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Artigo: terceira via é espécie de Peter Pan tropical
Jornal O Globo

Artigo: terceira via é espécie de Peter Pan tropical

O tsunami do caso Flávio Bolsonaro não mexeu com o cenário dos indecisos. Enquanto o pacote do incumbente tem impacto a banho maria, a “terceira via” é uma espécie de Peter Pan tropical. A eliminação da “taxa das blusinhas”, o subsídio para compra de carros novos para motoristas de aplicativos e táxi e o programa Desenrola Brasil 2 ajudam, mas não mexem o ponteiro eleitoral, por ora. O sentimento é o de que essas medidas trazem alívio momentâneo, mas têm dificuldades em resolver problemas estruturais. O “desenrola” conta com alto recall e valorização, um programa que já funcionou. É o maior ativo, um plano com história. Hoje, ainda não tem força por si só para converter voto. No entanto, a somatória de pequenos fatos acaba favorecendo o governo. Parece ser um “work in progress”. Uma crítica recorrente que se escutou nas pesquisas qualitativas do Plaza Pública de maio é que essas medidas chegam fora de timing, nos acréscimos do segundo tempo. O caso das blusinhas é de fato um recuo do governo a uma medida que na época foi impopular. O desafio para o governo está em mostrar que as ações recentes do incumbente não são apenas um ato eleitoral. “Blusinhas” é um passivo nesse sentido: volta atrás em um imposto que se imagina precisará se repor de algum modo na arrecadação. Interessante notar um fato, percebido em diversas interações qualitativas. Eleitores que hoje possuem o benefício do Bolsa Família se mostram receosos de votar no Lula. Assumem que o Bolsa Família, por exemplo, é um benefício adquirido, uma política de Estado que independe do governo de turno. “A história das blusinhas é eleitoral, só para dizer que tirou antes das eleições, um cala boca...”, diz uma jovem carioca de 28 anos, votante do Lula em 2022, hoje indecisa, com tendência de votar em Flávio Bolsonaro. Será que esse efeito se expande em um universo maior que o das qualitativas? O Desenrola Brasil cumpre seu papel: descontos significativos para limpar o nome do cidadão que mais precisa. Ajuda a economia “girar”, traz consumidores novamente para o mercado. No entanto, a medida resolve o presente. Em alguns casos, compromete o futuro. Há uma percepção de que perde a eficácia numa linha do tempo porque os salários atuais não acompanham o custo de vida. “Bacana, mas resolve hoje é ficam as dívidas para amanhã....”, diz um eleitor do Lula em 2022, hoje indeciso. Para os eleitores lulistas, a medida é uma amostra clara da preocupação com os que menos têm, ao poder congelar as dívidas por seis meses, por exemplo. Se as medidas do incumbente têm impacto de baixa intensidade por ora, a tentativa de furar a polarização sofre com dois fenômenos simultâneos. Em primeiro lugar, e mais relevante: o desconhecimento e falta de interesse nas propostas de nomes como Ronaldo Caiado e Romeu Zema (o que se conhece dele agrada pouco). Um Peter Pan da “Terceira Via”: “Não temos escolha...entra gente, sai gente, e vai continuar a mesma coisa...”. Em segundo lugar, uma apatia e ressaca emocional que decanta em pensar em desistir de ir às urnas: terceirizar a coisa pública, jogar a decisão para outros. “Desisti...nada presta, vou deixar para população, não quero essa responsabilidade...”, diz um jovem morador da Baixada Fluminense. Há um signo novo, produto do cansaço com a polarização e ressaca emocional: o público independente quer uma campanha propositiva, que o foco esteja em dizer o que vai ser feito. Coisas concretas que fujam do tom “promessa de campanha eleitoral”. Menos discurso publicitário de época. Mas, sobretudo, evitar que o único discurso seja por o dedo na ferida do outro. Há um desejo de abandonar a polarização tóxica, embora não exista ilusão ingênua de que a polarização cai. Há, sim, a percepção de que uma eventual saída do Flávio Bolsonaro da disputa, por exemplo, diminuiria as fricções. Não há sonho encantado: o país vai continuar fraturado, mas o tom seria outro. “Não gostaria que o Zema por exemplo só focasse seu discurso em Lula fez isto ou aquilo. E, sim, em quais são as propostas concretas, o que ele fez em Minas, o que faria no Brasil....”. Ponto interessante: para os progressistas, é difícil saber quem são os independentes, parecem quase invisíveis, não se manifestam, se escondem no silêncio. “Tem gente escondida que não dá para saber mesmo, ou que votaram no Bolsonaro e agora estão acima do muro....”. Um coletivo silencioso que não decola. * Eduardo Sincofsky é mestre em Análise da Opinião Pública e psicólogo. Trabalha com pesquisa qualitativa há mais de 30 anos. É diretor do Projeto Plaza Publica, barômetro que mede qualitativamente a agenda do país de maneira periódica.

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