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Adriana Negreiros revela a Dercy Gonçalves por trás da diva debochada em livro | Collector
Adriana Negreiros revela a Dercy Gonçalves por trás da diva debochada em livro

Adriana Negreiros revela a Dercy Gonçalves por trás da diva debochada em livro

Ela não sabia ler direito. Pouco antes de entrar em cena, alguém lia o texto da peça em voz alta, Dercy Gonçalves captava o sentido geral e subia ao palco para improvisar o resto. O que começou como limitação de uma menina pobre e quase sem escola virou assinatura, e fez dela a maior rainha do improviso que o teatro brasileiro já teve. É essa mulher, e não a caricatura do palavrão, que a jornalista Adriana Negreiros persegue em DERCY: A diva debochada (Objetiva), biografia recém-lançada. "É preciso contrariar o espírito do tempo, porque é assim que a gente avança", diz a autora em entrevista exclusiva à Vogue Brasil. "A Dercy era esse caso." O livro acompanha a atriz por mais de oito décadas, da saída de Santa Maria Madalena, na Serra Fluminense, até a velhice, e atravessa no caminho a própria história do teatro brasileiro, cruzando figuras do jornalismo, da política, das artes e do entretenimento que orbitavam uma mulher que se recusava a sair de cena. Dercy foi taxada de pornográfica, imoral e indecente a vida inteira. Era engraçada numa época em que o humor passava por coisa de homem, dizia palavrão quando isso não se esperava de uma mulher e tinha predileção por amantes mais jovens. Bastava. Seu contemporâneo Chacrinha, igualmente irreverente e grotesco, no máximo era chamado de louco, enquanto dela se exigia comportamento exemplar. Curiosamente, ela detestava o rótulo que hoje soaria como elogio. "Odiava ser chamada de irreverente", conta Negreiros, porque achava que o adjetivo fazia com que nada do que ela dizia fosse levado a sério. Selecionar uma imagem Houve até uma fase em que tentou se domar. Prometeu virar uma atriz cujos espetáculos jamais ofenderiam ouvidos de crianças e de idosos, que não contrariaria os bons costumes. Não durou. Em 1970, no auge da audiência na televisão, foi demitida sob a justificativa de que contrariava o que o governo militar esperava da programação. Nunca maneirou. "Ela jamais seguiu a recomendação. Foi sempre uma mulher muito autêntica", diz a autora. Adriana Negreiros Renato Parada/Divulgação Por trás da figura pública havia Dolores, o nome de batismo. A Dercy do palco era o deboche e o improviso. Dolores era a mulher que ficava em casa comendo rabada, conservadora nos costumes, que não deixava a filha falar palavrão e não gostava nem de tomar banho nem de sexo, e que lidava com a solidão longe dos holofotes. "Era ela mesma quem estabelecia essa dupla personalidade", explica Negreiros, que confessa ter se apaixonado pela personagem ao longo da pesquisa. Aos 30 anos, a crítica já a tratava como velha. Dercy morreu aos 101, depois de mais de sete décadas lidando com o etarismo. Confira a entrevista com Adriana abaixo: Vogue: Por que a Dercy? Com uma vida tão longa e uma carreira tão vasta, o que nela te fisgou como biógrafa? Adriana Negreiros: Comecei esse projeto com uma intenção bastante audaciosa: contar a história das mulheres no Brasil no século XX. Eu já tinha feito outros dois livros que percorreram boa parte desse período, e me parecia um tempo de transformações enormes na vida das mulheres, valia a pena me debruçar sobre ele. Só que eu precisava de uma cicerone, uma espécie de anfitriã do século, alguém que pudesse me contar essa história a partir da própria trajetória. A Dercy era o nome perfeito: nasceu em 1907, morreu em 2008, atravessou o século inteiro e viveu todas essas transformações. O que me fisgou nela, além do temperamento atraente e diferente, diferente das mulheres da época dela e até das de hoje, foi o fato de ter ocupado os espaços públicos a vida toda. A Dercy nunca foi uma