Thalita Rebouças:
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Thalita Rebouças: "Qualquer separação é uma chance de um recomeço"

Tem uma frase que Thalita Rebouças anotou recentemente e que resume bem o que ela anda pensando sobre a própria vida: "Uma mulher sem um homem é como um peixe sem uma bicicleta." A frase é atribuída à ativista americana Gloria Steinem e carrega uma lógica simples: um peixe não precisa de uma bicicleta para existir, assim como uma mulher não precisa de um homem para ser completa. É o tipo de humor que ela pratica há 25 anos, aquele que faz doer um pouco antes de aliviar, e que atravessa cada episódio de Juntas & Separadas. Aos 51 anos, a escritora carioca acaba de estrear a série no Globoplay, com dez episódios que ela criou e roteirizou ao lado de Juliana Araripe. É seu primeiro projeto audiovisual e também a primeira obra voltada ao público adulto em formato de série, embora ela questione levemente esse rótulo. "Eu já tenho dois livros para adultos", lembra. O Adultos Sem Filtro e o Felicidade Inegociável e outras rimas, este último dedicado a mulheres maduras, que fala de luto e separação. O terreno, portanto, já estava sendo preparado. A série acompanha quatro mulheres acima dos 40 que passaram por um divórcio e encontram umas nas outras uma rede de apoio improvável e necessária. Sheron Menezzes, Natália Lage, Debora Lamm e Luciana Paes vivem Laura, Ana Lia, Claudinha e Joana, respectivamente. O Bar do Leme é o centro gravitacional de todas elas. A direção geral é de Mini Kerti, uma das criadoras de Sob Pressão. Thalita não esconde de onde veio o material. Ela se separou do primeiro marido quando tinha cerca de 40 anos e se viu reconstruindo a própria vida enquanto fazia amizades que, hoje, chama de irmãs. "Só quem entende o luto da separação consegue acolher verdadeiramente uma pessoa que está passando por isso", diz. "Não importa quem terminou, se terminou bem, se terminou mal, sempre sofre. As quatro protagonistas carregam pedaços dela distribuídos com generosidade. Ana Lia, que só bebe cerveja na garrafa, é a mais óbvia. "Sou eu", confirma sem cerimônia. Joana, que enfrenta a burocracia da morte com o pai doente, vem de algo que a própria escritora atravessou recentemente. A Claudinha tem a simplicidade de um amigo querido que não está mais aqui. E Laura, pessoa pública que olha nos olhos do garçom e pergunta o nome, é a abertura para o mundo que Thalita reconhece em si mesma. Selecionar uma imagem Jornalista de formação, ela largou as redações para se dedicar à literatura e acumula 2,3 milhões de livros vendidos, traduzidos em mais de 20 países. Passou pela TV Globo, pelo Vídeo Show, e teve várias obras adaptadas para o cinema, como Fala Sério, Mãe! e Tudo por um Pop Star. Ficou conhecida escrevendo para adolescentes, mas sempre disse que não pensa no público na hora em que senta para escrever. "A Thalita que senta no computador para escrever é a mesma", diz. A diferença agora, ela admite com prazer, é poder falar de assuntos considerado por muitos como tabu sem eufemismo. "As inseguranças que você tem, todo mundo tem." Falar disso em uma plataforma com o alcance do Globoplay é, para ela, uma responsabilidade que abraça sem hesitar. "Como assim eu não vou falar isso para as mulheres desse país?" O apagamento das mulheres depois dos 40 na cultura e na ficção é algo que ela identifica com facilidade e que a irrita na medida certa para virar trabalho. A geração dela, diz, foi treinada para temer os 40 como um prazo de validade. Ela discorda na prática. "Eu estou achando realmente a melhor fase da vida." A série estreou com avaliações positivas e Thalita já pensa na segunda temporada, e tem argumentos autobiográficos novos: ela se separou do segundo marido recentemente. "Estou muito PhD no assunto", diz. "Preciso