Jornal de Brasília
JOANA CUNHA, IRAN ALVES E MARINA PINHONI SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) Um repasse de R$ 102 milhões feito pelo Master de 2023 a 2025 pode conectar o banco de Daniel Vorcaro a um setor suspeito de ligações com o crime organizado: o varejo de postos de gasolina. Os pagamentos, classificados pela instituição financeira como prestação de serviços, foram feitos a uma empresa chamada Metanoein Participações e Consultoria Ltda, que hoje é alvo de investigação por um suposto esquema de lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa no Rio de Janeiro. A sócia-administradora da firma, Rose Evelyn Machado Coité, é apontada pelo Ministério Público Federal como dona de uma rede de postos operada por meio de laranjas. Rose Evelyn é conhecida em Bangu, bairro da zona oeste da capital fluminense, como importante empresária do mercado de combustíveis, viúva do advogado criminalista César Pimentel Coité, que morreu em 2020. Porém, não há nenhum posto registrado no nome dela nem dos filhos do casal, também apontados como donos de estabelecimentos. Oficialmente, os registros da Receita Federal mostram participação de Rose Evelyn em apenas cinco firmas de outros ramos, como escritório de advocacia, consultoria e empresa de diagnósticos médicos, todos na zona oeste do Rio. O CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica) da Metanoein tampouco a situa no setor de abastecimento. As atividades da empresa são registradas como serviços de escritório, consultoria em gestão e negócios em geral. Desde a deflagração da operação Carbono Oculto, iniciada em agosto do ano passado, as investigações têm avançado sobre a infiltração do crime organizado no setor de combustíveis e no sistema financeiro, mas ainda não veio a público o repasse direto de dinheiro do Master no varejo de postos de gasolina. A Folha tentou contato com Rose Evelyn desde 27 de abril, por email e WhatsApp, mas não teve resposta. Ela atendeu uma ligação da reportagem, mas desligou. A assessoria de imprensa de Vorcaro diz que a defesa dele não se manifestará sobre o tema. Nos últimos meses, paralelamente ao avanço das apurações do caso Master, a Metanoein foi alvo de uma medida da 8ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, que impediu a transferência de valores ligados à empresa. O processo está em segredo de Justiça, mas algumas informações foram divulgadas nos documentos da Metanoein na junta comercial. Os dados mostram um pedido do Ministério Público Federal para o sequestro de contas e aplicações financeiras de Rose Evelyn e seus filhos, apontados como reais proprietários de postos de gasolina mantidos em nome de terceiros. Também são citados mais quatro nomes apontados como donos de postos e outros 17 que seriam interpostas pessoas, os chamados laranjas. Essa investigação envolve 46 empresas, e a ordem judicial foi registrada na certidão da Metanoein na junta comercial no dia 7 de maio, um dia depois da operação Centelha, deflagrada pela Polícia Federal contra um esquema de lavagem de dinheiro e sonegação ligado ao jogo do bicho no Rio. A Folha procurou a assessoria de imprensa da PF, mas o órgão não revela se a família de Rose Evelyn foi alvo da Centelha. De acordo com reportagem da Folha publicada na data da operação, as investigações da operação também apuram ligação com integrantes da família do bicheiro Rogério de Andrade, herdeiro de uma das principais estruturas do jogo do bicho no estado. A suspeita remonta ao período em que o bicheiro Castor de Andrade exercia forte influência sobre a contravenção no Rio. Um dos alvos da operação foi o posto Castor, cujo dono formal é sócio de uma firma de informática chamada Softcoop, que tinha Cesar Coité entre os sócios. Em 1997, Rose Evelyn trabalhou como advogada do posto Castor. MESMO ENDEREÇO A Metanoein tem características semelhantes a outra firma que transacionou com o banco de Vorcaro, a Mídias Promotora —que foi alvo de busca e apreensão no mês passado no contexto das apurações sobre investimentos temerários do Rioprevidência, fundo que gere os benefícios de aposentados e pensionistas do Rio de Janeiro. A Mídias, que recebeu R$ 126,6 milhões do Master, divide com a Metanoein um escritório vizinho ao calçadão de Bangu –tradicional centro do comércio popular do bairro. As duas firmas têm mais coincidências entre si: cada uma é sócia de uma SCP (Sociedade em Conta de Participação), as quais foram fundadas exatamente no mesmo dia, 28 de julho de 2021. SCP é uma estrutura empresarial de menor regulação, que trabalha com dois tipos de sócio, aquele que aparece nos dados oficiais (chamado de sócio ostensivo, como indica o próprio nome), e aqueles que permanecem ocultos. Ambas também estão entre as empresas que receberam os maiores volumes de dinheiro do Master, de acordo com os dados enviados pela Receita Federal à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado. Conforme a Folha revelou em abril, a Mídias Promotora tem como sócio-administrador Gilson Bahia Vasconcelos, um homem que, a despeito das cifras milionárias recebidas do Master por sua empresa, foi beneficiário do auxílio emergencial do governo na pandemia. Ele também é réu em um processo por golpe de um call center contra aposentados e pensionistas do INSS. Na primeira reportagem sobre Bahia Vasconcelos, publicada em 24 de abril, a Folha conversou com o advogado dele, que negou participação do administrador no call center do caso em que é réu por estelionato e diz que ele cumpre medidas cautelares. Sobre a Mídias Promotora LTDA, afirma que as movimentações financeiras são legais. A reportagem voltou a procurar o advogado em 27 de maio, mas não houve atualização de suas manifestações.
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