Jornal O Globo
Quase 20 mil pessoas ficaram sem acesso à água potável no Irã após ataques dos Estados Unidos contra o país na terça-feira. O bombardeio, segundo autoridades locais, destruiu dois reservatórios de concreto na província de Hormozgan, interrompendo o fornecimento de água para moradores da região e de outras dez aldeias vizinhas. Em mais um sinal de escalada, horas depois da operação, o presidente americano, Donald Trump, afirmou que a República Islâmica está demorando “tempo demais” para negociar um acordo e que agora terá de “pagar o preço”. Na sequência, em entrevista à rede conservadora Fox News, disse que Washington pode retomar ataques contra infraestrutura crítica iraniana ainda hoje. — Posso continuar. Eles tiveram a chance de assinar um acordo e sobreviver — declarou. Contexto: Irã acusa EUA de prejudicarem acordo de paz após ataques e retalia com bombardeios contra alvos no Golfo Entenda o caso: EUA atacam Irã em resposta à derrubada de helicóptero Apache no Estreito de Ormuz Os ataques protagonizados pelos EUA e pelo Irã foram alguns dos mais intensos desde o início da trégua, em 8 de abril. Depois de uma série de escaladas menores, forças americanas atacaram a República Islâmica em resposta à queda do helicóptero Apache, supostamente derrubado por forças iranianas na madrugada de terça-feira (noite de segunda-feira em Brasília). Embora uma investigação oficial dos EUA sobre as causas do incidente ainda não tenha sido concluída, Trump rapidamente responsabilizou o Irã: “Acabo de ser informado por nossos grandes militares que, na noite passada, os iranianos derrubaram um de nossos helicópteros Apache altamente sofisticados enquanto patrulhava o Estreito de Ormuz. Havia dois pilotos a bordo, ambos estão seguros e sem ferimentos”, escreveu Trump nas redes sociais, acrescentando: “No entanto, os Estados Unidos precisam, necessariamente, responder a este ataque”. A Guarda Revolucionária iraniana afirmou que os bombardeios americanos, que atingiram alvos em Sirik, Jask, Minab, a Ilha de Qeshm e o porto de Bandar Abbas, causaram grandes danos a uma torre de telecomunicações e destruíram dois reservatórios de água. Em resposta, as forças iranianas atacaram bases militares dos EUA em Bahrein, Kuwait e Jordânia. Período de escassez A agência iraniana WANA afirmou que os reservatórios atingidos estavam localizados no distrito de Bamani, no condado de Sirik, a cerca de mil quilômetros de Teerã. Segundo a agência, os prejuízos iniciais foram estimados entre US$ 780 mil e US$ 830 mil. Abdolhamid Hamzehpour, diretor-executivo da companhia de abastecimento de água de Hormozgan, disse que os dois reservatórios tinham capacidade combinada de 2,5 milhões de litros. Os ataques foram especialmente significativos porque ocorreram em um momento de forte escassez hídrica no Irã. O país já enfrentava uma seca prolongada antes mesmo do início da guerra atual. Após anos de práticas agrícolas inadequadas e má gestão dos recursos hídricos, as principais fontes de água do país continuam secando, publicou a al-Jazeera. Segundo dados do Instituto Mundial de Recursos (WRI, em inglês), o estresse hídrico iraniano é classificado como “extremamente alto”, o que significa que mais de 80% dos recursos hídricos renováveis do país são consumidos anualmente. Em novembro de 2025, a crise hídrica era tão grave no país que a represa Amir Kabir, próxima a Teerã, operava com apenas 8% de sua capacidade. Ao todo, 19 barragens já haviam secado. O porta-voz da indústria de água do Irã, Isa Bozorgzadeh, classificou o ataque como um crime de guerra. Pelo direito internacional humanitário, instalações de abastecimento de água são consideradas infraestrutura civil e não constituem alvos militares legítimos. As Regras de Berlim sobre Recursos Hídricos, adotadas em 2004 pela Associação de Direito Internacional, proíbem a destruição de instalações de água quando isso provocar sofrimento desproporcional à população civil. Em atualização.
Go to News Site