Jornal O Globo
Os oceanos se encontram em uma "crise que se aprofunda" e que exige uma ação mundial urgente, advertiu a ONU nesta segunda-feira (8) em um relatório, no qual também alertou para o aumento da temperatura e a elevação do nível dos mares. Ameaça: Rã-touro 'muge' e é considerada perigosa e invasora; conheça a espécie em monitoramento em Florianópolis Às vésperas da Copa do Mundo, EUA têm segunda primavera mais quente já registrada em 132 anos Ao mesmo tempo, a cobertura de gelo está diminuindo e os ecossistemas marinhos estão submetidos a uma pressão crescente. Após cinco anos de trabalho de 600 cientistas internacionais, o volumoso relatório de 1.352 páginas detalha o custo crescente das mudanças climáticas, da poluição e da sobrepesca nos oceanos, que cobrem mais de 70% do planeta. "O oceano é a base da vida na Terra. Mas sua saúde corre grave perigo, já que os ecossistemas e habitats estão se aproximando ou ultrapassando pontos críticos de não retorno", segundo a terceira Avaliação Mundial dos Oceanos (WOA, na sigla em inglês) das Nações Unidas. Os oceanos são fundamentais para o planeta, porque regulam o clima e fornecem alimento para bilhões de pessoas. A WOA advertiu sobre "uma crise que se aprofunda, à medida que as mudanças climáticas, a poluição, a sobrepesca e a perda de biodiversidade submetem os sistemas oceânicos a uma pressão extrema". Entenda: Calor extremo poderá adiar partidas da Copa do Mundo se a temperatura ultrapassar os 32ºC em índice A situação exige uma ação urgente, por meio de uma cooperação multilateral mais forte, maior ambição e decisões baseadas na melhor ciência disponível, acrescentou o organismo. "Não podemos continuar tratando o oceano como se fosse ilimitado", declarou em comunicado o secretário-geral da ONU, António Guterres. Aquecimento e elevação mais rápidos O relatório, que abrange principalmente o período entre 2018 e 2023, traça um panorama contundente sobre o estado dos oceanos. Cerca de 16% do aumento total do conteúdo de calor oceânico registrado desde 1955 ocorreu apenas desde 2018, segundo a avaliação. Os oceanos absorveram mais de 90% do excesso de calor e 30% do CO2 liberado na atmosfera pela queima de combustíveis fósseis. Copa do Mundo e clima: por que mudar os jogos para a noite não é suficiente para enfrentar o calor extremo À medida que a água aquece, ela se expande, o que contribui para a elevação do nível do mar juntamente com a água proveniente do derretimento de geleiras e mantos de gelo. O nível do mar continua aumentando em ritmos cada vez maiores: a elevação passou de menos de 2,0 milímetros por ano antes de 2015 para 4,3 mm em 2023. Embora os milímetros possam parecer pouco, "eles se acumulam muito rapidamente", declarou à AFP Ian Butler, ecólogo marinho baseado na Austrália e um dos coordenadores do grupo de especialistas da WOA. O Oceano Ártico poderá perder sua cobertura de gelo por volta da metade do século, indicou o relatório. — Estamos considerando seriamente um Oceano Ártico sem gelo durante partes do ano dentro de 10 ou 20 anos — disse Butler. O degelo no polo norte também está remodelando a geopolítica, abrindo rotas marítimas antes inacessíveis e aumentando a competição entre grandes potências, entre elas os Estados Unidos, a Rússia e a China. Mais recordes: França e Noruega vivem primavera mais quente de sua história; onda de calor atinge parte da Europa No polo sul, o gelo marinho antártico, que havia aumentado gradualmente entre 1979 e 2015, diminuiu rapidamente desde 2016, segundo a pesquisa da ONU. As mudanças climáticas também estão transformando a vida marinha, e algumas espécies de peixes estão migrando para águas mais frias ou mais profundas para sobreviver. — Algumas não têm futuro algum porque não têm para onde ir — observou Butler. Os recifes de coral estão entre os ecossistemas mais ameaçados. As sucessivas ondas de calor marinhas e as tempestades "deixam muito pouco tempo para a recuperação e estão empurrando os recifes para o colapso", segundo o relatório. Os episódios de branqueamento desde 2018 provocaram uma mortalidade generalizada dos corais, e a WOA adverte que 90% dos recifes poderão desaparecer se o aquecimento ultrapassar 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Do Rio Reno ao Atlântico Norte: entenda a viagem de mais de 8 mil km feita por salmões Microplástico A ONU também insistiu que a produção de plásticos deve ser reduzida. Todos os anos, 52,1 milhões de toneladas de resíduos plásticos chegam ao oceano, contribuindo para um total estimado de 24,4 trilhões de partículas de microplástico. Sabe-se agora que os microplásticos afetam mais de 4.000 espécies marinhas. A WOA publicou seu relatório enquanto o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se prepara para retirar centenas de instrumentos científicos de águas profundas que vêm sendo utilizados há uma década para monitorar os efeitos das mudanças climáticas nos ambientes marinhos. — Sua retirada deixaria uma enorme lacuna em nossa ciência oceânica de longo prazo — enfatizou Butler.
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