Jornal O Globo
No domingo, o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, determinou a destruição de todas as pontes sobre o rio Litani — que corta o sul e o oeste do Líbano — que sejam usadas “para atividades terroristas”, e ordenou a “aceleração da destruição de casas libanesas em vilarejos na linha de contato”. A estratégia de avançar sobre a infraestrutura supostamente ligada ao grupo pró-Irã Hezbollah, foi tratada pelo presidente libanês, Joseph Aoun, como o “prelúdio de uma invasão terrestre”, e repete os passos de Israel em outra ocupação: na Faixa de Gaza, devastada após a guerra iniciada em outubro de 2023. Guerra no Líbano: Israel alerta moradores a evacuarem subúrbios ao sul de Beirute antes de ataques ao Hezbollah No domingo, a ponte Qasmyieh, principal passagem sobre o rio Litani conectando o sul libanês, área principal de operação do Hezbollah, ao restante do país, foi destruída por bombas israelenses. Ela é conhecida por moradores da área como “Artéria do Sul” pela ligação com províncias centrais, e também foi destruída durante a guerra de 2006, afetando o fornecimento de suprimentos.Nesta segunda-feira, a ponte de Dalafa, no leste libanês, foi bombardeada e inutilizada pelos israelenses. O local já foi atacado em 2006 e durante a invasão de Israel ao Líbano em 1982, em meio à guerra civil. Outras três pontes importantes foram destruídas desde o fim de semana. "Esses ataques constituem uma escalada perigosa e uma violação flagrante da soberania libanesa, e são um prelúdio para uma invasão terrestre, contra a qual o Líbano já alertou repetidamente por meio de canais diplomáticos”. afirmou Aoun em comunicado. Mapa de ataques israelenses no Líbano Editoria de Arte Desde a abertura da segunda frente de combate na guerra contra o Irã, no começo do mês, Israel realizou violentos ataques contra cidades e vilarejos na fronteira, apontados como bases do Hezbollah para atingir contra cidades israelenses. As bombas também caíram em distritos no Vale do Bekaa, onde o grupo opera, e do sul de Beirute, como Dahiyeh, um dos principais redutos do Hezbollah. Há relatos de bombardeios contra equipes de resgate e instalações médicas, e a diretora regional da Anistia Internacional afirmou que esse tipo de ação constitui um crime de guerra. 'Não houve aviso': Repórter fica ferido em ataque no Líbano durante transmissão e precisa retirar estilhaços do braço De acordo com o Ministério da Saúde, mais de mil pessoas morreram, e cerca de um milhão foram deslocadas — muitas estão nas ruas de Beirute, sem saber quando ou se voltarão para suas casas. “Essas ações refletem uma tendência perigosa de destruição sistemática de infraestrutura, instalações civis e áreas residenciais em vilarejos libaneses, o que equivale a uma política de punição coletiva contra civis”, completou Aoun. “Isso é inaceitável, condenável, injustificado e viola claramente as normas do direito internacional humanitário, que proíbem ataques contra civis e suas instalações essenciais.” 'Uma população traumatizada, vulnerável e com medo': O retrato da guerra no Líbano pelo olhar de quem está na linha de frente O roteiro seguido pelos israelenses no Líbano, ou prelúdio, como declarou o presidente libanês, sugere que uma invasão terrestre é iminente. Não está claro qual é o objetivo de avançar novamente sobre o território de uma nação soberana, cujo governo não apoia as ações do Hezbollah — dentro de Israel, um debate sobre o estabelecimento de uma zona tampão, como a criada à força na Síria, no sul do país vizinho ganhou corpo, enquanto Washington vê a ofensiva como uma oportunidade para desarmar o Hezbollah e arrastar Beirute para sua zona de influência e para os Acordos de Abraão. Mas há algo que nem os comandantes militares de Israel fazem questão de esconder: para eles, o plano hoje é similar ao aplicado na Faixa de Gaza. Há cerca de 10 dias, um integrante do governo israelense disse ao portal Axios que “farão o que fizeram em Gaza”, ao explicar