Lucas Iagla Turqueto sobre Stablecoins: A Revolução Silenciosa que Está Redesenhando os Pagamentos Globais
Jornal O Globo

Lucas Iagla Turqueto sobre Stablecoins: A Revolução Silenciosa que Está Redesenhando os Pagamentos Globais

Enviar dinheiro de São Paulo para Nova York pelo sistema bancário tradicional é, em 2026, uma experiência que pertence ao século passado. Uma transferência via SWIFT leva de 1 a 5 dias úteis para ser liquidada, passa por 3 a 4 bancos intermediários, custa entre US$ 25 e US$ 50 em taxas fixas — sem contar o spread cambial de 2% a 5% que os bancos embutem silenciosamente na conversão. Para uma empresa que precisa pagar um fornecedor no exterior, ou um freelancer que recebe em dólar, esses custos e atrasos se acumulam e corroem margens. Agora considere a alternativa: uma transferência em stablecoin — um dólar digital como USDC ou USDT — leva menos de 60 segundos para ser liquidada, opera 24 horas por dia, 365 dias por ano, e custa frações de centavo. Não há intermediários. Não há horário bancário. Não há feriados. O dinheiro simplesmente chega. Essa não é mais uma promessa de futuro. É realidade em escala global — e os números comprovam. Os números que redefinem o mercado O volume de transações processadas por stablecoins atingiu US$ 33 trilhões em 2025, uma alta de 72% em relação ao ano anterior, segundo dados da Artemis Analytics compilados pela Bloomberg. Para colocar em perspectiva: a Visa, maior rede de pagamentos do mundo, processou US$ 16,7 trilhões em seu ano fiscal de 2025. Stablecoins movimentaram quase o dobro. Divulgação Divulgação O USDC, emitido pela Circle, liderou com US$ 18,3 trilhões em transações, seguido pelo USDT (Tether) com US$ 13,3 trilhões. Só no quarto trimestre de 2025, o volume atingiu US$ 11 trilhões — mais do que muitas redes de pagamento processam em um ano inteiro. A capitalização de mercado das stablecoins ultrapassou US$ 300 bilhões no início de 2026, com mais de 232 milhões de detentores globais. As projeções para os próximos anos são ainda mais expressivas: o Citi projeta que o mercado pode chegar a US$ 4 trilhões em capitalização até 2030, enquanto Standard Chartered e o próprio Tesouro dos EUA estimam US$ 2 a 3 trilhões até 2028. Divulgação Divulgação SWIFT vs. stablecoin: a comparação que o sistema bancário prefere evitar O SWIFT, criado em 1973, é a espinha dorsal das transferências internacionais. Conecta mais de 11.000 instituições financeiras em mais de 200 países e processa trilhões em mensagens financeiras por ano. É seguro, regulado e confiável. Mas também é lento, caro e limitado a horários comerciais. A diferença operacional entre os dois sistemas é brutal: Divulgação Divulgação A analogia mais precisa é a do correio físico versus o e-mail. O SWIFT é como enviar uma carta registrada que passa por três agências dos Correios em países diferentes antes de chegar ao destinatário. A stablecoin é o e-mail: instantâneo, direto e praticamente gratuito. Assim como o e-mail não eliminou o correio físico da noite para o dia, stablecoins não vão substituir o SWIFT amanhã — mas a trajetória é inequívoca. A regulamentação que legitima a revolução Diferentemente de ciclos anteriores do mercado crypto, desta vez a regulamentação está acompanhando a adoção. Em julho de 2025, o presidente Trump assinou o GENIUS Act, o primeiro framework regulatório federal para stablecoins de pagamento nos Estados Unidos. A lei exige lastro em ativos líquidos como dólares e títulos do Tesouro de curto prazo, além de divulgação periódica de reservas. Na Europa, o MiCA (Markets in Crypto-Assets Regulation) já está em vigor e padroniza os requisitos para emissores de stablecoins. Hong Kong aprovou seu próprio Stablecoin Bill. E no Brasil, o Banco Central estuda a regulação de stablecoins no contexto do Drex, o real digital. O movimento global é claro: reguladores estão legitimando o que o mercado já adotou, não tentando impedi-lo. Essa convergência regulatória é o que distingue o momento atual de bolhas anteriores. Quando o arcabouço legal existe, as grandes instituições entram. A Visa já opera um programa de cartões vinculados a stablecoins em 18 países, com planos de expansão para mais de 100 