Jornal O Globo
Os oceanos estão em uma "crise crescente" que exige ação global urgente. O alerta foi divulgado nesta segunda-feira num importante relatório da ONU, que destaca o aquecimento e a elevação dos mares ocorrendo mais rapidamente, a cobertura de gelo diminuindo e os ecossistemas marinhos sob crescente pressão. O relatório de 1.352 páginas, resultado de cinco anos de trabalho de 600 cientistas internacionais, detalha o impacto crescente das mudanças climáticas, da poluição e da sobrepesca em nossos oceanos, que cobrem mais de 70% do planeta. Terremoto nas Filipinas: Sobe para 32 o número de mortos após tremores de magnitude 7,8 na costa do país; vídeos Veja também: Cidade japonesa fecha 94 escolas após relatos de ursos nas ruas "O oceano é a base da vida na Terra. Mas sua saúde está em grave risco, à medida que os ecossistemas e habitats se aproximam ou ultrapassam pontos de inflexão críticos", afirmou a terceira Avaliação Mundial dos Oceanos (WOA, na sigla em inglês) das Nações Unidas. Os oceanos desempenham um papel fundamental para o planeta, regulando o clima e alimentando bilhões de pessoas. Mas a WOA alertou para "uma crise crescente, à medida que as mudanças climáticas, a poluição, a sobrepesca e a perda de biodiversidade colocam os sistemas oceânicos sob forte pressão". As conclusões "exigem ação urgente, por meio de uma cooperação multilateral mais forte, maior ambição e decisões baseadas na melhor ciência disponível". A WOA saudou a entrada em vigor, em janeiro, de um tratado da ONU para proteger e utilizar de forma sustentável a vida marinha em águas internacionais, afirmando que ele "estabelece um marco histórico para a gestão dos oceanos e a cooperação multilateral". "Não podemos continuar tratando o oceano como ilimitado", disse o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, em um comunicado. "Precisamos construir uma nova relação com o oceano: fundamentada na ciência, enquadrada pelo direito internacional e construída sobre a responsabilidade compartilhada". Caribe: Terremoto de magnitude 6,1 atinge costa oeste de Cuba e é sentido até na Flórida, nos EUA Aquecimento e elevação acelerados O relatório, que abrange principalmente o período entre 2018 e 2023, pinta um quadro sombrio do estado dos oceanos. Cerca de 16% do aumento total no conteúdo de calor dos oceanos registrado desde 1955 ocorreu somente desde 2018, constatou a avaliação. Os oceanos absorveram mais de 90% do excesso de calor e 30% do CO2 liberado na atmosfera pela queima de combustíveis fósseis. Com o aquecimento das águas, elas se expandem, contribuindo para a elevação do nível do mar juntamente com o derretimento de geleiras e calotas polares. "O nível do mar continua a subir a taxas crescentes", ressalta o relatório, mais que dobrando de menos de 2,0 milímetros por ano antes de 2015 para 4,3 mm em 2023. Embora milímetros possam parecer pouco, eles "se multiplicam muito rapidamente", disse à AFP Ian Butler, ecologista marinho radicado na Austrália e coordenador do grupo de especialistas da WOA. Semana do Clima no Rio: TV Globo lança campanha de conscientização ambiental no Fórum Freio de Emergência Climática Derretimento do gelo — Estamos considerando seriamente a possibilidade de um Oceano Ártico sem gelo em partes do ano dentro de 10 ou 20 anos — afirmou Butler. O Oceano Ártico poderá ficar sem gelo em setembro até meados do século, com as condições mais precoces possíveis na década de 2030, considerando todos os cenários de emissões, segundo o relatório. O derretimento do gelo no Polo Norte também está remodelando a geopolítica, abrindo rotas de navegação antes inacessíveis e intensificando a competição entre as principais potências, incluindo Estados Unidos, Rússia e China. No Polo Sul, o gelo marinho da Antártida, que havia aumentado gradualmente entre 1979 e 2015, "diminuiu rapidamente" desde 2016. Ecossistemas marinhos As mudanças climáticas também estão remodelando a vida marinha, com algumas espécies de peixes migrando para águas mais frias ou profundas para sobreviver. — Algumas não têm futuro algum porque não há para onde ir — alertou Butler. Os recifes de coral estão entre os ecossistemas mais ameaçados. Ondas de calor e tempestades marinhas repetidas "deixam pouco tempo para a recuperação e estão levando os recifes ao colapso", afirmou o relatório. Eventos de branqueamento desde 2018 causaram mortalidade generalizada de corais, e a WOA alerta que 90% dos recifes podem desaparecer se o aquecimento ultrapassar 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Apreensão: Especialistas fazem simulações sobre o Super El Niño, fenômeno que assusta quem viveu tragédia com 900 mortos há 15 anos Poluição por plástico O relatório pediu uma redução na produção de plásticos — uma questão que está paralisada nas negociações internacionais. A cada ano, 52,1 milhões de toneladas de resíduos plásticos são despejadas no oceano, contribuindo para uma estimativa de 24,4 trilhões de partículas de microplástico. Sabe-se agora que os microplásticos afetam mais de 4.000 espécies marinhas. Mineração em águas profundas O relatório destacou ainda as crescentes preocupações com a mineração em águas profundas e pediu uma resposta internacional coordenada. Embora essa exploração esteja bastante avançada, nenhuma empresa ou nação iniciou a produção em escala comercial. Os críticos temem que isso sufoque a vida marinha com resíduos e que o ruído das máquinas pesadas interrompa as migrações oceânicas. "Este relatório deve servir como um alerta urgente para que os governos ajam na proteção do oceano", afirmou o grupo ambientalista Greenpeace em um comunicado. Lauro Jardim: Doc brasileiro inédito revela bastidores de iniciativa global sobre crise climática Cortes de Trump no oceano O WOA surge em um momento em que o governo do presidente dos EUA, Donald Trump, se prepara para remover centenas de instrumentos científicos em águas profundas, utilizados há uma década para monitorar os efeitos das mudanças climáticas nos ambientes marinhos. — O sistema de monitoramento do oceano profundo é uma parte extremamente importante do nosso monitoramento e compreensão global do oceano — ressaltou Butler. — A sua remoção deixaria uma enorme lacuna em nossa ciência oceânica de longo prazo.
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