Jornal O Globo
Durante décadas, a chegada da Copa do Mundo transformou as ruas do Rio em extensões coloridas e animadas dos estádios. Bandeirinhas cruzavam quarteirões inteiros, crianças passavam as tardes pintando o asfalto e vizinhos se reuniam para arrecadar dinheiro de porta em porta. Nos últimos anos, a tradição perdeu força. Esse cenário, no entanto, começa a mudar novamente. Onde trocar figurinhas do álbum da Copa? Veja opções no Rio e em Niterói Ferramenta pedagógica: Escolas transformam febre das figurinhas em oportunidade para ensinar valores aos alunos Em diferentes pontos da Zona Sul, moradores têm ocupado as ruas para colorir o caminho da seleção brasileira, em um movimento que ganha impulso também da prefeitura do Rio, que lançou um concurso para premiar as decorações mais criativas da cidade. No último domingo, em Copacabana, a Rua Leopoldo Miguez, entre as ruas Barão de Ipanema e Bolívar, amanheceu coberta de verde, amarelo e azul após uma madrugada de trabalho coletivo. A iniciativa reuniu dezenas de famílias do bairro e transformou o fechamento temporário da via em uma grande festa comunitária. Leopoldo Miguez: pais e filhos participaram da pintura da via Divulgação/Renata Amaral A mobilização nasceu de um grupo de mães que se conheceu quando os filhos ainda eram bebês. O que começou como uma tentativa de entender os trâmites para interditar a rua acabou se transformando em um projeto que reuniu moradores de diferentes escolas da região e mobilizou cerca de 70 crianças. — Cada família foi chamando outras pessoas, e, quando vimos, o grupo tinha crescido muito. Fizemos uma arrecadação coletiva, contratamos dois grafiteiros e compramos todo o material necessário para que as crianças participassem da pintura — conta Renata Amaral, a organizadora do evento. Ao longo da noite, pincéis e rolinhos dividiram espaço com partidas improvisadas de futebol, enquanto pais e filhos ocupavam uma rua que normalmente é dominada pelo trânsito. Houve cachorro-quente, pipoca, canjica e mate. A iniciativa acabou promovendo um raro encontro entre vizinhos que foi muito além da decoração do espaço público. — Quando a rua fechou, muitos meninos quiseram primeiro jogar bola e só depois pintar. Foi muito bonito. As crianças colocaram a mão na tinta de verdade, mas também redescobriram a rua como local de convivência. O sentimento foi de pertencimento, de fazer parte do bairro, viver a rua como fazíamos antigamente — afirma Renata. Galerias Relacionadas 'Copa do Mundo de Matemática': Alunos do Colégio Pedro II fazem vaquinha para representar o país no Japão Para muitos adultos, a cena trouxe lembranças da infância. Entre eles estava a engenheira Marcela Neves, que participou da pintura ao lado do filho João Paulo, de 8 anos. — Foi uma experiência incrível poder pintar a rua com o João. Eu lembrei muito da minha infância, quando passávamos de porta em porta arrecadando dinheiro para comprar bandeirinhas e decorar a rua. Revivi tudo isso ao lado dele. Achei fantástica a iniciativa da Renata — diz. A poucos quilômetros dali, no Flamengo, a movimentação teve início em torno do Dezza Botequim. A empresária Ilma Dias decidiu recuperar o espírito das antigas Copas e organizou uma ação que reuniu moradores, artistas e crianças em torno da decoração da Travessa dos Tamoios. Para Ilma, as ruas pintadas sempre fizeram parte da experiência de viver uma Copa na cidade. Laranjeiras. Mutirão na General Glicério mobiliza moradores da rua e do bairro Divulgação/Ana Beatriz Marin — Essa coisa de ocupar a rua de forma positiva e de colocar as crianças para brincar faz parte da cultura do carioca. Eu sentia falta disso nas últimas Copas. Lembrava muito das ruas decoradas quando cheguei ao Rio e achava uma pena ver essa tradição se perder — conta Ilma. Ao longo do dia, famílias acompanharam o trabalho, crianças desenharam no asfalto e vizinhos tiveram a oportunidade de compartilhar o mesmo espaço. Ludmilla e Ferrugem: Copa do Mundo terá fan fest e arenas espalhadas por Niterói — Vemos tão pouco isso na Zona Sul. Vivemos muito dentro das nossas caixinhas. Fiquei emocionada ao ver a rua lotada e as pessoas se divertindo juntas. Eu gosto muito desse tipo de manifestação popular. Gosto da rua ocupada com alegria e energia boa e com as pessoas convivendo. Acho que a Copa do Mundo tem justamente essa capacidade de aproximar as pessoas — diz a empresária. A programação na Travessa dos Tamoios deve continuar ao longo do Mundial. Além da pintura da rua, a empresária planeja promover rodas de samba antes dos jogos da seleção brasileira. Na General Glicério, em Laranjeiras, um desenho da mascote Caramelo convive alegremente com estrelas amarelas e azuis, uma imagem estilizada da bandeira do Brasil e uma reprodução da imagem da taça que estampa a capa do álbum de figurinhas da Copa do Mundo, além da frase “Rumo ao hexa”. As pinturas começaram a ser feitas no dia 16 de maio, depois