seus planos para destruir qualquer estrutura — civil ou militar — vista como associada ao Hezbollah. Bezalel Smotrich, um dos ministros mais radicais do Gabinete de Benjamin Netanyahu, afirmou que “Dahiyeh logo se parecerá com Khan Younis”, cidade em Gaza onde 85% das estruturas foram destruídas. Um artigo publicado no jornal Jerusalem Post, na semana passada, opinou que a "fronteira natural" do Estado judeu é o rio Litani. Panfletos jogados sobre Beirute perguntavam qual o rumo que o Líbano gostaria de tomar e citavam o “notável sucesso” militar de Israel em Gaza. Katz, no domingo, usou como referência duas cidades destroçadas no enclave palestino, Beit Hanun e Rafah, como exemplos de seu plano para demolição de casas em aldeias libanesas perto da fronteira, uma estratégia classificada pela ONU como um possível crime de guerra. Ao ordenar a expulsão da população no sul do Líbano e explodir todas as pontes que ligavam a região ao resto do país, Israel bloqueou a chegada de suprimentos e restringiu o trânsito de pessoas, inclusive as que tentam escapar da guerra. Em Gaza,, os israelenses estabeleceram posições como o Corredor de Netzarim, que dividiu o território ao meio. O domínio sobre as vias foi usado para controlar o fluxo de veículos não militares, o fornecimento de ajuda humanitária e limitar movimentações internas. Ordens de evacuação e bloqueios de rotas de saída antes de ataques colocaram milhares de civis em risco. O número de mortos supera os 75 mil, mas pode ser ainda maior. — Temo que o Líbano possa se tornar a próxima Gaza — disse o chefe humanitário da ONU, Tom Fletcher, à rede Euronews. — Na verdade, temo isso porque é o que estamos ouvindo de alguns ministros israelenses neste momento, que estão se expressando em um tom cada vez mais beligerante sobre o que planejam fazer com o Líbano. Explosão causada por bombardeio israelense em Tiro, cidade no Sul do Líbano Kawnat Haju/AFP/4-3-2026 A promessa de Katz de destruir casas e prédios ao sul do rio Litani se assemelha à política de terra arrasada no enclave palestino, que destruiu ou danificou 70% de todas as estruturas, incluindo escolas, hospitais, instalações esportivas e residências. Demolições sistemáticas, nem sempre com causas claras, ampliaram a devastação. São 61 milhões de toneladas de entulhos à espera de um processo de reconstrução que não saiu do papel, e que impede qualquer tipo de retomada de vidas afetadas pela guerra. Mesmo após o cessar-fogo, firmado em outubro passado, os israelenses continuam a expandir suas áreas ocupadas, restringindo ainda mais o território aos civis. “Considerando a escassez de processos por violações de direitos econômicos, sociais e culturais, como o direito à moradia adequada previsto no direito internacional, torna-se urgente denominar tais atos como ‘domicídio’, definido como a destruição generalizada ou sistemática de moradias e infraestrutura civil essenciais à sobrevivência de uma população”, escreveu em relatório, publicado em fevereiro, o relator especial da ONU para os direitos à moradia adequada, Balakrishnan Rajagopal. Dilema ao premier: Apesar do apoio à guerra contra o Irã em Israel, Netanyahu não colhe dividendos políticos em ano eleitoral Para muitos analistas e comandantes israelenses, a perspectiva de tornar o sul do Líbano uma região devastada, desabitada, sem a presença do Hezbollah ou do Estado libanês, abre caminho para o estabelecimento definitivo de uma zona tampão na fronteira, 26 anos após a retirada de suas tropas do país árabe. Recentemente, até as forças da ONU, presentes na região desde 1978, foram atacadas. — O princípio fundamental da defesa deles é que uma linha defensiva sempre será rompida — disse Ronen Cohen, ex-chefe de seção do Mossad à TV i24 News. — Em locais onde o mais importante a proteger está muito à frente, como as comunidades no norte, a defesa não pode ficar atrás delas. Os civis não podem ser bucha de canhão.
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