mulher circunscrita à vida privada, que era o convencional para as mulheres durante quase todo o século passado. Ela foi sempre da esfera pública. E teve uma vida cheia de altos e baixos, de boas histórias para contar, o retrato de um período em que a mulher que queria ser artista era quase sempre incompreendida. Para vencer nessa seara, era preciso ser muito valente. E a Dercy foi de uma valentia ímpar. Seus três livros têm mulheres no centro: Maria Bonita, A vida nunca mais será a mesma e agora a Dercy. O que te atrai nesse território? Meus três livros têm mulheres no centro por duas razões. A primeira é que sou uma mulher feminista e acho que, historicamente, as histórias dos homens foram contadas com primazia, em detrimento das histórias das mulheres. Tenho o compromisso de dar a minha modesta contribuição para que as histórias delas ganhem proeminência. A segunda razão é jornalística: sou repórter e sei que já há muito olhar voltado para as trajetórias masculinas, enquanto o campo das histórias de mulheres ainda é vasto e pouco explorado. É nessa empreitada que estou. Meu próximo livro, sobre a Aracy de Carvalho, também será centrado numa figura feminina. Isso não quer dizer que eu tenha vestido uma camisa de força e nunca mais possa escrever sobre homens, mas, por enquanto, é nas histórias de vida das mulheres que está o meu interesse, justamente porque a história sempre privilegiou as masculinas. A imagem pública da Dercy é quase uma caricatura: o palavrão, o deboche, a irreverência. O que a pesquisa revelou sobre a mulher por trás dessa persona? Na vida pública, a Dercy era de fato uma mulher debochada e irreverente, ainda que odiasse ser chamada de irreverente, porque achava que o adjetivo fazia com que tudo o que ela dizia não fosse levado a sério. Mas ela foi muito mais do que isso. Foi um gênio do teatro brasileiro, a grande rainha do improviso, uma atriz com uma capacidade rara de se comunicar com o público, reconhecida pelos próprios pares como gênia. Na vida privada, porém, essa figura do palavrão não se sustentava por inteiro. A Dercy íntima falava pouco, gostava de uma vida mais pacata e doméstica, lidava com os próprios fantasmas, sobretudo a solidão e as dificuldades amorosas. É um personagem dicotômico: um comportamento no espaço público, outro no privado. Não que sejam contraditórios ou se anulem, mas, no espaço seguro da vida privada, ela deixava aflorar uma faceta que os holofotes não captavam, a de uma mulher mais recolhida, conservadora nos costumes, que prezava certo recato e não admitia, por exemplo, que a filha falasse palavrão, porque considerava desrespeitoso. São essas ambivalências que a tornam tão fascinante de biografar. Você escreve que a imprensa da época rotulou a Dercy de artista pornográfica, um estigma que ofuscou a genialidade dela no teatro. Como esse rótulo foi construído e o que ele diz sobre o conservadorismo do período? A Dercy foi taxada de pornográfica, imoral e indecente a vida inteira, e isso diz muito sobre como a imprensa via as mulheres nas artes e sobre o que se esperava delas. Pegue as vedetes do teatro de revista: esperava-se que fossem bonitas e que tivessem um humor ingênuo, quase embrutecido, que sugeria mulheres tão inocentes a ponto de parecerem desprovidas de inteligência. Muitas incorporavam esse papel da mocinha bonita e distraída. A Dercy jamais vestiu essa máscara. Sempre contrariou as expectativas de gênero depositadas sobre ela e sobre as outras mulheres, e nunca se rendeu à cobrança para que fosse recatada e pudica, ainda que à custa da própria objetificação, como acontecia com as vedetes, mulheres extremamente sexualizadas de quem, ao mesmo tempo, se exigia um comportamento que contradizia o que de fato se buscava nelas, o prazer masculino. A Dercy era engraçada numa época em que se dizia que o humor era uma qualidade mais masculina do que feminina. Os jornais chegavam