Jornal O Globo
O desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), que esteve no apartamento do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto após a morte da soldado Gisele Alves Santana, passou a ser investigado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O órgão abriu um Pedido de Providências para apurar a visita do magistrado, que chegou ao local após ter sido acionado pelo próprio tenente-coronel. Tenente-coronel excluía contatos do celular da esposa e borrifava o próprio perfume na farda dela ‘Irmão, é tiro de .40’; ‘vou tomar banho’: as frases do tenente-coronel após a morte da esposa De acordo com o inquérito, a presença do desembargador teria contribuído para a criação de um “entorno de autoridade”, o que poderia inibir a atuação de policiais de patente inferior. Segundo depoimentos colhidos na investigação, Cogan foi ao apartamento na condição de amigo pessoal do oficial. Os policiais que atenderam a ocorrência afirmaram que, durante o tempo em que permaneceu no local, o desembargador não faltou com respeito nem usou o cargo para interferir na ação. De acordo com os relatos, a única menção à sua função foi feita pelo próprio tenente-coronel, que fez um "tour" no imóvel com o magistrado enquanto os agentes realizavam o resgate da esposa. A atitude do oficial ao chamar um desembargador para a cena foi discutida entre os policiais. “Eu não tenho como virar para um coronel e dizer que ele não vai tomar banho. Ele está com um desembargador aqui no local, entendeu? O cara ligou para um desembargador. Não é estranho? Alguém acima dele”, disse um dos agentes em depoimento. “Ninguém chama um desembargador para ir ao local, ninguém se preocupa em dizer que deixou a arma trancada e em cima do armário em um momento como esse”, acrescentou. A Corregedoria da Polícia Militar e os responsáveis pela investigação afirmaram não ter identificado, até o momento, desvio de conduta por parte do magistrado. Em coletiva, informaram que ele prestou depoimento e que esteve no apartamento na condição de amigo do agora réu. O Pedido de Providências (PP) foi instaurado a partir de representação da deputada Sâmia Bomfim. “A postura do desembargador, ao visitar um suspeito de um crime desta gravidade, sugere, na visão da sociedade, algum tipo de influência sobre o caso, comprometendo a percepção de independência do Judiciário”, escreveu a parlamentar. Em nota, o Tribunal de Justiça de São Paulo declarou que “não se posiciona sobre questões que tramitam ou que possam vir a tramitar em outros órgãos”. Procurado, o desembargador não se manifestou. O espaço permanece aberto. O caso Neto foi preso em meados deste mês, em São José dos Campos, no interior paulista. A detenção ocorreu após pedido da Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo. No dia seguinte, a Polícia Civil cumpriu um segundo mandado de prisão preventiva. O oficial está detido no Presídio Militar Romão Gomes. As prisões ocorreram no âmbito da investigação sobre a morte de sua esposa, em fevereiro deste ano. Gisele foi encontrada morta com um tiro na cabeça no apartamento do casal. Neto sustenta que se tratou de suicídio, mas a hipótese foi descartada pelos investigadores. Os laudos necroscópico e de pós-exumação indicam que o disparo foi feito com a arma encostada na têmpora direita, em trajetória de baixo para cima. Os exames também apontam que a vítima foi abordada por trás, com a mão esquerda do agressor pressionando sua face e pescoço, enquanto o tiro foi disparado com a mão direita. Outro elemento que levantou suspeitas foi a posição da arma. Quando os primeiros policiais chegaram ao apartamento, encontraram Gisele caída na sala, em frente à televisão, com o revólver preso a um dos dedos da mão direita — situação considerada incomum em casos de suicídio, nos quais a arma normalmente se solta após o disparo. Diante dos indícios, os investigadores concluíram que houve manipulação da cena. “O mosaico probatório afasta a hipótese de suicídio e indica que Gisele foi abordada por trás, com a mão esquerda do agressor na mandíbula/face e a arma na mão direita dirigida à têmpora. Após o disparo, o corpo foi colocado no chão, houve escoamento sanguíneo e manipulações subsequentes, inclusive na posição da arma, além de limpeza e banho do autor. O investigado foi a única pessoa com a vítima antes do fato e o primeiro a intervir na cena”, diz trecho da decisão do juiz militar. Versão do banho é contestada pela perícia Além da perícia no local, a Polícia Civil realizou uma reprodução simulada no apartamento onde o casal vivia. Neto afirmou que estava tomando banho quando ouviu o disparo vindo da sala e que, ao sair do box, teria visto a esposa caída através do vidro e da porta do banheiro. Segundo os peritos, a dinâmica do local torna essa versão improvável. Exames com reagentes químicos identificaram vestígios de sangue no banheiro, inclusive no box, nas paredes, no piso, em uma toalha e em uma bermuda jeans do investigado. “A reprodução simulada e a perícia encontraram luminol positivo no box, paredes, piso e registros do banheiro, além de reação em toalha e na bermuda do investigado, em contradição com a versão de que ele não teve contato com sangue nem manipulou a cena. A reconstrução tridimensional concluiu ainda que da porta do banheiro não era possível visualizar o corpo na posição registrada nas fotos, com ou sem a árvore de Natal na sala”, aponta o laudo. Defesa fala em suicídio A defesa do tenente-coronel mantém a versão de suicídio. No dia da prisão, os advogados afirmaram estar “estarrecidos” com a decisão e recorreram ao Superior Tribunal de Justiça para tentar revogar a preventiva. Os defensores também alegam que mensagens usadas para justificar a prisão foram descontextualizadas e que houve exposição indevida de aspectos da vida privada do investigado.
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