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Meu filho não sabe o que fazer no vestibular: como ajudar sem pressionar
Jornal O Globo

Meu filho não sabe o que fazer no vestibular: como ajudar sem pressionar

Este conteúdo faz parte da newsletter Meus Filhos, Minhas Regras?, que responde a perguntas de pais, mães e cuidadores todas as semanas. Inscreva-se gratuitamente para receber toda quarta-feira no seu e-mail. Tem dúvida? Mande sua pergunta sobre crianças e adolescentes e nós vamos atrás de respostas Todas as perguntas: veja a lista completa das dúvidas já respondidas por nós Dúvida da semana ?‍♀️? “Como ajudo meu filho a decidir que curso fazer no vestibular? Ele está perto de fazer a prova do Enem” A dúvida que recebemos parece estar voltada apenas para pais e mães de adolescentes, mas não é bem assim. Escolher uma carreira envolve, sobretudo, a nossa capacidade de fazer escolhas. Já pensou que, ao longo da vida toda, você pode ajudar o seu filho a desenvolver essa habilidade? Desde a infância e a pré-adolescência? Ouvimos especialistas em orientação profissional e adolescência que trazem reflexões valiosas. Elas lembram que a escolha do curso não define toda a trajetória de uma pessoa e que, muitas vezes, até a forma como os pais fazem perguntas pode aumentar a ansiedade dos filhos nesse momento. Se você tem perguntas sobre a educação dos seus filhos, mande para a gente clicando aqui. Palavra das especialistas ‍‍ Ana Paula Loureiro - Educadora, psicopedagoga, psicanalista e orientadora profissional do Colégio Andrews ? A escolha profissional costuma gerar muita ansiedade. Muitos adolescentes sentem que estão decidindo todo o futuro de uma vez só. Mas a orientação profissional hoje entende que a escolha não é um ato isolado, ela é um processo. O papel dos pais não é escolher pelo filho, mas ajudá-lo a construir condições para que essa escolha seja cada vez mais consciente. E, para isso, alguns mitos precisam ser desconstruídos. Mitos que já foram considerados verdades para outras gerações, mas hoje não são mais. Um dos principais é a ideia de que existe uma escolha certa ou uma escolha errada. O que existe é a escolha mais possível e mais consciente para aquele momento da vida. Outro mito é acreditar que essa primeira decisão determina toda a trajetória profissional. Isso já não corresponde à realidade, pois sabemos que a carreira vai sendo construída, atualizada e cuidada ao longo do tempo. ️ Eu costumo dizer que essa primeira escolha é apenas o começo. Ela faz parte de um projeto de vida, mas não é todo o projeto de vida. Existem muitas outras dimensões que compõem quem uma pessoa é e quem ela deseja se tornar. Dois elementos são fundamentais nesse processo de escolha da carreira: autoconhecimento e conhecimento da realidade das profissões. O jovem precisa conhecer a si mesmo, mas também precisa conhecer cursos, universidades, áreas de atuação e o mundo do trabalho. E os pais podem e devem ajudar nessas duas frentes. É importante saber escutar mais do que aconselhar. Muitas vezes, querendo ajudar, acabamos oferecendo respostas prontas ou aumentando a pressão sem perceber. Em vez de perguntas como: "Já escolheu?" "Ainda não sabe o que vai fazer?" "Vai prestar para qual curso?" É mais produtivo perguntar: O que tem despertado sua curiosidade? Quais atividades você gosta de fazer? Como você se imagina daqui a alguns anos? O que está dificultando sua escolha neste momento? ? Esse tipo de conversa reduz a ansiedade e favorece a reflexão. O jovem precisa encontrar espaço para expressar desejos, dúvidas, medos e expectativas. Vale observar como seu filho aprende e se relaciona com o conhecimento. Muitas vezes, a resposta não está apenas na profissão, mas no tipo de assunto que desperta interesse genuíno. Preste atenção em pontos como: Sobre quais temas ele pesquisa espontaneamente? O que gosta de ler, assistir ou ouvir? Que assuntos aparecem com frequência nas conversas? Em quais situações demonstra mais entusiasmo para aprender? Às vezes, essas pistas dizem mais do que listas de profissões ou testes vocacionais. Também é importante ajudá-lo a conhecer melhor as profissões. Conversar sobre diferentes áreas, assistir a entrevistas com profissionais, procurar palestras, visitar universidades (se a escola