Revista Oeste
Há algumas semanas o ouro atingiu seu pico histórico de US$ 5.600 por onça. Desde o final de feveiro, todavia, o mineral precioso, considerado como o ativo porto seguro por excelência, perdeu 25% do seu valor, caindo para a faixa dos US$ 4.200. Por que a cotação do ouro está em queda livre? | Imagem: divulgação O movimento se intensificou justamente quando o conflito no Irã entrou em uma fase de escalada. Uma guerra que, em teoria, deveria impulsionar a demanda por ativos de refúgio. Porque guerra significa incerteza, inflação e risco sistêmico. Saiba mais: Valorização recorde do ouro: 1% da população brasileira investe no metal Esses são fatores que historicamente sustentaram o preço do ouro. Então, por que está acontecendo o oposto? Por que o valor de mercado do ouro caiu para menos de US$ 30 trilhões, após ter atingido o recorde de US$ 40 trilhões há apenas algumas semanas? Para entender o que está acontecendo, precisamos começar por uma pergunta: o que o ouro realmente é? Saiba mais: Por que a cotação do ouro não para de subir O ouro não é simplesmente um ativo porto seguro. É uma apólice de seguro contra a desvalorização monetária, uma ferramenta que protege contra o declínio a longo prazo do valor das moedas fiduciárias. Sua função entra em ação quando o sistema monetário é diluído por meio da expansão monetária, do crescimento da dívida e de políticas acomodativas. Uma guerra não produz automaticamente essas condições em sua fase inicial. O choque que domina os mercados hoje tem uma natureza específica: está relacionado à energia. Se reflete no preço do petróleo, o principal canal de transmissão da crise. Alta do petróleo provoca queda do ouro Nas últimas semanas o petróleo tipo WTI de Nova York alcançou a faixa dos US$ 100, enquanto o Brent do Mar do Norte se aproxima dos US$ 120. Saiba mais: Por que as cotações do ouro e da prata dispararam? Um movimento que está abrindo caminho para uma espiral macroeconômica e financeira perigosa. A disparada dos preços do petróleo significa inflação do lado da oferta. Essa inflação está ligada ao aumento dos custos reais: energia, transporte, produção. Trata-se de uma dinâmica mais persistente e complexa de se gerenciar. Tudo isso repercute automaticamente no mercado de títulos públicos. Alta dos juros provocam queda do ouro Os rendimentos dos papéis do Tesouro com vencimento em dois anos subiram entre 50 e 100 pontos-base nos Estados Unidos , na zona do euro e na Grã-Bretanha desde o início do conflito. Enquanto os bancos centrais hesitaram na semana passada, o mercado (que não pode esperar e precisa recalcular diariamente os cenários futuros mais prováveis) já incorporou um cenário mais restritivo. Os custos de empréstimo para famílias e empresas, atrelados às taxas de mercado, estão subindo mesmo antes de uma possível decisão de Powell ou Lagarde . De certa forma, a crise de crédito já está em curso. Essa dinâmica contraria a desvalorização monetária. Trata-se de uma fase de aperto monetário, caracterizada por uma redução progressiva da liquidez. Caso a situação se consolide, os bancos centrais terão de ajustar o custo do dinheiro a condições financeiras já mais restritivas, com o objetivo de manter a credibilidade e conter a inflação. Além disso, o aumento das taxas de juros nos Estados Unidos está fortalecendo o dólar. Uma combinação desfavorável para as commodities e, ainda mais, para o ouro. Isso ocorre porque o metal precioso não gera fluxo de caixa. Mantê-lo implica um custo de oportunidade que aumenta à medida que os rendimentos sobem. Nesse contexto, o ouro assume as características de uma moeda alternativa que perde atratividade relativa quando a moeda dominante se fortalece. Há também o fator liquidez. Em momentos de crise, os investidores tendem a vender os ativos mais fáceis de negociar. O ouro é um deles, devido à sua ampla liquidez e à profundidade do seu mercado. Chamadas de margem, operações de hedge e falta de caixa podem gerar vendas forçadas que também afetam o metal precioso. Esse mecanismo já foi observado durante a fase mais aguda da crise pandêmica de 2020. No entanto, é preciso dizer que essa queda acentuada pode ser apenas a primeira etapa de um jogo macroeconômico mais amplo. Se o conflito se prolongar e se o choque energético afetar o crescimento, o cenário poderá evoluir para uma fase diferente. Possível intervenção dos Bancos Centrais Governos e bancos centrais poderiam intervir por meio do aumento dos gastos públicos, apoio econômico e maior liquidez. Tal cenário traria a questão da desvalorização monetária de volta ao centro do debate. Nessa fase, o ouro tenderia a recuperar sua função primordial como reserva de valor. Isso pode nos ajudar a entender por que o ouro está em baixa agora, quando, em teoria, poderia se beneficiar no futuro. A chave está no desalinhamento temporal. Isso porque o ouro não reage à guerra como um evento isolado, mas sim como um regime monetário que emerge da gestão da guerra. Se (inicialmente) o regime for restritivo, o preço tende a cair. Se, em um segundo momento, ele inevitavelmente retornar a um modo expansionista, o metal amarelo voltará à sua função original: proteger os investidores da diluição do valor da moeda. O post Por que a cotação do ouro está em queda livre? apareceu primeiro em Revista Oeste .
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