Jornal O Globo
Pressionado pela alta dos preços do petróleo e pela desaprovação da população americana à guerra, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, parece disposto a buscar um acordo com o Irã, que, até o momento, está se distanciando da diplomacia. O recuo de Trump sobre sua ameaça de atacar o setor energético iraniano ocorreu após uma série de discussões a portas fechadas — por meio de intermediários do Oriente Médio — que deram esperança para resolver o conflito. Na última quinta-feira, ministros das Relações Exteriores do Egito, Turquia, Arábia Saudita e Paquistão se reuniram em Riad para discutir uma saída diplomática para a guerra, mas o desafio para encontrar um interlocutor no Irã para negociar ainda persiste. Ofensiva: Sob ataque, Irã lança mísseis contra Israel e atinge Tel Aviv após negar haver negociações com governo Trump Repetindo roteiro de Gaza: Israel destrói pontes, vilas e estradas no Líbano e sinaliza ocupação no sul do país Dias antes do encontro entre os ministros, Israel assassinou o chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Ali Larijani, que era considerado um parceiro viável para dialogar com o Ocidente. Nesta terça-feira, inclusive, Teerã nomeou o ex-comandante da Guarda Revolucionária, Mohammad Bagher Zolghadr, aliado de Larijani, como novo secretário de Segurança da República Islâmica. Segundo fontes ouvidas pelo Wall Street Journal (WSJ), autoridades da Inteligência egípcia conseguiram abrir um canal de comunicação com a Guarda Revolucionária Islâmica, o Exército ideológico do Irã, e apresentaram uma proposta para suspender as hostilidades por cinco dias, a fim de gerar confiança para um cessar-fogo. Initial plugin text Em meio às diferentes versões, pessoas com conhecimento das discussões afirmaram à rede americana CNN que diversos países vêm transmitindo mensagens entre os EUA e o Irã nos últimos dias. Turquia e Egito estariam entre os países que repassaram mensagens como parte desse esforço, enquanto o enviado especial de Washington para o Oriente Médio, Steve Witkoff, teria ouvido de “várias” autoridades da região que a ameaça de Trump de atingir usinas de energia iranianas provocaria uma retaliação massiva, inclusive contra aliados americanos no Golfo. Autoridades regionais também mantiveram contato com o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi. Essas discussões prepararam o terreno para uma reviravolta. Na noite do último sábado, Trump deu um ultimato ao Irã para que reabrisse o Estreito de Ormuz, rota marítima vital para o escoamento de cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo, em 48 horas ou as Forças Armadas americanas "destruiriam" as usinas de energia do país. Horas antes do prazo acabar, quando a notícia das negociações em Riad chegou à Casa Branca, Trump mudou de posição, optando pela diplomacia com Teerã e suspendendo os ataques que havia ameaçado realizar. Ele afirmou que os EUA estiveram em contato com um líder iraniano respeitado em Teerã, mas se recusou a revelar o nome. Presidente dos EUA, Donald Trump, concedeu entrevista coletiva ao sair da Casa Branca BRENDAN SMIALOWSKI / AFP “Tenho o prazer de informar que os EUA e o Irã tiveram, nos últimos dois dias, conversas muito boas e produtivas sobre uma resolução completa e total de nossas hostilidades no Oriente Médio. Com base no tom e no teor dessas conversas profundas, detalhadas e construtivas, que continuarão ao longo da semana, instruí o Departamento de Guerra a adiar quaisquer e todos os ataques militares contra usinas de energia e infraestrutura energética iraniana por um período de cinco dias, sujeito ao sucesso das reuniões e discussões em andamento”, escreveu Trump em sua plataforma Truth Social. Trump, portanto, usou a abertura de um diálogo, ainda que inicial, como uma válvula de escape para sua ameaça e afirmou que estenderia seu prazo até sexta-feira para dar tempo às negociações, desencadeando uma onda de esforços diplomáticos por parte de diversas nações. Mas os mediadores árabes expressaram, ainda segundo o WSJ, ceticismo quanto à possibilidade de os EUA e o Irã chegarem rapidamente a um