de muitas temporadas para falar sobre o assunto." Ao longo de 25 anos, ela diz ter transformado muitas dores em humor e muitos tombos em aprendizado. Juntas & Separadas é, entre outras coisas, uma homenagem às amigas que a ajudaram a superar o que ela mesma transformou em ficção. "Tudo que eu vivo acaba sendo maravilhoso porque vira material." Por enquanto, o material está longe de acabar. Confira a seguir a conversa completa. Vogue: Esse é o seu primeiro projeto audiovisual e também o primeiro voltado para o público adulto. Em que momento você sentiu que era hora de contar uma história como essa? Thalita Rebouças: É o meu primeiro projeto audiovisual, mas eu já tenho dois livros para adultos. Um é de alguns bons anos atrás, que é o "Adultos Sem Filtro", e o outro é o "Felicidade Inegociável" e outras rimas, que eu fiz em 2023, se não me engano, ou 2024, não me lembro, que é para mulheres maduras, e que eu falo sobre luto, sobre separação. Então quer dizer, isso já estava no meu radar, sabe? Falar sobre esses temas já estava no meu radar. Falar sobre a amizade, sobre o poder da amizade feminina. Tudo que eu vivo acaba sendo maravilhoso porque vira material. Eu costumo dizer que, ao longo desses 25 anos de carreira, eu venho transformando muitas dores em humor, muitos tombos em aprendizados e aí, eu com a minha escrita, que é sempre leve e bem humorada, acho que acabo passando para as pessoas coisas boas. Quando a menopausa chegou chegando, no momento que que eu tinha 45 anos, eu me vi solteira na pista com 40, eu falei "gente isso uma hora vai virar alguma coisa, saber?" Isso alguma hora vai virar material para mim. É sempre assim comigo e como eu estou sempre com o radar ligado, as coisas acontecem, ficam na minha cabeça e elas viram realidade na hora que elas têm que virar. Eu acho que 'Juntas & Separadas' está entrando no ar em um momento muito especial em que nunca foi tão doloroso, perigoso, sofrido ser mulher. Então estou muito orgulhosa de levar um sopro de leveza e otimismo e mostrar para as mulheres que, quando a gente se une, é bonito pra caramba. Vogue: A série nasce de uma experiência muito pessoal sua, o fim de um casamento longo. Em que momento essa vivência deixou de ser só sua e virou material de ficção? Thalita Rebouças: A minha separação foi mais uma das coisas que acontecem na minha vida e que eu acho que todo escritor é assim: coisas que a gente ouve, frases, para-choque de caminhão, post no Insta, conversa que a gente escuta na praia, vivência... Tudo em algum momento vira nossa matéria-prima pra gente trabalhar. Vogue: Você ficou muito conhecida escrevendo para o público jovem. O que muda na sua escrita quando as protagonistas são mulheres de quarenta e poucos anos vivendo divórcio, menopausa e redescoberta do desejo? Thalita Rebouças: Olha, essa pergunta do que muda na escrita é muito legal, viu? Muito obrigada, porque não muda nada. A Thalita que senta no computador para escrever é a mesma. Eu nunca parei para pensar 'esse livro é para adolescentes, esse livro é para adulta, esse livro é para criança'. A diferença na série é que eu estou falando de pentelho branco, menopausa, posso falar palavrão, coisa que não tem nos meus livros. Posso falar de outras coisas, mas é muito legal pessoas que me acompanham há tantos anos, que leem os meus livros, minha galerinha que está com 28, com 35, que me leu adolescente, falando: "nossa, é tão legal ver o seu DNA todo ali, você está ali na série". Isso me deixa muito orgulhosa, sabe? Porque eu acho que falar de maneira leve de temas delicados, difíceis e profundos acabou se tornando uma marca da minha escrita e eu acho que ela está todinha na série. Vogue: As quatro protagonistas têm personalidades muito diferentes. Você se reconhece mais em alguma delas ou todas têm um pouco de