não oferece esse tipo de trabalho) e conhecer pessoas que trabalham em áreas de interesse pode ampliar muito a compreensão sobre as possibilidades existentes. ⚠️ Outro cuidado importante é não deixar que estereótipos orientem a decisão. Muitos adolescentes escolhem ou descartam cursos baseados em frases que escutam há anos. Ideias como: "Quem faz Administração é porque está perdido"; "Quem gosta de Matemática tem que fazer Engenharia"; "Quem escolhe determinada profissão vai passar dificuldade"; "Quem quer Medicina já deveria saber disso desde criança". Tudo isso simplifica demais uma decisão complexa e pode afastar o jovem de um processo mais autêntico de escolha. ❤️ Um ponto que considero muito importante é o cuidado para não projetar no filho expectativas, frustrações ou sonhos dos pais. Quando chega a fase da escolha profissional, é natural que muitos adultos revisitem suas próprias histórias. Pergunte-se se está motivando ou direcionando; ouvindo o que seu filho quer ou o que você gostaria que ele quisesse. Também é importante lembrar que a capacidade de fazer escolhas não começa no último ano Ensino Médio. Ela é construída ao longo da vida. Escolhas simples do cotidiano já ajudam muito: Decidir como organizar o próprio tempo. Participar de pequenas decisões da família. Lidar com a frustração de não poder ficar com todas as opções. Escolher sempre envolve abrir mão de alguma coisa. E aprender a conviver com essa renúncia faz parte do amadurecimento. Quanto mais oportunidades uma criança e um adolescente têm de fazer escolhas no dia a dia, mais repertório desenvolvem para lidar com decisões maiores no futuro. ? O jovem não precisa sair do Ensino Médio com todas as respostas. O mais importante é que ele desenvolva a capacidade de refletir sobre si mesmo, investigar possibilidades e tomar decisões com cada vez mais autoria e autonomia. A melhor ajuda que os pais podem oferecer é ser companheiros de exploração, e não juízes da escolha. Quando o adolescente sente que pode pensar, experimentar, errar, reconsiderar caminhos e continuar contando com o apoio da família, aumentam muito as chances de uma escolha mais madura e mais próxima de quem ele realmente é. Leia também: Como criar meninos que entendam machismo, assédio e consentimento? Jacqueline Vilela - Psicanalista, professora e palestrante (@jacqvilela) Quando pergunto aos pais o que eles mais desejam para os filhos, a resposta costuma ser quase sempre a mesma: “Quero que ele seja feliz”. Mas, quando chega a hora da escolha profissional, muitas vezes essa frase ganha um complemento silencioso. “Quero que ele seja feliz, mas essa profissão não dá dinheiro”; “Quero que ele seja feliz, mas essa carreira não tem prestígio”; “Quero que ele seja feliz, mas eu gostaria que ele seguisse os passos da família.” ? É natural que os pais tenham expectativas, preocupações e até medos em relação ao futuro dos filhos. O problema surge quando essas preocupações ocupam tanto espaço que impedem conversas mais profundas sobre quem aquele jovem é e o que faz sentido para ele. Por isso, antes de pensar em ajudar seu filho a escolher um curso, vale fazer um exercício de reflexão. ? Quais objeções eu tenho em relação a determinadas profissões? Eu estou realmente disposto a deixar meu filho escolher livremente ou espero que ele siga alguns padrões? Existem receios que preciso reconhecer? Há limitações financeiras que precisam ser conversadas com transparência para que ninguém crie expectativas impossíveis? ✅ Responder a essas perguntas com honestidade é um passo importante. ️ Depois disso, faça uma retrospectiva da sua própria trajetória profissional. Você gosta do que faz? Escolheu sua carreira com consciência ou acabou decidindo sob pressão ou por falta de informação? Já mudou de área ao longo da vida? Sua história pode ensinar muito. Os acertos, os erros, as dúvidas e as mudanças de percurso costumam gerar conversas mais valiosas do que conselhos prontos. Costumo propor aos adolescentes que passam por orientação vocacional um exercício simples: conversar com os pais sobre as profissões da família e montar uma espécie de árvore profissional familiar. Além de aproximar gerações, essa atividade ajuda o jovem a conhecer histórias, valores e possibilidades que muitas vezes nunca