Jornal O Globo
O consumo de álcool pelos pais influencia os filhos principalmente quando eles têm de 15 a 17 anos. É o que mostra um novo estudo conduzido na Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália, e publicado na revista científica Health Economics no último domingo. Saiba número ideal: Ter muitos ou poucos filhos pode diminuir longevidade O peso das canetas na saúde: Série do GLOBO mostra tudo sobre o assunto No trabalho, o economista de saúde e pesquisador da universidade Sergey Alexeev analisou dados coletados de 6.650 jovens australianos e de suas famílias acompanhados ao longo de 23 anos por meio do Inquérito sobre a Dinâmica das Famílias, dos Rendimentos e do Trabalho na Austrália (HILDA Survey). Os hábitos de consumo de álcool dos filhos foram monitorados a partir dos 15 até o final dos 30 anos e medidos em relação aos padrões de ingestão de seus pais. Como resultado, o pesquisador observou que a influência da bebida sobre os filhos é mais forte em dois momentos-chave da vida. Da empatia ao controle emocional: Os 11 sinais que podem revelar que você é mais inteligente do que os outros O primeiro e mais importante ocorre entre os 15 e 17 anos, fase em que a grande maioria dos adolescentes mora com os pais e começa a frequentar festas e outros eventos sociais. Geralmente, é nessa faixa etária que se inicia a experimentação de bebidas alcoólicas. No Brasil, por exemplo, o terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), realizado pela Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e divulgado no ano passado, mostrou que 27,6% dos jovens de 14 a 17 anos relatam já ter bebido álcool alguma vez na vida, percentual que chega a ser de 36,7% na região Sul. "Nos dados, a faixa dos 15 aos 17 anos se destaca nitidamente. Nessas idades, pais que bebem mais têm maior probabilidade de ter adolescentes que também bebem mais, em comparação com seus pares (outros adolescentes). Da mesma forma, pais que bebem pouco têm maior probabilidade de ter adolescentes que também bebem pouco”, afirma Alexeev em nota. O efeito das canetas emagrecedoras no corpo: Entenda como o remédio age em cada órgão Por outro lado, no final da adolescência e início dos 20 anos, essa semelhança enfraquece. Para o pesquisador, parceiros, colegas de apartamento, de trabalho e de faculdade tornam-se referências mais importantes, inclusive para o consumo de álcool. No entanto, o comportamento dos pais volta a influenciar o dos filhos em um segundo momento, no final dos 20 e início dos 30 anos. Segundo Alexeev, à medida que muitos desses jovens adultos começam a ter seus próprios filhos, a semelhança com o padrão de consumo de seus pais reaparece: "Quando as pessoas estão definindo o que é um adulto e um pai 'normal', parece que retrocedem um pouco em direção aos padrões com os quais cresceram. É como se o modelo aprendido em casa ficasse dormente por uma década e depois voltasse a se ativar quando você forma sua própria vida familiar”. Por que quase todo mundo tem olhos castanhos? Estudo explica como a genética define cores raras e comuns Outra observação do estudo foi que o gênero parece exercer um papel na influência: filhas tendem a ter um consumo mais semelhante ao de suas mães, enquanto o dos filhos se assemelha mais ao de seus pais. Essas associações foram modestas, porém constantes nos dois momentos-chave. "Famílias em que as mães costumam beber mais tendem a ter filhas que também bebem um pouco mais, em média. O mesmo vale para pais e filhos. Há poucas evidências de que os pais moldam o consumo das filhas da mesma forma, enquanto, curiosamente, as mães exercem uma influência menor, mas ainda assim relevante, sobre os filhos, especialmente nas duas janelas etárias de maior relevância”, afirma o pesquisador. Exercício físico: Por que ficamos tão famintos depois de alguns treinos, e sem vontade de comer depois de outros? O estudo também analisou o quão persistentes são os padrões de consumo de álcool uma vez estabelecidos. Os resultados mostraram que a maioria dos indivíduos permaneceu na mesma faixa de ingestão por décadas. A probabilidade de mudar de classe social, por exemplo, foi aproximadamente o dobro da de mudar o consumo de bebidas alcoólicas. "Uma vez que seu padrão de consumo de álcool se estabelece no início da vida adulta, ele é extraordinariamente estável. É por isso que aquelas breves janelas de influência parental podem lançar uma sombra tão longa”, diz o especialista. Corrida X natação: Qual é melhor para fortalecer o coração? Estudo responde Ainda assim, ele reforça que o comportamento dos pais não é um “destino” da forma como os filhos consumiram álcool. Os resultados do estudo são efeitos médios observados em milhares de famílias, e não uma regra, explica: “Um aumento de 10% no consumo de álcool de um pai está associado a um aumento de cerca de 1% no consumo de álcool do filho adulto, e muitas pessoas acabam bebendo de forma muito diferente de seus pais”. Para Alexeev, a pesquisa deve servir de alerta para os pais estarem cientes do quanto seus padrões de consumo de álcool podem ser influentes, especialmente durante a adolescência.
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