você? Thalita Rebouças: Eu estou em todas as protagonistas. E a coisa que eu mais amo é inventar gente. Na minha obra sempre foi assim: eu invento as pessoas e depois eu invento o que vai acontecer com elas. Eu criei essas quatro muito inspiradas em mim, claro, e nas amigas que eu fiz no momento pós-separação, que ou tinham acabado de se separar, ou tinham passado por isso e eu acho que só quem entende o luto da separação consegue acolher verdadeiramente uma pessoa que está passando por isso, porque é um luto, é um fim de um plano, de um sonho, então não importa quem terminou, se terminou bem, se terminou mal, sempre sofre. Ana Lia só bebe cerveja na garrafa, sou eu. Joana, com o pai doente, se vendo às voltas com a burocracia da morte, coisa que eu passei recentemente com o meu pai. A Claudinha talvez seja que menos tem a ver comigo, mas ela tem a simplicidade, as bolsas delas são inspiradas em um grande amigo meu que fazia a mesma coisa e infelizmente não tá mais aqui. E a Laura é uma pessoa pública, simples que gosta de olhar no olho do garçom e perguntar o nome, é aberta a amizades fáceis, então eu realmente me vejo em todas elas ali. Thalita Rebouças Divulgação Vogue: A série fala muito de amizade feminina como rede de apoio real. Essas conversas em bar, grupos de mensagem e confissões entre amigas vieram diretamente da sua vida? Thalita Rebouças: Eu tenho a sorte de ter feito grandes amigas nesse momento da minha vida, com 40 anos recém-separada. Amigas que viraram irmãs, amigas que até hoje são a minha grande rede de apoio. E, sim, conversas em bar: eu sou muito grata aos bares da vida por me proporcionarem noites de escuta, de colo, de cerveja na garrafa. E aí entra também o bar do Leme e isso tudo que está na série. Eu tenho certeza de que todas as minhas amigas que eu fiz vão se sentir representadas em algum momento. Eu tentei homenageá-las e é o meu 'muito obrigada', na verdade. É uma grande homenagem a todas as mulheres que passaram pela minha vida e que me ajudaram a passar por essa fase. Vogue: O Bar do Leme aparece como um lugar central de encontro entre elas. Lugares assim, onde as pessoas vão para conversar sobre a vida, foram importantes para você nesse período? Thalita Rebouças: O bar do Leme realmente é a inspiração de vários bares. São todos os bares que eu frequentei e que eu fiz amigos, que eu desabafei, que eu fiquei na fossa. Vogue: Apesar de tratar de temas delicados — separação, envelhecimento, solidão — a série aposta muito no humor. Para você, o riso é uma forma de atravessar esses momentos difíceis? Thalita Rebouças: A série aposta no humor. Eu tenho certeza de que o riso é uma forma de atravessar esses momentos porque o humor faz a gente pensar. A gente vai rindo vai rindo e no "kkk" a gente acaba se reconhecendo, prestando ação 'opa, isso está acontecendo comigo'. Eu sempre tento fazer isso no meu trabalho: fazer a pessoa chorar e rir logo depois. Isso é a minha sempre falei lá na Conspira que queria muito que tivesse uma coisa de Modern Family, que as pessoas riem, se acabam de rir, choram e daqui a pouco riem de novo. Faço isso nos meus livros, nas minhas peças, nos meus filmes e que bom que eu consegui fazer isso na minha série também. Vogue: A série levanta perguntas importantes, como o que acontece com uma mulher quando um casamento longo acaba. Essas eram perguntas que você também estava se fazendo naquele momento da vida? Thalita Rebouças: Eu achei maravilhoso outro dia que eu peguei já esperando que tenha a segunda temporada, que eu tô louca pra escrever, porque agora eu estou PhD em separação, que eu acabei de me separar do meu segundo marido. Então eu estou muito PhD, eu preciso de muitas temporadas para falar sobre o assunto. Mas eu vi uma frase outro dia que eu anotei, que é "Uma mulher sem um homem é como um peixe