpos musicais”, os visitantes se deparam rapidamente com vídeos de beatboxing. — Pensei que isso pegaria as pessoas de surpresa — disse Strauchen-Scherer. Elas ouvirão a voz sem letra, através de sons percussivos e explosivos. A curadora espera que isso faça que as pessoas parem e pensem: “Essa não é a voz como eu a conheço”. O beatboxing é uma forma de arte que nasceu em Nova York, criada por músicos de hip-hop que não tinham dinheiro para comprar baterias eletrônicas e, em vez disso, aprenderam a criar suas próprias batidas e efeitos vocais, como scratches de DJ. Num momento de fechamento de ciclo, o beatboxing retornou aos instrumentos, com a voz humana simulada em sintetizadores Oberheim. “Corpos musicais” também convida os visitantes a criarem sua própria música. Depois de passarem por galerias de objetos que borram as fronteiras entre corpos e instrumentos, eles se deparam com um corredor cujo piso, decorado com formas que lembram pílulas longas enfileiradas, responde ao toque com sons harmoniosos. É possível correr ou dançar sobre ele. 'The Whistlers', escultura de 2005 do americano Tip Toland, está na exposição TIMOTHY A. CLARY / AFP Oportunidade, disse Strauchen-Scherer, para as pessoas improvisarem sobre os temas da exposição. O departamento de interação com o público do Met desenvolveu esse recurso com o tecnólogo Jeff Crouse, e David Van Tieghem contribuiu com sons construídos em torno de uma escala pentatônica para que, independentemente do número de pessoas na plateia, o resultado fosse agradavelmente harmonioso em vez de cacofônico. Uma ideia recorrente ao longo da exposição é que, embora a música tenha mudado com o tempo, as pessoas não mudaram. Strauchen-Scherer estabelece conexões entre épocas e culturas, como a justaposição de um círculo de gongos tradicional tailandês e o PianoArc, um teclado circular usado por Brockett Parsons em shows da Lady Gaga. — Temos evidências iconográficas do uso desses círculos de gongos na Tailândia pelo menos desde o início do século XVI — disse Strauchen-Scherer. — E aí você vê uma forma como o PianoArc. Não há nada de novo sob o sol, o que muda é apenas nossa capacidade de concretizar essas coisas. O círculo, acrescentou ela, é uma forma ergonômica. E no caso do círculo de gongos, um músico pode estar dentro do instrumento, e esse posicionamento altera a forma como os sons são produzidos. Se os gongos estiverem alinhados, geralmente exigem vários músicos; um círculo permite que uma única pessoa alcance a mesma gama de expressão. “TV Cello”, de Nam June Paik, não apenas confunde corpo e instrumento, mas também sua relação com outras formas de arte. Um violoncelo é como um reflexo distorcido da forma humana em um espelho de parque de diversões, e nesta obra multimídia, o instrumento é feito de monitores em cubos de plexiglass empilhados e cobertos com um braço, voluta e cordas tradicionais. “TV Cello” foi nterpretado por Charlotte Moorman. No Met, trata-se de uma instalação, com monitores exibindo imagens dela tocando o instrumento. Sua imagem no violoncelo não é tão diferente de um instrumento renascentista decorado com uma figura feminina pintada ou esculpida, como observa Strauchen-Scherer no catálogo da exposição. — Convida os visitantes a pensarem sobre corpos que tocam e instrumentos que tocam, tudo se retroalimentando: é um instrumento, é uma escultura? — disse ela na entrevista. Gritos de caça Se você olhar com atenção, verá que Strauchen-Scherer aparece na exposição. Há uma trompa do século XIX, compacta como um intestino e com curvas sinuosas, chamada cornetim-trompe em Ré, atribuída a Alphonse Sax (irmão de Adolphe, inventor do saxofone). Ela está posicionada perto de um monitor com um vídeo do instrumento em ação, e ela aparece na tela, executando um grito de caça composto para o amanhecer. — É um instrumento selvagem — disse Strauchen-Scherer. — Já ouvi visitantes dizerem: “Nossa, foi Salvador Dalí que fez isso?” Sempre gosto de dizer que, se Salvador Dalí tivesse feito uma trompa, provavelmente seria algo parecido com isso. A verdade sobre sua criação, acrescentou ela, é “muito mais prosaica”. Foi criada para chamadas de caça e projetada para ser mais portátil do que as cornetas tradicionais. Mas sua produção, que envolveu dobrar cerca de quatro metros de tubo em seu formato elegante, foi “incrivelmente trabalhosa e não algo que se preste à produção rápida”. Ela nunca se popularizou de fato, mas possui uma ampla gama de sons devido ao comprimento do tubo, permitindo “um repertório completo de melodias de caça e entretenimento”, disse ela. Esta corneta representa um avanço artístico em relação aos apitos que os humanos usavam para caçar. Mas a conexão entre a forma como ambos os sons eram usados, disse Strauchen-Scherer, é um lembrete de que a música “não é uma atividade extracurricular, ela é fundamental e está intrinsecamente ligada a quem somos”.
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