Jornal O Globo
Enviar dinheiro de São Paulo para Nova York pelo sistema bancário tradicional é, em 2026, uma experiência que pertence ao século passado. Uma transferência via SWIFT leva de 1 a 5 dias úteis para ser liquidada, passa por 3 a 4 bancos intermediários, custa entre US$ 25 e US$ 50 em taxas fixas — sem contar o spread cambial de 2% a 5% que os bancos embutem silenciosamente na conversão. Para uma empresa que precisa pagar um fornecedor no exterior, ou um freelancer que recebe em dólar, esses custos e atrasos se acumulam e corroem margens. Agora considere a alternativa: uma transferência em stablecoin — um dólar digital como USDC ou USDT — leva menos de 60 segundos para ser liquidada, opera 24 horas por dia, 365 dias por ano, e custa frações de centavo. Não há intermediários. Não há horário bancário. Não há feriados. O dinheiro simplesmente chega. Essa não é mais uma promessa de futuro. É realidade em escala global — e os números comprovam. Os números que redefinem o mercado O volume de transações processadas por stablecoins atingiu US$ 33 trilhões em 2025, uma alta de 72% em relação ao ano anterior, segundo dados da Artemis Analytics compilados pela Bloomberg. Para colocar em perspectiva: a Visa, maior rede de pagamentos do mundo, processou US$ 16,7 trilhões em seu ano fiscal de 2025. Stablecoins movimentaram quase o dobro. Divulgação Divulgação O USDC, emitido pela Circle, liderou com US$ 18,3 trilhões em transações, seguido pelo USDT (Tether) com US$ 13,3 trilhões. Só no quarto trimestre de 2025, o volume atingiu US$ 11 trilhões — mais do que muitas redes de pagamento processam em um ano inteiro. A capitalização de mercado das stablecoins ultrapassou US$ 300 bilhões no início de 2026, com mais de 232 milhões de detentores globais. As projeções para os próximos anos são ainda mais expressivas: o Citi projeta que o mercado pode chegar a US$ 4 trilhões em capitalização até 2030, enquanto Standard Chartered e o próprio Tesouro dos EUA estimam US$ 2 a 3 trilhões até 2028. Divulgação Divulgação SWIFT vs. stablecoin: a comparação que o sistema bancário prefere evitar O SWIFT, criado em 1973, é a espinha dorsal das transferências internacionais. Conecta mais de 11.000 instituições financeiras em mais de 200 países e processa trilhões em mensagens financeiras por ano. É seguro, regulado e confiável. Mas também é lento, caro e limitado a horários comerciais. A diferença operacional entre os dois sistemas é brutal: Divulgação Divulgação A analogia mais precisa é a do correio físico versus o e-mail. O SWIFT é como enviar uma carta registrada que passa por três agências dos Correios em países diferentes antes de chegar ao destinatário. A stablecoin é o e-mail: instantâneo, direto e praticamente gratuito. Assim como o e-mail não eliminou o correio físico da noite para o dia, stablecoins não vão substituir o SWIFT amanhã — mas a trajetória é inequívoca. A regulamentação que legitima a revolução Diferentemente de ciclos anteriores do mercado crypto, desta vez a regulamentação está acompanhando a adoção. Em julho de 2025, o presidente Trump assinou o GENIUS Act, o primeiro framework regulatório federal para stablecoins de pagamento nos Estados Unidos. A lei exige lastro em ativos líquidos como dólares e títulos do Tesouro de curto prazo, além de divulgação periódica de reservas. Na Europa, o MiCA (Markets in Crypto-Assets Regulation) já está em vigor e padroniza os requisitos para emissores de stablecoins. Hong Kong aprovou seu próprio Stablecoin Bill. E no Brasil, o Banco Central estuda a regulação de stablecoins no contexto do Drex, o real digital. O movimento global é claro: reguladores estão legitimando o que o mercado já adotou, não tentando impedi-lo. Essa convergência regulatória é o que distingue o momento atual de bolhas anteriores. Quando o arcabouço legal existe, as grandes instituições entram. A Visa já opera um programa de cartões vinculados a stablecoins em 18 países, com planos de expansão para mais de 100 até o final de 2026. A Mastercard lançou uma parceria com a Thunes para pagamentos via