Jornal O Globo
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deve dar mais informações sobre o corte que inaugurou o ciclo de "calibração" da taxa Selic na semana passada na ata do encontro, que será publicada nesta terça-feira. O Copom optou por uma queda de 0,25 ponto percentual, de 15% para 14,75% ao ano, em meio à volatilidade gerada pelo conflito no Oriente Médio, que fez disparar os preços de petróleo. Investimentos: Selic em 14,75% e guerra: o que fazer com o dinheiro? Em meio à guerra no Irã: Fed, banco central dos EUA, mantém os juros entre 3,5% e 3,75% Foi a primeira redução dos juros básicos na gestão de Gabriel Galípolo, que assumiu o BC em janeiro do ano passado. A última baixa havia ocorrido em maio de 2024, de 10,75% ao ano para 10,50%. Mesmo com o recuo na semana passada, a Selic ainda está no nível mais alto desde agosto de 2006. No mercado financeiro, há expectativa de que o BC dê mais detalhes sobre sua avaliação sobre os efeitos do conflito na inflação doméstica. O Copom indicou que o plano de voo atual é seguir cortando a Selic nas próximas reuniões, mas apontou que vai considerar "novas informações" sobre a guerra e seus impactos no nível de preços ao longo do tempo. Fabio Graner: Corte de 0,25 ponto na Selic é saída 'salomônica' do BC para contexto de alta pressão econômica e política "No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo", disse o BC, no comunicado. No trecho que tratou dos impactos da guerra, o Copom reconheceu que os efeitos sobre a cadeia de suprimentos globais e sobre os preços de commodities afetam a inflação brasileira, citando que já houve aumento das projeções em relação à meta de 3,0%. O colegiado ainda pontuou que a incerteza em torno das estimativas se elevou consideravelmente, especialmente em virtude das dúvidas sobre a duração do conflito. Mesmo assim, segundo o comunicado, resolveu dar início ao "ciclo de calibração" devido às evidências de que a manutenção da Selic em 15% por período prolongado contribuiu para a desaceleração da atividade econômica. A escolha pela palavra calibração, em troca de flexibilização, aponta para os economistas que o BC quer indicar que o ciclo será bastante contido, mantendo ainda o nível restritivo. A economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Natalie Victal, espera que a ata, por ser mais longa, esclareça uma série de dúvidas que restaram do comunicado. Uma delas é se o colegiado debateu sobre outras opções para além do corte de 0,25pp. Antes do conflito, a maioria do mercado esperava uma queda maior, de 0,50pp, mas a gravidade dos prejuízos à cadeia de combustíveis e à logística internacional, com impactos inflacionários, colocaram até uma possível manutenção em debate. — O principal ponto que vamos procurar é qual é a altura da barra para aceleração e para rever o plano de voo, que é continuidade do ciclo de calibração, dado o ambiente especialmente adverso que estamos vivendo --- disse, lembrando que a precificação atual do mercado é de queda de 0,25pp na próxima reunião, em abril. Victal também acredita que o BC vai dar mais detalhes de como vê o choque em si e aguarda que o colegiado esclareça porque não mexeu no balanço de riscos para a inflação mesmo com os impactos da guerra. Entre as ameaças de baixa para a inflação, por exemplo, o BC cita "uma redução nos preços das commodities com efeitos desinflacionários". Outro ponto é que o BC não fez nenhum comentário sobre os dados mais fortes de atividade do primeiro trimestre e preferiu se fixar nas boas notícias do Produto Interno Bruto (PIB) de 2025, que subiu apenas 0,1%. "Os indicadores do final de 2025 mostraram desaceleração na atividade econômica, enquanto o cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, e pressões no mercado de trabalho", disse o BC, no comunicado. Citando a suspensão de ataques dos Estados Unidos ao Irã, anunciada nesta segunda, o economista-chefe da Quantitas Asset, Ivo Chermont, afirma que é importante entender a função-reação do BC frente à guerra e qual foi o debate sobre os impactos do conflito, que vai guiar a próxima decisão. — O comunicado foi mais leve do que se esperava. Temos que ver se, pela ata, dá para estabelecer os parâmetros que fariam o BC optar pelo 0,25pp ou pelo 0,50pp na próxima reunião. E, para tentar estabelecer de alguma maneira, mesmo que de forma qualitativa, a barra que o faria decidir por zero. Outro ponto que gerou bastante dúvida no mercado financeiro foi a projeção do BC para a inflação no horizonte relevante, que é o prazo com o qual o BC trabalha para colocar a inflação na meta. Esse prazo atualmente é o terceiro trimestre de 2027 e o BC aumentou a projeção apenas marginalmente após o choque do petróleo, de 3,2% para 3,3%, enquanto o mercado tinha números maiores. Esse tema, contudo, deve ser melhor explicitado pelo Relatório de Política Monetária (RPM), que será divulgado na quinta. — O Copom deve precisar um pouco mais sua escolha por mudar de “flexibilização” para “calibração”. Além disso, pode explicar melhor os riscos altistas e baixistas introduzidos pelo conflito no Irã e porque o baixo peso dado as projeções no comunicado — resume João Mauricio Rosal, economista-chefe da Terra Investimentos.
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