Jornal O Globo
Antes da guerra escalar, países do Golfo Pérsico declararam publicamente que não participariam de ataques contra o Irã nem permitiriam que seu espaço aéreo fosse usado para esse fim. Quase um mês depois, porém, o cenário começou a mudar, mas o ceticismo entre países árabes aliados dos Estados Unidos por um envolvimento direto na ofensiva ainda perdura. Impaciente com os contínuos ataques retaliatórios iranianos — que já atingiram, além de bases americanas, portos, aeroportos e instalações de energia — em seu território, a Arábia Saudita permitiu que as Forças Armadas dos EUA utilizem a base aérea Rei Fahd, na costa oeste da Península Arábica. Também alvo da retaliação, os Emirados Árabes Unidos, que há anos são um centro financeiro para empresas de Teerã, ameaçam congelar bilhões de dólares em ativos de propriedade iraniana, ao mesmo tempo em que debatem se devem enviar suas Forças Armadas para o conflito. Em paralelo, comedidos esforços diplomáticos começaram a se desenrolar em Riad, com ministros das Relações Exteriores do Egito, Turquia, Arábia Saudita e Paquistão discutindo, na última quinta-feira, a reabertura do Estreito de Ormuz, rota marítima vital para o escoamento de cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo, além de uma possível ação militar. Mas, agora, o desafio é encontrar um interlocutor no Irã, após a morte do chefe de Segurança do país, Ali Larijani, que era considerado um parceiro viável para dialogar com o Ocidente. Sob ataque: Irã lança mísseis contra Israel e atinge Tel Aviv após negar haver negociações com governo Trump Entenda: o que levou Trump a recuar de seu ultimato ao Irã e se há caminho para uma saída diplomática na guerra Arrastados para a guerra, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos só entrariam diretamente no conflito, segundo fontes ouvidas pela Bloomberg, se Teerã cumprir suas ameaças de atingir sistemas vitais de energia e água, feitas em resposta às declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre bombardear a Ilha de Kharg, responsável por cerca de 90% das exportações de petróleo da República, e o setor energético iraniano. Para atingir Kharg, conforme as fontes, tropas americanas provavelmente seriam mobilizadas a partir dos Emirados, que abrigam a base aérea de Al Dhafra. Segundo o New York Times, o Pentágono planeja enviar a 82ª Brigada de assalto aéreo, composta por cerca de 3 mil militares, para o Golfo. Trata-se de uma força de ação emergencial, que pode atuar em qualquer lugar do mundo em até 24 horas, e treinada para ações com paraquedistas em territórios hostis, com o objetivo de assumir o controle de posições estratégicas, como campos de pouso. Desde o início da guerra, o Irã lançou quase 5 mil mísseis e drones contra países do Golfo e, pelo menos, 20 pessoas morreram na região. Nos últimos dias, Bahrein, Kuwait, Arábia Saudita e Emirados interceptaram drones e mísseis lançados pelo Irã. Teerã, por sua vez, afirma que os países do Golfo são alvos legítimos por permitirem que os EUA utilizem seus territórios e espaço aéreo — alegação rejeitada por todos. O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, tem pressionado Trump para que continue a guerra contra o Irã, argumentando que a campanha militar representa uma “oportunidade histórica” para remodelar o Oriente Médio. Em uma série de conversas ao longo da última semana, o príncipe disse para o presidente americano que ele deve pressionar pela destruição do governo linha-dura do Irã, que, para bin Salman, representa uma ameaça a longo prazo para o Golfo. “O reino da Arábia Saudita sempre apoiou uma resolução pacífica para este conflito, mesmo antes de seu início”, afirmou o governo saudita, em comunicado, observando que as autoridades “permanecem em contato próximo com o governo Trump e nosso compromisso permanece inalterado”. “Nossa principal preocupação, hoje, é nos defender dos ataques diários contra nosso povo e nossa infraestrutura civil. O Irã optou por uma política de risco perigosa em vez de soluções diplomáticas sérias. Isso prejudica todos os envolvidos, mas principalmente o próprio Irã”, acrescentou o governo. Initial plugin text A maioria dos países do Golfo caminha nessa direção, com exceção de Omã, que busca manter seu papel de mediador. Mesmo assim, há cautela: uma entrada na guerra pode provocar uma escalada ainda maior por parte do Irã. Também existe o receio de que Trump feche um acordo com Teerã, deixando esses países expostos a um regime enfraquecido, porém hostil. Autoridades sauditas e americanas temem que, se o conflito se prolongar, o Irã intensifique ataques contra instalações petrolíferas, enquanto os EUA correm o risco de se envolver em uma guerra sem fim. Ao mesmo tempo, países do Golfo receiam ficar expostos caso Donald Trump encerre o conflito de forma abrupta, deixando-os diante de um Irã enfraquecido, porém mais hostil. Os Estados, portanto, estão unidos em sua raiva contra o Irã, mas também irritados ao perceberem que não conseguem exercer muita influência sobre as decisões do governo Trump, apesar de serem parceiros de segurança e investirem pesadamente nessa relação. Para Mohammed Baharoon, diretor do centro de pesquisa B’huth, em Dubai, se o Irã continuar atacando países do Golfo e bloqueando o Estreito de Ormuz, um coalizão regional pode ser formada para enfrentá-lo, semelhante à que combateu o Estado Islâmico no Iraque e na Síria. — Esta não é a nossa guerra, mas o Irã está tornando-a nossa — afirmou Baharoon. Repetindo