Jornal O Globo
A Riviera Francesa evoca imagens de turistas bronzeados relaxando em praias pontilhadas por palmeiras, ruas de paralelepípedos movimentadas e megaiates ancorados em baías de águas azuis cintilantes – mas isso só acontece no verão. Riviera Francesa: um roteiro por Nice, Antibes e Èze, onde o inverno é mais azul Entre penhascos e séculos: a cidade francesa suspensa a 70 metros que desafia o Mediterrâneo Na verdade, essa região do sudeste da França, também conhecida como Côte d'Azur, ganhou fama como destino de inverno no final do século XIX, pois foi para lá que a rainha Vitória viajou em busca de refúgio da chuva fria de Londres. Robert Louis Stevenson foi em busca de alívio para uma doença respiratória. Claude Monet fugiu dos tons enevoados e abafados do norte. "Preciso de uma paleta de diamantes e pedras preciosas para capturar essas cores e luzes extraordinárias", escreveu ele. O turismo nessa faixa de litoral pitoresca entre Menton, a leste, e Hyères, a oeste, chega ao pico em agosto, com até 650 mil visitantes durante o fim de semana de maior movimento, de acordo com os dados de 2024 da Côte d'Azur Tourism. No entanto, esse número cai drasticamente durante os meses de inverno, chegando a apenas um terço desse total. Alguns restaurantes e hotéis chegam a fechar na baixa temporada, mas a diária dos que continuam na ativa são bem mais baratos – e é fácil conseguir reservas. Com o céu predominantemente ensolarado e as temperaturas na casa dos 15 °C durante o dia, a estação pode não ser quente para nadar, mas é a época perfeita para dar um mergulho na história. No final de novembro, fiz uma viagem de carro de Menton a Antibes, resgatando o passado em ruas antigas e silenciosas e explorando trilhas costeiras onde havia mais lagartos do que gente. Onde os limões são mais doces Os limoeiros emolduram a vista de Menton, na França Gianni Cipriano/The New York Times Minha viagem de leste a oeste começou em Menton, cidade em tons pastel de cerca de 30 mil habitantes que fica na fronteira com a Itália. Sob domínio principalmente genovês e sardo até 1860, ainda mantém um toque da Ligúria. Franceses e italianos se misturam nas ruas, e as fachadas têm o tom vibrante dos sorvetes cítricos. De fato, ela se autodenomina "a capital europeia do limão" com orgulho e explode em desfiles carnavalescos na Fête du Citron todo ano, em fevereiro, mas eu fui direto à fonte, fazendo um passeio pela fazenda Maison Gannac (a 12 euros). Meu guia explicou que as condições climáticas da região fazem com que os limões ali sejam "os mais doces do mundo". Menos sofisticada do que a vizinha Mônaco, Menton conta com hotéis de luxo Belle Époque com nomes como Balmoral, que evocam uma clientela predominantemente britânica. Alguns ainda oferecem hospedagem, entre eles o Royal Westminster (quartos com vista para o mar com diária a partir de 135 euros). O contemporâneo Hotel Gabriel Menton (a partir de 60 euros) é uma opção mais moderna. As ligações de Menton com os britânicos se estendem até aos seus famosos jardins – como o exuberante Jardim Botânico Val Rahmeh, (8 euros) que já foi a casa de praia de um baronete. Um mural pintado pelo artista e escritor Jean Cocteau no interior de um hotel em Menton, na Riviera Francesa Gianni Cipriano/The New York Times Na sede da Prefeitura, em tons dourados, ficam os murais de outro ilustre morador, o artista e escritor Jean Cocteau, como na famosa sala dos casamentos (entrada a 2 euros), que exibe um casal de noivos de chapéu de palha tradicional local e boné de pescador. Veja mais obras dele no Museu Jean Cocteau (5 euros), instalado em um verdadeiro bastião do século XVII. As peças de seixos nas paredes evocam as calades, ou ruas pavimentadas com desenhos em mosaico. Aliás, descobri muitas no centro histórico, logo acima de uma grande escadaria perto da praia de Sablettes. Já em outras partes da cidade, encontrei delícias culinárias, como o azeite aveludado da Huilerie St.