Jornal O Globo
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nomeou nesta segunda-feira seu ex-advogado pessoal, Todd Blanche, para o cargo de procurador-geral, elevando um aliado leal e de confiança que, como procurador-geral interino, demonstrou disposição para atender às exigências mais rigorosas do líder republicano. O anúncio, insinuado por funcionários da Casa Branca na semana passada, ocorre em meio ao crescente escrutínio público sobre Blanche devido ao seu papel na iniciativa do governo de aprovar um fundo de US$ 1,8 bilhão (R$ 9,3 bilhões), com dinheiro dos contribuintes, para indenizar aqueles que alegam ter sido vítimas de perseguição política por parte do governo durante o mandato do ex-presidente Joe Biden, incluindo, muito provavelmente, os manifestantes que atacaram o Capitólio em 6 de janeiro de 2021. Entenda: Republicanos derrotam tentativa de impedir Trump de criar fundo de US$ 1,8 bilhão para indenizar aliados Guerra no Oriente Médio: Trump afirma que Israel e Irã buscam 'cessar-fogo imediato' enquanto países sinalizam suspensão de ataques; veja vídeos A nomeação foi divulgada em um comunicado publicado na segunda-feira no site da Casa Branca, informando que Trump havia enviado o nome de Blanche ao Senado. Ainda não está claro se o advogado, que promoveu uma visão expansiva do poder Executivo em detrimento do Legislativo, tanto como advogado de defesa de Trump quanto como segundo em comando do Departamento de Justiça, terá apoio suficiente no Senado para ser confirmado, em meio ao aumento das tensões entre a Casa Branca e os republicanos no Congresso. Uma audiência de confirmação para Blanche pode representar um teste político delicado para os republicanos, enquanto o partido se prepara para as eleições de meio de mandato deste ano. Uma reunião recente a portas fechadas entre Blanche e senadores republicanos foi descrita como tensa, com dezenas de parlamentares criticando duramente o advogado em relação ao fundo de US$ 1,8 bilhão. Os senadores, no entanto, não conseguiram aprovar restrições a tais pagamentos, sugerindo que seu descontentamento com a Casa Branca pode ter diminuído. Seu caminho para a nomeação permanente que tanto almeja também será complicado pela persistente mágoa — e por perguntas sem resposta — relacionadas à sua gestão da divulgação de milhões de páginas de arquivos investigativos referentes ao criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein. Nas últimas semanas, sua antecessora, Pam Bondi — que foi demitida em abril após Trump ter expressado publicamente sua frustração com os esforços dela para processar seus inimigos políticos — atribuiu a principal responsabilidade pela divulgação dos arquivos de Epstein a Blanche durante uma entrevista a uma comissão da Câmara. Blanche, ex-procurador federal em Manhattan, abandonou sua reputação de voz moderada dentro do departamento ao buscar energicamente um cargo cujo principal pré-requisito, na visão de funcionários atuais e antigos, é nunca dizer não ao chefe. Uma ampla gama de ex-funcionários da lei criticou duramente o tipo de justiça de Blanche, afirmando que ele usou o poder de acusação para punir os inimigos de Trump e, nesse processo, prejudicou gravemente a reputação do departamento perante os tribunais e o público. Como procurador-geral interino, Blanche tomou uma série de medidas contra alvos de Trump, incluindo a autorização para indiciar James B. Comey, ex-diretor do FBI, por publicar nas redes sociais uma imagem de conchas dispostas de maneira a formar a frase “86-47”, que Blanche descreveu como uma ameaça crível de violência contra um presidente em exercício. Isso porque a expressão “86” é uma gíria que surgiu no jargão de restaurantes para significar jogar algo fora, e “47” teoricamente se refere a Trump, o 47º presidente dos Estados Unidos. Blanche chegou a expressar reservas internas sobre o plano bastante incomum de criação do fundo, que também incluía uma ampla proteção contra investigações fiscais para Trump, sua família e seus negócios, que poderiam valer mais de US$ 100 milhões (R$ 520 milhões). Mas o ex-advogado pessoal do presidente e um de seus principais assessores, Stanley Woodward Jr., aprovaram o plano, ao contrário de alguns nomeados de primeiro mandato de Trump que renunciaram ou ofereceram forte resistência quando confrontados com exigências que consideravam questionáveis. O plano foi imediatamente atacado como um fundo político ilícito por democratas e republicanos. Initial plugin text Em depoimento perante os parlamentares na semana passada, Blanche disse que o Departamento de Justiça estava desistindo do plano para o fundo, mas manteria a proteção de Trump contra investigações fiscais. Mais tarde, o presidente americano questionou o abandono do fundo, dizendo: "Eu adoro isso". — Todd Blanche nunca deixou de agir como advogado pessoal de Donald Trump — disse Stacey Young, fundadora da Justice Connection, uma organização de ex-funcionários do departamento que inclui muitos procuradores de carreira forçados a sair por Blanche, que buscava remodelar o departamento ao gosto de Trump. — Ele usou sua posição de destaque no departamento para fazer um acordo corrupto com o presidente e sua família, promover processos vingativos, demitir ilegalmente funcionários de carreira, difamar denunciantes e atacar o Judiciário. O fundo foi resultado de negociações secretas entre os advogados particulares de Trump e funcionários que trabalhavam para Blanche, como forma de resolver um processo de US$ 10 bilhões (R$ 52 bilhões) que Trump havia movido contra o governo devido ao vazamento de suas declarações de imposto de renda, e reivindicações não relacionadas de cerca de US$ 230 milhões (R$ 1,19 bilhões) que Trump havia apresentado contra o Departamento de Justiça e o FBI por investigações e processos anteriores. Blanche e sua equipe buscaram criar um acordo que impedisse o governo de pagar dinheiro dos contribuintes a Trump, o que eles consideravam uma potencial catástrofe ética, legal e política. Em seu depoimento aos senadores na última terça-feira, Blanche insistiu que a proteção de Trump e de sua família contra auditorias ou investigações fiscais não seria afetada pela retirada da proposta do fundo e permaneceria em vigor. — Então, a imunidade total não é algo que o senhor vai revogar? — perguntou a deputada Rosa DeLauro, democrata de Connecticut, que acusou Blanche de priorizar os interesses financeiros do presidente em detrimento do bem público. — O senhor não deveria estar neste cargo. Derrota para Trump: Juiz declara que taxa de US$ 100 mil para visto de trabalho nos EUA é ilegal Mas Trump, que afirmou dever sua liberdade aos esforços jurídicos incansáveis de Blanche em seu nome nos processos criminais contra ele, parece acreditar no contrário. Blanche conquistou a confiança do magnata enquanto o republicano estava fora do cargo, enfrentando múltiplas investigações e acusações. Blanche tornou-se advogado de defesa de Trump em 2023 e o representou quando ele foi a julgamento um ano depois, na cidade de Nova York. Trump foi condenado por falsificação de documentos comerciais. Desde que assumiu o cargo de vice-procurador-geral no início de 2025, Blanche implementou mudanças drásticas no Departamento de Justiça, onde descreveu com orgulho a demissão de mais de 200 agentes e promotores que trabalharam em casos envolvendo Trump ou seus aliados. Ele também falou sobre estar em guerra com os juízes federais.
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