stablecoin. Standard Chartered e Amazon estão explorando emissão própria. O caso brasileiro: remessas, freelancers e a oportunidade O Brasil ocupa uma posição singular nessa transição. O mercado de remessas e transferências internacionais do país movimenta cerca de US$ 5,8 bilhões por ano, com uma população expressiva de brasileiros no exterior — especialmente nos Estados Unidos, Portugal e Japão — que envia dinheiro regularmente para famílias no Brasil. Para esse público, o custo de uma remessa tradicional é desproporcional. Além das taxas fixas do SWIFT, há o spread cambial embutido pelos bancos (tipicamente 2% a 5% sobre a taxa de mercado), taxas de intermediários e, em muitos casos, taxas do banco receptor. Em uma remessa de US$ 1.000, é comum que o destinatário receba US$ 920 a US$ 950 após todas as deduções. Com stablecoins, essa mesma transferência custa centavos e chega em segundos. O destinatário pode converter para reais através de exchanges locais ou, cada vez mais, usar diretamente — o ecossistema de aceitação de stablecoins no Brasil cresce com a popularização do Pix e das fintechs. Mas não são apenas remessas pessoais. Um segmento que cresce rapidamente é o de freelancers e prestadores de serviços brasileiros que trabalham para empresas estrangeiras. Desenvolvedores, designers, redatores e consultores que recebem em dólar estão cada vez mais optando por receber via stablecoin, eliminando as taxas bancárias e o tempo de espera. Para esses profissionais, stablecoins não é um investimento especulativo — são infraestrutura de trabalho. Na América Latina como um todo, 71% da atividade com stablecoins está ligada a pagamentos transfronteiriços — a maior proporção do mundo, superando os 39% da América do Norte. Isso reflete uma realidade simples: em regiões onde o sistema bancário tradicional é caro e lento, a adoção de alternativas digitais é mais rápida e mais profunda. Além das remessas: o avanço silencioso no B2B Se as remessas pessoais chamam atenção, o segmento empresarial é onde o impacto econômico se torna realmente transformador. Segundo relatório da McKinsey publicado em fevereiro de 2026, pagamentos B2B (business-to-business) representam US$ 226 bilhões — cerca de 60% — do volume global de pagamentos em stablecoins, com crescimento de 733% em relação ao ano anterior. Essa maturação do mercado B2B sinaliza que stablecoins estão deixando de ser ferramenta de early adopters e cripto entusiastas para se tornarem infraestrutura corporativa. Quando a McKinsey publica relatórios sobre stablecoins e quando a Bloomberg usa preços de contratos em exchanges descentralizadas como referência, o mercado já cruzou o Rubicão. A questão não é “se”, mas “quando” Há quem argumente que stablecoins são arriscadas, que a regulamentação ainda é incipiente, que os riscos de lavagem de dinheiro são reais. Essas preocupações são válidas — e estão sendo endereçadas. O GENIUS Act, o MiCA e as iniciativas do Banco Central do Brasil representam exatamente isso: a construção de um arcabouço legal que permite a inovação dentro de guardrails regulatórios. O que não se pode argumentar é que o status quo é adequado. Um sistema de pagamentos internacionais que leva dias para liquidar, cobra dezenas de dólares em taxas e opera apenas em horário comercial não serve mais a uma economia global que funciona 24 horas. Stablecoins não são uma aposta especulativa — são infraestrutura financeira funcional que já opera em escala superior à da maior rede de pagamentos do mundo. A questão para empresas, investidores e reguladores brasileiros não é se stablecoins vão se consolidar como trilho de pagamento. É quando essa consolidação se tornar irreversível — e se estaremos preparados quando isso acontecer. Lucas Iagla Turqueto é empreendedor e investidor no ecossistema de ativos digitais. Acompanha a evolução de stablecoins e infraestrutura financeira descentralizada desde os primeiros anos do mercado, com experiência prática em pagamentos internacionais via crypto e investimentos em projetos de infraestrutura blockchain.
Go to News Site