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Descaso educacional no Rio não é improviso
Jornal O Globo

Descaso educacional no Rio não é improviso

Não é novidade o fato de o Rio de Janeiro ostentar o segundo pior Ideb do Brasil no ensino médio. Mas essa incompetência fica ainda mais exposta quando descobrimos que essa mesma unidade da federação apresenta o maior gasto por aluno no país, conforme revelaram na semana passada os repórteres Thayná Rodrigues e Danilo Perelló, aqui no GLOBO, a partir de um levantamento do Movimento EducAçãoRio. Entenda: O impacto social das escolas Leia mais: Muito a avançar na carreira docente Nelson Rodrigues, numa de suas mais famosas frases, já dizia que “o subdesenvolvimento não se improvisa; é obra de séculos”. Pois a tragédia educacional do Rio é também uma construção longeva, de vários atores. Mas o governo estadual, por óbvio, é o maior responsável. A péssima colocação do Rio no Ideb do ensino médio é explicada pela pior combinação possível: altas taxas de reprovação e baixos níveis de aprendizagem. O atraso é visível também em outros indicadores, como o pequeno percentual de matrículas em tempo integral (14%, ante a média nacional de 21%) e no ensino profissionalizante (10%, ante 20%), ou na elevada proporção de jovens no ensino médio com dois ou mais anos de atraso escolar (27% a 18%). A má gestão da educação no Rio deságua ao final do ensino médio, mas não começa ali. Indicadores de alfabetização e dos primeiros anos do ensino fundamental também estão muito abaixo da média nacional. O que puxa para baixo esses números é o péssimo resultado de municípios populosos no entorno da capital, caso de Nova Iguaçu, Duque de Caxias, São Gonçalo, Belford Roxo e São João de Meriti. Essas etapas são de responsabilidade principal das redes municipais, mas vale destacar que o governo estadual também tem sua parcela de responsabilidade, pois deveria partir dele a articulação com os demais entes federativos para a melhoria desses indicadores. No Ceará, por exemplo, o avanço foi puxado pelo governo estadual, através de um regime de colaboração que a União vem tentando induzir em todos os estados. Os sinais de descaso com a educação, porém, também apareceram no Poder Legislativo fluminense. Quando a Alerj precisou dar mostras de que educação era prioridade, também falhou — com honrosas exceções de parlamentares que se movimentaram para evitar tragédia maior. Com três anos de atraso, o Rio de Janeiro foi o último estado a aprovar uma legislação local regulamentando os repasses do ICMS para a educação. Essa era uma exigência legal para aumento de repasses do Fundeb ao estado. Somente neste ano, a perda foi estimada em quase R$ 120 milhões. Finalmente, no mês passado, a legislação foi aprovada. Seria cômodo jogar toda a responsabilidade para os políticos. Mas todos chegaram lá pelo voto popular. Num estado onde o crime organizado demonstra estar cada vez mais infiltrado na política e com uma sequência incrível de governadores acusados e presos por corrupção, talvez seja ingenuidade sugerir que a educação tenha espaço relevante nos debates eleitorais. Mas precisamos falar com mais profundidade desse tema, pois é uma área com péssimos resultados até mesmo para os já insuficientes padrões nacionais no ensino médio.

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