a se surpreender com uma mulher dotada para a comédia. E ela dizia palavrão, o que não se esperava de uma mulher. Homens que agiam como ela nunca eram cobrados da mesma forma. O melhor exemplo é o Chacrinha, contemporâneo dela: também irreverente, com um humor que flertava com o grotesco, mas as críticas que recebia não se pareciam com as feitas a ela. Dele, quando muito, diziam que era louco. Dela, exigiam um comportamento exemplar por ser mulher, e a classificavam como pornográfica, como velha indecente. A Dercy também sempre teve predileção por homens mais novos, e foi muito criticada por isso, enquanto os homens que se relacionavam com mulheres bem mais jovens nunca enfrentaram a mesma cobrança. A Dercy enfrentou censura, abusos e preconceitos durante décadas. Como ela respondia a isso? Ela respondeu a tudo isso à sua maneira debochada, e nunca se curvou. Houve momentos em que tentou se domesticar um pouco. Chegou a dizer, numa certa época, que seria uma atriz cujos espetáculos jamais ofenderiam os ouvidos de crianças e de idosos, que agiria de modo a não contrariar os bons costumes. Tentou se domar, por assim dizer, mas não conseguia, não era dela. A Dercy era a mulher do improviso, e no improviso dizia o que vinha à cabeça, ainda que aquilo atentasse contra a moral e os bons costumes. Ela nunca se curvou ao moralismo e à patrulha que tantas vezes lhe impuseram. Isso teve um preço. Em 1970, ela liderava a audiência na televisão e foi demitida sob a justificativa de que o programa e o seu jeito de agir contrariavam o que o governo militar da época esperava da programação, e também porque ia contra uma tendência da emissora de sofisticar a sua grade. Por mais que a chamassem a atenção para que maneirasse, ela jamais seguiu a recomendação. Foi sempre uma mulher muito autêntica nesse sentido. O livro mostra que a irreverência trouxe fama, mas também solidão. Você consegue separar a Dercy pública da Dercy íntima? Consigo, e a própria Dercy fazia essa separação. Ela se chamava Dolores. Dercy era o nome artístico, e ela estabelecia uma divisão entre as duas. Dercy era a mulher que o público conhecia, a atriz da vida pública. Dolores era a que ficava em casa comendo rabada, de hábitos simples, que não gostava de tomar banho, não gostava de sexo, uma mulher um pouco solitária. Ela dizia que Dolores não gostava muito de Dercy, mas precisava dela para se sustentar, e que Dercy, por sua vez, tinha as suas birras com Dolores, mas precisava dela nos momentos de recolhimento. Era ela mesma quem estabelecia essa dupla personalidade: uma máscara pública que podia depor na vida privada para voltar a ser a Dolores, a menina que nasceu em Santa Maria Madalena, na Serra Fluminense. O que a trajetória da Dercy diz sobre os limites que ainda colocamos sobre as mulheres que provocam? A trajetória dela nos ensina que o machismo, infelizmente, tem sido um companheiro da vida das mulheres. No caso da Dercy, os limites impostos foram todos muito sexistas e etaristas, e o etarismo também entra na conta do machismo. Ainda assim, a seu modo, sem ser militante, e mesmo tendo muitas birras com o feminismo, ela ultrapassou muitas dessas fronteiras e muitos desses limites que lhe foram impostos. O que uma jovem de 2026 pode aprender com a trajetória dela? Acho que a maior lição não é só para as jovens, é para todos nós: é preciso ter coragem. A Dercy foi uma mulher que sempre contrariou o espírito do seu tempo, nunca se rendeu às cobranças dele, porque estava à frente, ainda que não levantasse bandeiras. A coragem é um bom guia nesta vida, e ela foi uma mulher de uma coragem rara. Você chegou a se apaixonar pela personagem durante a pesquisa, chegou a chamá-la de Dercyzinha. O que ela te ensinou? Cheguei, sim, a me apaixonar pela Dercy. O que ela me ensinou foi justamente isto: que é preciso ter coragem, inclusive para contrariar o espírito do nosso tempo. É