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Algumas curiosidades sobre a Rainha Elizabeth II na obra do autor Hugo Vickers | Collector
Algumas curiosidades sobre a Rainha Elizabeth II na obra do autor Hugo Vickers
Jornal O Globo

Algumas curiosidades sobre a Rainha Elizabeth II na obra do autor Hugo Vickers

No ano do centenário de seu nascimento, a rainha Elizabeth II virou objeto de exposições, estudos e biografias que se multiplicam pelas livrarias de Londres. Nesta semana, aliás, o mundo teria parado para assistir ao Trooping the Colour, a parada militar com show aéreo que comemora o aniversário do monarca britânico — embora Elizabeth tenha nascido em abril, a celebração foi sempre empurrada para junho, pelos dias mais quentes que permitiam reunir o público sob sol e céu aberto, com ela na sacada de Buckingham. Mas todas as homenagens ainda padecem de imparcialidade: afinal, faz menos de quatro anos que a rainha morreu. Tudo permanece hagiográfico, como se fosse impossível falar mal de uma avó que durou tantas décadas e ficou com uma imagem fofinha na memória da família. Entre os textos mais recentes, talvez o mais interessante seja “Rainha Elizabeth II: uma história pessoal” (“Queen Elizabeth II: a personal history”, ainda sem tradução no Brasil), do cronista da realeza Hugo Vickers. Apaixonado pelo “objeto”, como ele mesmo admite, Vickers pesquisou a fundo os últimos anos da monarca em mais de seiscentas páginas que descreve como uma história de amor iniciada em 1959, quando viu pela primeira vez a rainha passando pela avenida Mall: “atei-me a ela por um fio invisível e voei atrás de suas saias. Ela não sabia que eu existia”. Em 55 anos, encontrou-a mais de 40 vezes. As revelações são deliciosas e melancólicas. Sabemos agora que a rainha colecionava periquitos (a favorita se chamava Emma); que assistiu, nos últimos dias, aos filmes que o avô George V vira nos seus; e que, no fim, sempre que Harry telefonava, ela pedia à dama de companhia que ficasse na sala — o sofrimento causado pelo neto e por sua mulher, Meghan, escreve Vickers, não pode ser subestimado. Em 2022, depois de um verão silencioso em Balmoral, sua cama foi transferida do Palácio de Buckingham para o Castelo de Windsor. Nunca mais voltou. À velha amiga Prue Penn, confidenciou: “sinto que estou na sala de embarque”. E ainda: “pelo menos você não precisa morrer tão publicamente como eu”. Partiu aos 96 anos, sem chegar aos 100 — como, aliás, já tinha previsto, ela que era tão metódica e organiza O efeito hipnótico dos palácios atinge até as mais argutas raposas políticas, como mostra outro livro, “Churchill e a coroa” (“Churchill and the crown”, também sem tradução por aqui), de Ted Powell. Clementine dizia que o marido era o último crente vivo no direito divino dos reis. Para ele, o soberano era uma figura taumatúrgica, “a alma da majestade, o ápice da sociedade, a personificação do romance e da pompa da História”. Seu secretário particular Jock Colville observou que o respeito do primeiro-ministro pela monarquia “beirava a idolatria”. Quando o rei Eduardo VIII abdicou do trono para se casar com a americana duplamente divorciada Wallis Simpson, Churchill quase afundou a carreira defendendo-o no Parlamento. Já com Elizabeth II, jovem e bela, a paixão foi total: chegava ao palácio de cartola e fraque, falava com ela sobre cavalos, e Colville suspeitava que o velho leão estivesse “perdidamente apaixonado” pela rainha, replicando — em sua imaginação — o vínculo de seu ancestral Marlborough com a rainha Anne. As faíscas do poder, os dourados dos palácios e até aquelas fotos fake no Salão Oval da Casa Branca, em meio às companhias mais esdrúxulas, tudo isso ainda suscita suspiros e nos faz esquecer que, desde que o mundo é mundo, a coisa se repete enfadonhamente: enquanto os fogos de artifício explodem no céu e o público se fascina com o espetáculo, os animais correm e enlouquecem na floresta.

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