-Michel; a torta pichade de tomate e anchova e o barbajuan, bolinho frito de acelga típico no Chez Pierrette et Sylvie, na porta do mercado Halles; as barrinhas de limão do tamanho da palma da minha mão na Mitron Bakery (do chef Mauro Colagreco, cujo restaurante Mirazur, estrelado pelo "Guia Michelin", vale o investimento). Arquitetura moderna e resquícios medievais Em meados do século XX, a estreia do Festival de Cinema de Cannes e a presença de estrelas como Brigitte Bardot e Grace Kelly deram um toque de glamur aos meses de verão na região, principalmente em Mônaco, onde a segunda foi coroada princesa, em 1956. Situada entre Menton e Mônaco, a curta distância de ambas, a cidade montanhosa de Roquebrune-Cap-Martin proporciona um vislumbre da vida pré-badalação, com uma imponente vila medieval que parece suspensa entre o mar e o céu. Eu estava na praia preferida de Coco Chanel, a Plage du Buse, e subi até lá por uma escadaria de pedra íngreme e sinuosa, só imaginando tamanho esforço no calor do verão. O que vi foi um labirinto de vielas de paralelepípedos, arcadas e fachadas ocres dignas de cartão postal aninhado sob o imponente Château de Roquebrune (entrada a 5 euros), que se ergue a mais de 300 metros acima do mar. Do alto das ameias do castelo, com o panorama de 360 graus do Mediterrâneo e das montanhas, pude entender por que construíram uma fortaleza ali. Jantei uma sopa de castanha e pequenos pedaços ovais de carne escura de peru conhecidos como "ostras", servidos em molho de mostarda com estragão, no Au Grand Inquisitor, (três pratos por 39 euros) situado dentro de um antigo estábulo na base da cidadela, versão sofisticada e mais discreta dos restaurantes temáticos do Medieval Times. A cinco minutos dali, embasbaquei com outra relíquia antiga: uma oliveira de mais de 2.200 anos crescendo em uma parede de pedra. Depois de passar a noite no Hotel Victoria, em estilo dos anos 70 (quartos com vista para o mar com diárias a partir de 120 euros), parti por uma trilha costeira batizada em homenagem a Le Corbusier, pioneiro da arquitetura moderna que passou seus últimos anos em um chalé de madeira perto da mansão E-1027 da arquiteta irlandesa Eileen Gray. (Corbusier está enterrado no cemitério na encosta, próximo à vila medieval.) A caminhada de três quilômetros acompanha a costa, passando por entre pinheiros perfumados e suntuosas mansões Belle Époque como a Villa Cypris, em estilo neobizantino. O público pode visitar algumas das luxuosas residências na porção leste. Em Beaulieu-sur-Mer, a Villa Kérlyos (a 13 euros), obra-prima de mármore e mosaicos, presta homenagem aos primeiros colonos da região, saídos de Fócida, na Grécia. Situada em meio a sete hectares de jardins luxuosos, a Villa Ephrussi de Rothschild, (a 13 euros) em tons rosados, inclui cômodos extravagantes, incluindo um boudoir com tema de macacos. Seguindo os passos de Baldwin e Matisse As colinas que se erguem acima da Riviera são refúgio para escritores e artistas desde sempre. St.-Paul-de-Vence, aldeia que lembra um bolo de casamento a cerca de 45 minutos de Antibes, acolheu James Baldwin por 17 anos. Uma escultura em cerâmica de Fernand Léger adorna o pátio do hotel e restaurante Colombe d'Or, onde o artista convivia com outros frequentadores famosos. As ruas são pavimentadas com paralelepípedos decorativos. A 15 minutos a pé, no Chemin de Sainte-Claire, a Fondation Maeght destaca os artistas que passaram por ali no século XX com um espaço e um jardim de esculturas banhado pela luz que inspirou muitos deles. Na Chapelle Matisse, em Vence, os raios do sol de inverno brilham nos vitrais de Henri Matisse, dançando nos bancos em tons de azul, amarelo e verde. O ar da noite trouxe o frio de inverno, por isso fiquei grata pela lareira aconchegante do La Brouette (três pratos a partir de 27 euros), onde o chef e proprietário, Michel Bornemann, defuma a própria truta, que provei depois de uma bela sopa de beterraba. Ele recomendou que eu visitasse Tourrettes-sur-Loup, vilarejo vizinho cujas casas de pedra, aglomeradas, parecem saídas de contos de fadas, abrigando artesãos contemporâneos e convidando os visitantes a descobrir restaurantes aconchegantes. Em suas ruas medievais quase vazias, senti uma profunda conexão com a história, o que não teria sido possível com uma multidão de turistas. O verão na Riviera tem seus encantos, é verdade, mas não troco a tranquilidade do inverno por nada.
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