foram compartilhados. ? Outro caminho importante é ajudá-lo a observar a si mesmo. Em vez de perguntar apenas “Que profissão você quer seguir?”, vale explorar questões como: O que você gosta de fazer? O que aprende com facilidade? O que gostaria de aprender? Você gosta de trabalhar com pessoas ou prefere atividades mais individuais? Sente prazer em argumentar, criar, cuidar, organizar ou investigar? Muitos jovens acreditam que precisam descobrir um talento extraordinário para encontrar uma profissão. Na realidade, a escolha costuma nascer da combinação de interesses, habilidades, valores e características pessoais. Também é útil observar as disciplinas de que ele mais gosta, os ambientes em que se sente confortável e a forma como se relaciona com o mundo. Ele se imagina trabalhando em ambientes mais dinâmicos ou mais tranquilos? Prefere rotina ou variedade? Sonha em viajar, empreender, pesquisar, liderar equipes ou atuar em espaços mais técnicos? Tudo isso são pistas. Pesquisas mostram que os pais estão entre as principais influências na escolha profissional dos jovens. Isso significa que sua participação faz diferença. Mas a influência mais positiva não é a que aponta um caminho. É a que amplia horizontes, faz perguntas e ajuda o filho a refletir. ? Os pais também podem funcionar como pontes. Podem apresentar profissionais de áreas que despertam interesse, incentivar pesquisas, acompanhar visitas a universidades e até ajudar a construir uma lista de prós e contras das opções consideradas. ⏳ Por fim, uma pergunta importante: para você, seria aceitável que seu filho precisasse de mais tempo para decidir? Nem sempre a melhor escolha é a mais rápida. Em muitos casos, a maturidade para decidir chega justamente quando existe espaço para experimentar, pesquisar e se conhecer melhor. Mais do que ajudar um filho a escolher uma profissão, o papel dos pais é ajudá-lo a construir uma escolha consciente. Tempo de tela: como evitar que crianças e adolescentes fiquem viciados no celular Carolina Delboni - Pedagoga e psicanalista especializada em adolescência (@carolina_delboni) Um dos maiores desafios para as famílias, quando um adolescente está escolhendo um curso ou pensando no futuro profissional, é conseguir se descolar das próprias expectativas. Muitas vezes, os pais constroem desejos, planos e projeções para esse filho ao longo dos anos e, sem perceber, acabam carregando tudo isso para o momento da escolha. ? Para ajudar de verdade, é importante entender que aquilo que parece ser o melhor caminho para os pais pode não ser o melhor caminho para esse adolescente. E fazer essa separação nem sempre é simples. Também vale a pena prestar atenção em alguns preconceitos que ainda aparecem com frequência quando o assunto é profissão. Eu ainda escuto muitos adultos desqualificando determinadas áreas de formação ou determinados cursos. Às vezes o adolescente traz uma possibilidade e a resposta que recebe é algo como: "Para que fazer esse curso?" ou "Não precisa de faculdade para trabalhar nessa área". Quando isso acontece, a escolha que ele está tentando construir já chega marcada por um julgamento. Em vez de desqualificar aquilo que o adolescente traz, é mais produtivo aproveitar a oportunidade para aprender junto com ele. Se existe interesse por uma determinada área, vale pesquisar mais sobre ela. Procurar informações sobre as universidades, conhecer as disciplinas que fazem parte da formação, entender melhor como funciona aquele curso e quais conhecimentos ele desenvolve pode ajudar bastante nesse processo. Ao longo dessa investigação, os pais também podem ajudar o adolescente a identificar aquilo que ele tem de potencial, de habilidade e de competência e que pode dialogar com essas áreas de interesse que estão surgindo. ? No fim das contas, eu acredito que a ajuda mais importante não está em validar ou invalidar uma escolha, mas em acompanhar esse processo de descoberta com curiosidade genuína. Muitas vezes, pesquisar junto e tentar compreender melhor aquilo que desperta interesse no adolescente já é uma forma muito valiosa de apoio. 'Brainrot': o que está por trás desses vídeos que prendem a atenção? Envie sua pergunta e nós vamos atrás de respostas Initial plugin text

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