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Júlio Bressane chega aos 80 anos e se prepara para lançar novo filme, protagonizado por Paulo Betti, no Festival do Rio | Collector
Júlio Bressane chega aos 80 anos e se prepara para lançar novo filme, protagonizado por Paulo Betti, no Festival do Rio

Júlio Bressane chega aos 80 anos e se prepara para lançar novo filme, protagonizado por Paulo Betti, no Festival do Rio

Para Júlio Bressane, o cinema é um “organismo intelectual sensível que atravessa as disciplinas”. Não à toa, durante seus mais de 60 anos de carreira, o cineasta se debruçou na tradução de clássicos da literatura brasileira para o cinema, passando por Lima Barreto, Machado de Assis e Haroldo de Campos. Ainda em 2026, que marca seu aniversário de 80 anos, Bressane se prepara para lançar o longa “Pitico, Hermes Ayres Azevedo (1881-1959), Historiador da Província”. O filme fará sua estreia no Festival de Cinema de Munique, na Alemanha, no fim do mês. No Brasil, estará no Festival de Cinema do Rio, na seleção da Première Brasil, em outubro. — O que o cinema tem de forte é que ele é uma possibilidade de uma coisa que a princípio é impossível. Essa coisa é a transformação e a autotransformação. E o que geralmente leva adiante é a patologia, né? Você precisa se botar em contato com essa sua força. Quando essa força acaba, você acaba — argumenta, em meio a seus questionamentos habituais, Júlio Bressane, que, em seis décadas, fez mais de 60 filmes, consolidando uma das carreiras mais longas do cinema brasileiro. Aos 86 anos: Morre Orlando Senna, diretor de 'Iracema - Uma transa amazônica' e ex-secretário do Audiovisual Política cultural: Governo de São Paulo lança edital para apoiar cinemas de rua Nessa longa viagem, o cineasta foi pioneiro do chamado Cinema de Invenção (ou Údigrudi). No novo filme, carinhosamente apelidado de “Pitico”, o diretor explora a ideia de que o tato é o mais fundamental dos sentidos e evoca a memória dos movimentos envolvidos no ato de escrever à mão, que é cada vez mais deixado de lado. Frame do novo filme de Júlio Bressane, protagonizado por Paulo Betti Pablo Baião “Pitico” acompanha um historiador de províncias, interpretado por Paulo Betti, exercendo seu ofício; reunindo cartas, documentos, registros de família e fotos, todos localizando o mundo de uma pequena província. Para o diretor, “Pitico” começa pelo tato e pelo poder da escrita. Depois, com a introdução da era do rádio, passa a ser valorizada a audição. — Naquelas letras, ele quer encontrar a carne de uma mulher, a carne viva — diz o cineasta. Bressane dirigiu seu primeiro curta em 1959 e estreou com o longa-metragem “Cara a cara” em 1967. O diretor é responsável por clássicos como “Matou a família e foi ao cinema” de 1969. No final do mesmo ano, Bressane se juntou a Rogério Sganzerla e juntos eles fundaram a lendária Belair Filmes. Os dois fizeram sete longas em três meses, mas veio a censura da ditadura militar e, com isso, o exílio do cineasta em Londres, onde realizou “Memórias de um estrangulador de louras” (1970) e “Amor louco” (1971). O Festival do Rio proporcionou sessões de outros filmes recentes do diretor, como “A erva do rato”, em 2008, “Capitu e o capítulo”, em 2021, e “Leme do destino”, em 2023. Ilda Santiago, diretora do festival, diz que é uma oportunidade de lembrar a importância do mestre que é Bressane. — Considero Júlio Bressane um dos grandes mestres pensadores e cineasta no sentido mais amplo. Ele pensa o cinema como linguagem, como reflexão intelectual — diz Ilda, acrescentando que seus filmes sempre têm sessões cheias e em uma junção de gerações. Bressane conta que Paulo Betti, pela primeira vez trabalhando com o diretor, tinha uma experiência pessoal que coincidia com o que foi necessário para dar vida ao Pitico. — Betti é um grande ator que conseguiu fazer uma representação extraordinária e deu destino ao Pitico. Ele que criou o direcionamento do movimento — diz o diretor. — Além disso, ele também tem um livro em que escreve à mão há 40 anos, que eu botei, inclusive, no filme. Paulo Betti como 'Pitico' Pablo Baião O longa também conta com Josie Antello, presença frequente no cinema do diretor, e Claudio Mendes. “Pitico” será o segundo lançamento de Bressane em 2026: no início do ano, ele lançou o média-metragem “O Fantasma da Ópera” na sessão de abertura da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes. O longa, codirigido por Rodrigo Lima, é uma ficção feita com imagens dos intervalos das filmagens de “Pitico”. — Eu tenho uma ideia de que o filme esconde o cinema. O que você vê no filme: os atores, a cor, o cenário, o entrecho... isso é o filme. Agora, o que organiza aquilo ali é o cinema, ele é um oculto — diz Bressane. Incluir no filme o seu próprio processo de feitura é uma constante em sua carreira. Por isso, para ele, “O Fantasma da Ópera” não tem nada de making of. Claudio Mendes Josie Antello em 'Pitico' de Júlio Bressane Pablo Baião Para Rodrigo Lima, que é montador dos filmes de Bressane desde 2006, o trabalho mais recente com o cineasta é como um díptico. — Para mim, a montagem e o seu processo vêm do dia a dia da vida e, então, vira um filme. O pensamento e o diálogo surgem no filme quase que espontaneamente. Eu e o Júlio somos muito amigos, então isso acontece muito naturalmente — diz. Nos últimos anos, Bressane fez, também em parceria com Lima, o filme “A longa viagem do ônibus amarelo”, um epítome de 432 minutos que resgata sequências de 58 filmes de sua cinematografia, abarcando desde o primeiro curta, “Tempo perdido”, de 1959, até “Capitu e o capítulo” de 2021. O fio condutor foi uma viagem feita nos anos 70 por Bressane, sua mulher, Rosa Dias, e o amigo Andrea Tonacci (“Serras da desordem”, 2006), da Itália até Katmandu, no Nepal. A aventura durou seis meses e foi capturada pelo trio em Super 8. O longa estreou em 2023 na 53ª edição do Festival de Roterdã, na Holanda. Em um segundo momento, o filme também conta com Josie Antello, presença frequente no cinema do diretor, e com Claudio Mendes, que interpreta o José Dias de Bressane em “Capitu e o Capítulo” (2021). — Os dois deram vida a uma interpretação esplêndida. Tanto a Josi quanto o Claudio Mendes foram brilhantes. Os dois deram uma interpretação radiofônica contrária quando Betti direcionou o movimento para a escritura, com uma dramatização da mão. Júlio Bressane na varanda de seu apartamento, em abril de 2026 Pablo Baião * Estagiária sob supervisão de Cláudia Amorim

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