Jornal O Globo
Israel alcançou o maior nível de controle sobre territórios fora de suas fronteiras em mais de 40 anos. Desde os ataques do Hamas de 7 de outubro de 2023, o Exército israelense expandiu sua presença militar em áreas do Líbano, da Síria e da Faixa de Gaza, somando aproximadamente mil quilômetros quadrados sob seu domínio. A última vez que o país controlou uma extensão semelhante de território estrangeiro foi no início da década de 1980, antes da devolução da Península do Sinai ao Egito e do fim da ocupação de partes do Líbano. Israel usou fósforo branco no Líbano? Saiba o que as evidências visuais dizem Entenda: Pentágono vê crescente ameaça de espionagem vinda de Israel Segundo analistas, a ampliação territorial ocorre em um contexto de revisão da doutrina de segurança israelense após o ataque do Hamas, que deixou cerca de 1,2 mil mortos e se tornou o episódio mais letal da história do país. O avanço militar também coincide com um período de forte superioridade bélica de Israel na região e com um ambiente internacional que, para especialistas, têm oferecido apoio ou pouca resistência às ações israelenses. No sul do Líbano, tropas israelenses avançaram até áreas próximas à cidade de Nabatiyeh e mantêm operações em uma ampla faixa do território. Segundo dados citados em levantamento da Reuters, cerca de 36 mil moradias foram destruídas. Na Síria, Israel passou a controlar outros 235 quilômetros quadrados além das Colinas de Golã. Em Gaza, por sua vez, a área sob controle israelense vem crescendo gradualmente desde o cessar-fogo firmado em 2024. Em março, o premier Benjamin Netanyahu apresentou a nova lógica de atuação do Exército: — Mudamos nosso conceito de segurança. Tomamos a iniciativa, atacamos e criamos três zonas profundas de segurança dentro de território inimigo — afirmou. Laboratório da guerra: Demanda por foguetes transforma fábrica belga em símbolo do rearmamento europeu O movimento ocorre paralelamente à expansão de assentamentos israelenses e ao aumento dos deslocamentos de palestinos na Cisjordânia, ocupada por Israel desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967. A política reúne apoiadores de diferentes correntes dentro do país, desde setores que defendem uma maior “profundidade estratégica” para a defesa nacional até grupos nacionalistas religiosos favoráveis à ideia de um “Grande Israel” baseado em referências bíblicas. Inversão da trajetória Em 1982, Israel concluiu a retirada do Sinai no âmbito do tratado de paz com o Egito. Nos anos 1990, os Acordos de Oslo estabeleceram formas limitadas de autogoverno palestino, enquanto negociações chegaram a abordar a possibilidade de devolução das Colinas de Golã à Síria. Já nos anos 2000, o então premier Ehud Barak retirou as tropas israelenses do sul do Líbano, encerrando uma ocupação iniciada em 1982. Pouco depois, Ariel Sharon promoveu a retirada de soldados e colonos de Gaza por meio do chamado Plano de Desengajamento, medida que hoje é criticada por integrantes do atual governo israelense. Embora Israel tenha mantido controle sobre o espaço aéreo, marítimo e parte das fronteiras de Gaza após a retirada, deixou de manter uma presença militar permanente em solo. Essa situação mudou após o início da guerra, em 2023. Desde então, o Exército israelense ampliou gradualmente as áreas sob seu controle dentro do enclave palestino. No front: Israel atinge subúrbios ao sul de Beirute dias após acordo de cessar-fogo Além da chamada Linha Amarela, estabelecida após o cessar-fogo de outubro de 2024, Israel passou a controlar uma segunda zona restrita, na qual até mesmo agências humanitárias precisam coordenar seus deslocamentos com as autoridades israelenses. A área efetivamente controlada pelas forças de Israel já supera o percentual previsto nos acordos firmados após a suspensão dos combates. Para Yehuda Shaul, codiretor do centro de análise israelense Ofek, há diferenças importantes entre a atuação de Israel em Gaza e nos demais territórios. — No caso da Síria e do Líbano, a lógica é a criação de uma faixa de segurança para evitar uma repetição do que ocorreu em 7 de outubro. A possibilidade de permanência definitiva e de construção de assentamentos nesses locais é praticamente inexistente — disse ele ao El País, acrescentando que a dinâmica em Gaza, porém, é diferente. — Vai além da lógica de segurança. Há também a destruição de Gaza, a concentração da população palestina em áreas menores e até uma certa disposição de expulsá-la. Não parece que isso vá acontecer, mas essa é a força motriz que explica por que as tropas continuam avançando ali. A mudança de postura ficou evidente poucos dias após o ataque do Hamas. Em 9 de outubro de 2023, Netanyahu declarou que o conflito transformaria a região, afirmando explicitamente que iria “mudar o Oriente Médio” e que aquilo era “apenas o começo”. Nas semanas seguintes, integrantes do governo passaram a defender publicamente consequências territoriais para os adversários de Israel. O então chanceler Eli Cohen afirmou que Gaza seria menor ao fim da guerra, enquanto o atual ministro das Relações Exteriores, Gideon Saar, declarou que quem inicia uma guerra contra Israel deve perder território. Autoridades: Soldados israelenses matam bebê de sete meses após disparos contra veículo na Cisjordânia ocupada No Líbano, Israel mantém atualmente uma área que classifica como “zona de amortecimento”, com quase 600 quilômetros quadrados. Imagens de satélite apontam a existência de pelo menos sete bases militares israelenses na região. Paralelamente, operações militares e ordens de evacuação têm alcançado áreas muito além desse perímetro. Pelo menos 300 municípios foram afetados por evacuações, tornando inacessíveis aos moradores cerca de dois mil quilômetros quadrados do território libanês — quase um quinto da área total do país. Na Síria, a expansão ocorreu após a queda do regime de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024. Aproveitando o período de instabilidade, Israel avançou sobre novas áreas e lançou ataques contra estruturas estratégicas das Forças Armadas do país. O que começou como uma operação apresentada como limitada acabou resultando na ocupação do lado sírio do Monte Hermon e de toda a zona desmilitarizada estabelecida entre os dois países. A análise de imagens de satélite indica que Israel passou a controlar outros 235 quilômetros quadrados entre a montanha e o rio Yarmuk, próximo à fronteira com a Jordânia. — Não nos moveremos nem um único milímetro — declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, indicando que as tropas permanecerão em suas novas posições. As forças israelenses também passaram a realizar incursões frequentes em um raio de até 15 quilômetros a partir dessas posições. Apesar disso, as tensões entre Israel e o novo governo sírio perderam visibilidade nos últimos meses, enquanto ambos buscam aproximação com o presidente americano, Donald Trump, que tem demonstrado simpatia pelo novo líder sírio, Ahmed al-Sharaa.
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