Jornal de Brasília
Estava tomando um café indo pra Sacramento , naquela mesa de madeira escura que parece que já ouviu todos os segredos do Rio da Prata, quando o celular explodiu com a notícia. Ana Clézia, 38 anos, filha de pastor, metade de uma dupla gospel do Tocantins que eu confesso nunca ter ouvido num palco, mas que claramente segurava uma comunidade inteira de joelhos. Morreu na UTI do Hospital Geral de Palmas na sexta-feira, 5 de junho. Até aí, os portais deram. O que ninguém apurou direito é o que vem antes. Doze anos. Esse é o número que a própria Ana Clézia carregava sem alarde. Nas redes sociais, ela mesma escreveu, com aquela dignidade de quem já fez as pazes com o que não pode controlar: “Depois de 12 anos de tratamento, o fígado me levou a duas internações consecutivas. Agora é só continuar orando pelo processo do transplante, pois acima da doença está o nosso Deus que não falha.” Alguém curtiu, comentou amém, salvou o post, e seguiu a vida. O sistema público de saúde do Tocantins também seguiu a vida. A fila de transplante no Brasil mata com a mesma eficiência que qualquer outra doença — só que mais devagar e sem manchete. Quando entrou em coma, com pneumonia associada à ventilação mecânica e pressão arterial em colapso, a equipe médica ainda tentou hemodiálise. Precisou interromper porque o corpo não aguentou o procedimento. A comunidade evangélica organizou correntes de oração que tomaram grupos de WhatsApp de Palmas a Luzinópolis. O Instagram de Laudicéia virou altar improvisado nos comentários. A parceira de dupla confirmou a morte numa nota curtíssima e avisou que não tinha condições emocionais de responder mais nada. Não tinha mesmo. Quando você perde quem canta ao seu lado há anos, a garganta fecha antes das palavras chegarem. Eu estava saindo do Tortoni rumo ao hotel quando li aquele post dela escrito antes do coma. E pensava: quantas Ana Clézias existem agora mesmo numa UTI do norte do país, esperando um fígado, um rim, um coração, enquanto a assessoria do SUS produz boletim e a família produz fé? O Tocantins não é pauta fácil. Gospel não vira capa de revista semanal. Mas morte jovem com transplante negado é pauta em qualquer idioma. Meu veredito, e pode anotar: essa história não acabou com o enterro em Luzinópolis. Ela começa agora. A causa oficial da morte segue sem confirmação pública, Laudicéia está em silêncio absoluto, e a fila de transplante de fígado no Tocantins vai continuar matando em surdina até que alguém com microfone resolva perguntar por quê. Ana Clézia cantava que Deus não falha. O Estado, claramente, tem outro histórico.
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