acordo, observando que os dois lados permaneciam muito distantes. A afirmação de Trump de que as negociações eram produtivas foi recebida com resistência por autoridades iranianas, que negaram que as discussões estivessem ocorrendo. Segundo a agência iraniana Mehr, o Ministério de Relações Exteriores do Irã afirmou que as falas do líder americano "fazem parte dos esforços de reduzir os preços de energia e ganhar tempo para implementar seus planos militares", em referência a um contingente de milhares de marinheiros e fuzileiros navais americanos que está a caminho do Oriente Médio. Abbas Araghchi: Quem é o chanceler iraniano que simboliza a posição desafiante do Irã na guerra com EUA e Israel — Estas são discussões diplomáticas delicadas, e os EUA não negociarão através da imprensa — disse a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, na segunda-feira. — Esta é uma situação fluida e especulações sobre reuniões não devem ser consideradas definitivas até que sejam formalmente anunciadas pela Casa Branca. Como condição para qualquer acordo que ponha fim à guerra, o Irã exige que os EUA e Israel se comprometam a não lançar futuros ataques e pressiona por indenização pelos danos sofridos durante a guerra. Os EUA ainda querem o que buscavam do Irã antes do início da guerra: o desmantelamento do programa nuclear iraniano, a suspensão do programa de mísseis balísticos e o fim do apoio a milícias aliadas. Mesmo com o recuo de Trump, autoridades americanas e israelenses afirmaram que continuavam realizando outros ataques contra o Irã e que mais recursos militares americanos estavam a caminho da região. As autoridades ainda disseram que Trump ainda considerava operações mais agressivas, incluindo uma para tomar a Ilha de Kharg, principal centro de exportação de petróleo do Irã, e outra para enviar tropas terrestres ao Irã a fim de garantir o fornecimento de urânio altamente enriquecido. Possível negociação em Islamabad A Casa Branca confirmou que o chefe do Exército paquistanês, Asim Munir, conversou por telefone com Trump no último domingo para discutir o conflito. Desde então, segundo fontes diplomáticas ouvidas pelo WSJ, EUA e Irã podem se encontrar para negociações em Islamabad, capital do Paquistão, ou na Turquia ainda nesta semana para discutir o fim da guerra, que começou há quase um mês. O vice-presidente dos EUA, JD Vance, estava sendo cotado como provável negociador-chefe pelo lado americano, em vez de Witkoff ou do genro de Trump, Jared Kushner, que liderou as negociações fracassadas com o Irã antes da guerra. Na segunda-feira, quando recuou de seu ultimato, Trump disse que alguns líderes iranianos poderiam inaugurar uma era melhor nas relações entre os EUA e o Irã, comparando novamente o cenário da Venezuela pós-Maduro, líder chavista que foi capturado e deposto por Washington em uma operação no início do ano, em Caracas. Initial plugin text — Estamos lidando com algumas pessoas que considero muito razoáveis, muito sólidas — disse ele. — Talvez uma delas seja exatamente o que estamos procurando. Vejam a Venezuela, como as coisas estão indo bem. Mohammad-Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano e um dos principais funcionários remanescentes no país, sugeriu que Teerã ainda não está pronto para negociar com Washington, classificando a declaração do presidente americano como "falsa". Mohammad-Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano AFP “O povo iraniano exige punição completa e com remorso dos agressores”, escreveu Ghalibaf algumas horas após os comentários de Trump. Segundo ele, não houve negociações com os EUA e esse otimismo “é usado para manipular os mercados financeiros e de petróleo e escapar do atoleiro em que os EUA e Israel estão presos”. Washington, agora, pode negociar com um regime iraniano mais linha-dura, oficialmente liderado pelo novo líder supremo Mojtaba Khamenei — cujo pai, esposa e irmã foram mortos nos ataques coordenados entre EUA e Israel. Analistas observam que o regime está fragilizado, mas intacto, com o controle de Ormuz. (Com New York Times)
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