preciso não seguir a manada, ter opiniões próprias e bancá-las quando se está convicto delas, jamais segui-la contra as próprias convicções. Acho que é o que ela mais ensina. É preciso contrariar o espírito do tempo, porque é assim que a gente avança. Em todas as épocas, é preciso que haja algumas pessoas capazes de olhar com senso crítico para o pensamento hegemônico. A Dercy era uma delas. A Dercy morreu em 2008. Como foi reconstruir uma vida sem poder entrevistá-la? Quais fontes te surpreenderam mais? De fato, não pude entrevistá-la. Tive que reconstruir a vida dela a partir de outras pesquisas: mergulhei nos arquivos da imprensa, em jornais e revistas de época, entrevistei pessoas que conviveram com ela e assisti a inúmeros vídeos. A sorte é que a vida da Dercy foi muito documentada, o que, para um biógrafo, é um presente. O que mais me surpreendeu foram as próprias fontes da imprensa, a maneira como ela foi retratada ao longo da vida, o preconceito que enfrentou o tempo todo. Talvez o que mais tenha me espantado foi perceber que, aos 30 anos, a crítica já a considerava uma mulher velha. A lembrança que tenho dela é a de uma velha nos anos 1990, mas ela morreu aos 101 anos e, desde os 30, já era tratada como velha. Foram 71 anos lidando com o etarismo. Você encontrou algo durante a pesquisa que mudou completamente sua visão sobre ela? Eu não diria que mudou completamente a minha visão, mas houve algo que me ajudou a compreendê-la melhor e que eu não sabia quando comecei a pesquisar: a Dercy era uma mulher de poucas habilidades de leitura, pouquíssimo escolarizada, e parte do seu jeito de atuar tem a ver com isso. Ela não conseguia ler os textos para decorá-los. Era comum que alguém lesse a peça para ela pouco antes de ela entrar em cena. Ela captava o sentido geral e improvisava no palco. O que começou como uma limitação acabou virando um estilo único, que faz dela referência para inúmeras gerações de atores, muitos deles muito letrados, que aprenderam com a Dercy essa habilidade que era só dela. Escrever sobre uma figura tão mitificada tem um risco: reforçar o mito ou destruí-lo. Como você equilibrou isso? Sempre existe esse risco, o de reforçar o mito ou o de destruí-lo. Acho que o equilíbrio está em se ater aos fatos, sem se render à mitificação e sem ceder também à tentação de contrariar o mito só para mostrar que você não se rendeu a ele. É preciso bom senso. Para mim, o bom senso é o maior guia de todos nós no jornalismo, e foi ele que me ajudou a me equilibrar nessa travessia. Você passou anos convivendo com essa mulher através de arquivos, fitas e relatos. Como foi o momento de entregar o livro e de certa forma se despedir dela? Passei anos convivendo com ela, e entregar o livro foi um grande alívio, confesso, porque era uma tarefa que eu vinha arrastando, estava inclusive bastante atrasada na entrega dos originais. Mas, curiosamente, não é na entrega que me despeço da Dercy. É o contrário: é agora que mais me aproximo dela. Isto que estou fazendo com você, falar sobre a Dercy, é o que me aproxima dela. Há uma coisa curiosa na escrita de uma biografia: você passa a compreender melhor o personagem depois de entregar o livro, quando começa a dar entrevistas sobre ele. Enquanto escreve, você está imerso na tarefa de concluir, e a reflexão, por mais que exista, é mais subliminar. A fala permite a cura, como ensina a psicanálise, mas também permite o conhecimento. Foi assim com a Maria Bonita, meu primeiro livro: quando o entreguei, compreendia muito menos do que compreendo hoje, depois de tantos anos falando sobre ela. As pessoas vão chamando a sua atenção para aspectos que passaram batido, e é nessa troca que se conhece mais a pessoa. A Dercy, hoje, está muito mais presente na minha vida do que estava quando eu a escrevia. Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!

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