roteiro de Gaza: Israel destrói pontes, vilas e estradas no Líbano e sinaliza ocupação no sul do país Nos últimos cinco anos, Arábia Saudita e Emirados haviam buscado estabilizar laços com a República Islâmica — um regime teocrático xiita que historicamente tentam conter —, justamente para evitar o tipo de conflito que agora se desenrola. Mas a visão da Arábia Saudita sobre a guerra é moldada tanto por fatores econômicos quanto políticos. Desde o início do conflito, a Guarda Revolucionária iraniana praticamente bloqueou o Estreito de Ormuz, prejudicando a indústria energética da região. A grande maioria do petróleo saudita, emiradense e kuwaitiano precisa passar pelo Estreito para chegar aos mercados internacionais. Ainda assim, o Irã, encorajado com o impacto de suas retaliações, afirmou que deseja ter um papel nas operações do Estreito após a guerra, cobrando pedágio do tráfego marítimo na região, assim como o Egito faz com o Canal de Suez. A aposta de que as garantias de segurança e o engajamento diplomático dos EUA com o Irã manteriam os países árabes a salvo desmoronou. Essa conclusão tornou-se evidente na semana passada, quando o Irã atacou o centro energético de Ras Laffan, no Catar, além de atingir um importante centro energético saudita no Mar Vermelho e instalações no Kuwait e nos Emirados Árabes Unidos. O Catar condenou o ataque, classificando-o como uma escalada perigosa e uma ameaça direta à sua segurança nacional. A ofensiva foi uma retaliação ao ataque israelense ao campo de gás mais importante do Irã , South Pars. Majed Al-Ansari, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Catar, afirmou que os países da região terão de encontrar uma forma de coexistir com o Irã. — Cabe aos iranianos, após esta guerra, decidir como reconstruirão a confiança — disse. Ofensiva americana: Trump autoriza envio de brigada de paraquedistas especializada em ações de assalto aéreo para o Golfo Pérsico Coordenação no Golfo Diante desse cenário, cresce a percepção de que os países do Golfo precisarão agir de forma mais coordenada, inclusive com aliados ocidentais. Os membros do Conselho de Cooperação do Golfo intensificaram o compartilhamento de inteligência para prevenir ataques e proteger infraestruturas críticas, além de lidar com possíveis consequências de ataques a instalações nucleares e petrolíferas. Embora cada país esteja reforçando sua defesa individual, segundo fontes da região, há discussões sobre ações conjuntas contra o Irã com apoio internacional. Durante o encontro em Riad na semana passada, o ministro das Relações Exteriores saudita, Faisal bin Farhan, afirmou que a paciência da região não é ilimitada. — É importante que o Irã entenda que o reino e seus parceiros têm capacidades significativas que podem ser empregadas, se assim decidirem — afirmou Farhan. Segundo a rede americana CNN, diversos países vêm transmitindo mensagens entre os EUA e o Irã nos últimos dias. Turquia e Egito estariam entre os países que repassaram mensagens como parte do esforço pela diplomacia. Essas discussões prepararam o terreno para uma reviravolta. Na noite do último sábado, Trump deu um ultimato ao Irã para que reabrisse o Estreito de Ormuz em 48 horas ou as Forças Armadas americanas "destruiriam" as usinas de energia do país. Horas antes do prazo acabar, quando a notícia das negociações em Riad chegou à Casa Branca, Trump mudou de posição, optando pela diplomacia com Teerã e suspendendo os ataques que havia ameaçado realizar. Trump, portanto, usou a abertura de um diálogo, ainda que inicial, como uma válvula de escape para sua ameaça e afirmou que estenderia seu prazo até a próxima sexta-feira para dar tempo às negociações, desencadeando uma onda de esforços diplomáticos por parte de diversas nações. Abbas Araghchi: Quem é o chanceler iraniano que simboliza a posição desafiante do Irã na guerra com EUA e Israel Entre os países do Golfo, os Emirados são os que mais indicam que uma ação militar coletiva pode se tornar inevitável. O vice-primeiro-ministro dos Emirados Árabes Unidos, Abdullah bin Zayed, afirmou que "jamais seremos chantageados por terroristas". Já Anwar Gargash, assessor do presidente emiradense, afirmou que um cessar-fogo não será suficiente sem uma solução duradoura para conter a ameaça nuclear iraniana e seu arsenal de mísseis e drones. — É inconcebível que essa agressão se torne uma ameaça permanente — disse. Mas os mediadores árabes expressaram ceticismo quanto à possibilidade de os EUA e o Irã chegarem rapidamente a um acordo, observando que os dois lados permaneciam muito distantes. A Casa Branca confirmou que o chefe do Exército paquistanês, Asim Munir, conversou por telefone com Trump no último domingo para discutir o conflito. Desde então, fontes diplomáticas afirmam que EUA e Irã podem se encontrar em Islamabad, capital do Paquistão, ou na Turquia ainda nesta semana para discutir o fim da guerra, que começou há quase um mês. O vice-presidente dos EUA, JD Vance, estava sendo cotado como provável negociador-chefe pelo lado americano, em vez de Witkoff ou do genro de Trump, Jared Kushner, que liderou as negociações fracassadas com o Irã antes da guerra. — A pouca confiança que existia antes foi completamente destruída. Vamos usar todas as ferramentas à nossa disposição, políticas, econômicas, diplomáticas e de qualquer outra natureza, para fazer com que esses ataques cessem — acrescentou o chanceler saudita. (Com New York Times e Bloomberg)
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