que o administrador Rodrigo de Castro Mendes, morador da rua e responsável pela mobilização, conseguiu arrecadar cerca de R$ 3 mil entre os amigos e colegas do bairro. A Travessa dos Tamoios, no Flamengo, também ganhou as cores da seleção Divulgação/Dezza Botequim Entusiasta da tradição, ele participa do mutirão desde criança. Esta será sua nona Copa do Mundo pintando a rua. — Sempre que começo a pintar, vem um filme na cabeça. Lembro de quando era pequeno e ajudava os adultos. É uma memória gostosa. E uma maneira de integrar as pessoas — diz Mendes, que hoje tem nos filhos Caio, de 13 anos, e Téo, de 8, dois grandes ajudantes. Para a produtora de eventos Adriana de Souza Wheeler, a Copa do Mundo de 2026 marca os 40 anos desde a sua estreia como “pintora” de rua em Copas. Ainda criança, ela fez parte do mutirão que coloriu a Rua Laurinda Santos Lobo, em Santa Teresa, onde morava. Quadrilha e jogo da Copa: Mundial entra na agenda das festas juninas; veja o roteiro na Barra e nos bairros vizinhos — Fazíamos um “pedágio”. As pessoas davam um dinheirinho para passar. Era uma loucura— lembra, rindo. — Acho que esse tipo de evento ajuda a resgatar um senso de comunidade que é muito importante e vem se perdendo. Além disso, coloca todo mundo em contato com a arte, a cultura e o esporte, pilares fundamentais para o desenvolvimento humano. Responsável pela pintura da taça e da bandeira do Brasil, a artista plástica Clode Imperial destaca a importância do mutirão como estímulo à socialização. — O futebol precisa ganhar força. É sempre legal esse tipo de evento acontecer, pois as pessoas passam a se conhecer mais — diz ela, que se mudou para a General Glicério em dezembro do ano passado. A prefeitura entrou no jogo quando um decreto publicado no fim de maio criou o Concurso Carioca de Decoração de Rua para a Copa do Mundo, batizado de “Acreditar é uma arte — O Rio nas cores do hexa”. A iniciativa premiará as três ruas, vilas ou travessas mais bem decoradas da cidade, com R$ 50 mil, R$ 30 mil e R$ 20 mil para o primeiro, o segundo e o terceiro colocados, respectivamente. De acordo com o órgão, o objetivo é fortalecer a participação comunitária, valorizar a cultura popular e recuperar uma tradição que durante décadas ajudou a moldar a identidade visual da cidade durante os Mundiais. Intervenções artísticas Laurinho. Artista foi responsável por pintura da rua em Ipanema Divulgação/Julia Pinheiro Em Ipanema, a tradição ganhou um formato diferente. Na madrugada entre os dias 29 e 30 de maio, a Rua Barão da Torre, na altura da esquina com a Rua Maria Quitéria, recebeu uma intervenção artística em frente à unidade do Jappa da Quitanda. Assinada pelo artista e criador de conteúdo Laurinho (@laurinho_oficial), a pintura ocupa toda a fachada do restaurante e combina elementos ligados ao futebol com referências à identidade da marca. — Queríamos resgatar a nostalgia, o patriotismo e a tradição carioca de levar a paixão pelo futebol para as ruas. Com a ajuda do Laurinho, transformamos a Barão da Torre. Mais do que uma ação, foi um encontro entre tradição, criatividade e a energia da Copa, porque algumas tradições merecem continuar vivendo — afirma Andressa Martilotta, gerente de marketing do Jappa da Quitanda. Desconto de 40%: Brechó Peça Rara fecha unidade de Ipanema e promove liquidação Hoje, o artista visual, grafiteiro e muralista Leandro Tick vai comandar a pintura da Rua Ronald de Carvalho, em Copacabana. A iniciativa acontece em parceria com o bar Os Imortais, que transmitirá os jogos da Copa com programação especial. Além da intervenção artística, o evento contará com espaço para que crianças participem da pintura da rua e troquem figurinhas do álbum da Copa. Será do meio-dia às 21h, na altura do número 147. Outra rua que se prepara para entrar no clima da Copa hoje é a Rodrigo de Brito, em Botafogo. A partir das 11h, moradores e visitantes poderão participar da pintura e decoração da via, além de atividades recreativas e troca de figurinhas do álbum da Copa. A celebração continua à tarde, com uma roda de samba marcada para as 15h. O evento é promovido pelo Porco Amigo Bar. Enquanto alguns bairros redescobrem esse hábito, a Rocinha mantém viva uma tradição que nunca desapareceu completamente. Em maio, a Via Ápia, principal rua da comunidade, ganhou novas cores durante uma grande ação coletiva que reuniu artistas e moradores. A intervenção transformou mais de mil metros quadrados da via em uma espécie de galeria a céu aberto, com pinturas inspiradas na bandeira brasileira e em elementos da identidade cultural da favela. Cerca de 35 pintores participaram diretamente dos trabalhos, e mais de 80 moradores ajudaram na organização e execução da ação, que durou 24 horas. A proposta é que a rua volte a ser um dos principais pontos de encontro para acompanhar os jogos da seleção. Initial plugin text
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