até o final de 2026. A Mastercard lançou uma parceria com a Thunes para pagamentos via stablecoin. Standard Chartered e Amazon estão explorando emissão própria. O caso brasileiro: remessas, freelancers e a oportunidade O Brasil ocupa uma posição singular nessa transição. O mercado de remessas e transferências internacionais do país movimenta cerca de US$ 5,8 bilhões por ano, com uma população expressiva de brasileiros no exterior — especialmente nos Estados Unidos, Portugal e Japão — que envia dinheiro regularmente para famílias no Brasil. Para esse público, o custo de uma remessa tradicional é desproporcional. Além das taxas fixas do SWIFT, há o spread cambial embutido pelos bancos (tipicamente 2% a 5% sobre a taxa de mercado), taxas de intermediários e, em muitos casos, taxas do banco receptor. Em uma remessa de US$ 1.000, é comum que o destinatário receba US$ 920 a US$ 950 após todas as deduções. Com stablecoins, essa mesma transferência custa centavos e chega em segundos. O destinatário pode converter para reais através de exchanges locais ou, cada vez mais, usar diretamente — o ecossistema de aceitação de stablecoins no Brasil cresce com a popularização do Pix e das fintechs. Mas não são apenas remessas pessoais. Um segmento que cresce rapidamente é o de freelancers e prestadores de serviços brasileiros que trabalham para empresas estrangeiras. Desenvolvedores, designers, redatores e consultores que recebem em dólar estão cada vez mais optando por receber via stablecoin, eliminando as taxas bancárias e o tempo de espera. Para esses profissionais, stablecoins não é um investimento especulativo — são infraestrutura de trabalho. Na América Latina como um todo, 71% da atividade com stablecoins está ligada a pagamentos transfronteiriços — a maior proporção do mundo, superando os 39% da América do Norte. Isso reflete uma realidade simples: em regiões onde o sistema bancário tradicional é caro e lento, a adoção de alternativas digitais é mais rápida e mais profunda. Além das remessas: o avanço silencioso no B2B Se as remessas pessoais chamam atenção, o segmento empresarial é onde o impacto econômico se torna realmente transformador. Segundo relatório da McKinsey publicado em fevereiro de 2026, pagamentos B2B (business-to-business) representam US$ 226 bilhões — cerca de 60% — do volume global de pagamentos em stablecoins, com crescimento de 733% em relação ao ano anterior. Essa maturação do mercado B2B sinaliza que stablecoins estão deixando de ser ferramenta de early adopters e cripto entusiastas para se tornarem infraestrutura corporativa. Quando a McKinsey publica relatórios sobre stablecoins e quando a Bloomberg usa preços de contratos em exchanges descentralizadas como referência, o mercado já cruzou o Rubicão. A questão não é “se”, mas “quando” Há quem argumente que stablecoins são arriscadas, que a regulamentação ainda é incipiente, que os riscos de lavagem de dinheiro são reais. Essas preocupações são válidas — e estão sendo endereçadas. O GENIUS Act, o MiCA e as iniciativas do Banco Central do Brasil representam exatamente isso: a construção de um arcabouço legal que permite a inovação dentro de guardrails regulatórios. O que não se pode argumentar é que o status quo é adequado. Um sistema de pagamentos internacionais que leva dias para liquidar, cobra dezenas de dólares em taxas e opera apenas em horário comercial não serve mais a uma economia global que funciona 24 horas. Stablecoins não são uma aposta especulativa — são infraestrutura financeira funcional que já opera em escala superior à da maior rede de pagamentos do mundo. A questão para empresas, investidores e reguladores brasileiros não é se stablecoins vão se consolidar como trilho de pagamento. É quando essa consolidação se tornar irreversível — e se estaremos preparados quando isso acontecer. Lucas Iagla Turqueto é empreendedor e investidor no ecossistema de ativos digitais. Acompanha a evolução de stablecoins e infraestrutura financeira descentralizada desde os primeiros anos do mercado, com experiência prática em pagamentos internacionais via crypto e investimentos em projetos de infraestrutura blockchain.

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