sem uma bicicleta". E eu adorei essa frase porque é exatamente isso, mas a gente, especialmente a minha geração que está com 50, 51 anos como eu, a gente cresceu achando que pra ser feliz, validada, legitimada como mulher bem-sucedida você tem que ter alguém do lado. É muito bom poder mostrar para as mulheres que a gente não precisa de ninguém do lado. A gente precisa amar a nossa companhia. Eu acho que a série traz muito isso de fazer com que a mulher se valorize, valorize as próprias vontades, os desejos e não tenha medo de fazer escolhas, de errar e de voltar, porque a vida é isso e a gente está aqui para ser feliz. Protagonistas de "Juntas e Separadas": Natália Lage, Luciana Paes, Debora Lamm e Sheron Menezzes, Divulgação Vogue: Você acha que ainda existe um certo apagamento das mulheres depois dos quarenta na cultura e na ficção? O que te interessava mostrar sobre essa fase que normalmente não aparece tanto? Thalita Rebouças: Ah, eu acho total que existe um apagamento da mulher de '40 mais', e é muito louco porque a minha geração foi treinada para achar, com 30 anos, que 'nossa, meu Deus, os 40 estão chegando, agora acabou!". E na verdade, a vida começa aos 40 mesmo. No meu caso, eu estou achando que começa aos 50, porque só melhora. Eu estou achando realmente a melhor fase da vida. E como assim eu não vou falar isso para as pessoas? Como assim eu não vou falar para as mulheres desse país, com um alcance que tem um streaming como a Globoplay, que "olha só, menopausa tem tratamento, ressecamento vaginal também, as inseguranças que você tem, todo mundo tem". Então, foi muito importante e eu quero cada vez mais. Eu acabei de vender um filme também para Conspira, minhas grandes parceiras, sobre mulher '50 mais', porque realmente é muito importante que a gente traga. Você vê que legal vai ter já já o filme da Ingrid com a Mônica, que eu acho que são outras potências de mulheres que são a prova de que a vida só melhora. A gente começa a ser feliz de verdade, eu ouso dizer, depois dos 45, tá? Então eu estou querendo falar para as mulheres com essa série: "ó, vem sem medo para a maturidade, porque só melhora". Vogue: Como foi ver personagens que nasceram de experiências tão pessoais ganhando vida em atrizes como Sheron Menezzes, Natália Lage, Debora Lamm e Luciana Paes? Thalita Rebouças: Esse elenco é tão especial, esse elenco me dá tanto orgulho, porque elas realmente entenderam tudo. São quatro atrizes geniais, e eu estou absolutamente feliz porque elas passam verdade. Elas entenderam tudo, sabe? É muito emocionante sempre ver como um ator se apropria de uma coisa que saiu da minha cabeça. Eu acho que isso vai me emocionar para sempre. Vogue: Quando você olha para a sua trajetória — dos livros que marcaram gerações até agora criar uma série — sente que mudou muito como contadora de histórias? Thalita Rebouças: Eu acho que eu não mudei como contadora de histórias, eu acho que eu estou mais à vontade. Os '40 mais' trazem a coragem de ousar, de fazer diferente. Eu sempre gostei muito de contar a história, e estou gostando, estou cada vez mais com a cabeça fervilhando, que é outra coisa também que ninguém me contou que minha cabeça só ia ficar mais criativa com o passar do tempo. Realmente acho que eu estou contando história melhor hoje do que ontem. Vogue: Esse processo de separação e redescoberta que aparece na série também mudou a forma como você enxerga a própria vida hoje? Thalita Rebouças: Qualquer separação é uma chance de um recomeço. Ciclos chegam ao fim e saber usar isso a nosso favor é um aprendizado enorme. Para mim, como já falei aqui, a vida só melhora. A maturidade é a coisa mais bonita da vida. Sério mesmo. Mais em Globo Condé Nast Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!

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