Jornal O Globo
O avanço de novas tecnologias, principalmente a inteligência artificial (IA), ameaça empregos da classe média e vai trazer uma grande crise global, avaliam os economistas Esther Duflo e Abhijit Banerjee. A saída, dizem, está na melhoria de políticas públicas, sobretudo de transferência social, campo em que apontam o Brasil como pioneiro e líder no debate global. Isso inclui a taxação de grandes fortunas, para enfrentar problemas de forma conjunta, como a crise climática. Medidas: Governo propõe subvenção de R$ 1,20 por litro de diesel importado e quer que estados contribuam com metade do custo Master: Mastercard assume prejuízo milionário após quebra do banco e tenta reaver recursos O casal — ela francesa e ele indiano, ambos com cidadania americana e professores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) — venceu o Prêmio Nobel de Economia de 2019, ao lado de Michael Kremer, por seu trabalho inovador em estratégias para redução da pobreza mundial. Agora, assumem a liderança da Lemann Collaborative, iniciativa acadêmica com sede na Suíça, resultado de parceria entre a Fundação Lemann e a Universidade de Zurique. Para o Brasil, educação e criação de empregos para jovens são pilares do projeto, que vai operar em conjunto com o centro de pesquisa J-PAL, criado por Duflo e Banerjee, no MIT. Eles participam de evento sobre a iniciativa hoje em São Paulo. Existe a proposta de taxar grandes fortunas globalmente para apoiar os mais vulneráveis. Hoje vemos um salto no número de bilionários e aumento da desigualdade. Como políticas públicas podem ser eficazes? Duflo: Essa política específica, a ideia de taxar bilionários, nem exige o tipo de evidência que o J-PAL produz. Basta observar que não só há cada vez mais bilionários, como não estão pagando sua parcela justa de impostos no mundo todo. Bill Gates aponta profissões que devem resistir à IA e alerta para impacto no mercado de trabalho Não estou dizendo que eles deveriam pagar impostos mais altos do que os outros, estou dizendo que, literalmente, pagam menos impostos do que qualquer outra pessoa. A ideia, inclusive defendida pelo Brasil na presidência do G20, é colocá-los em pé de igualdade. Há desafios porque bilionários não querem ser taxados e têm muito dinheiro para lutar contra isso. Por outro lado, se muitos países fizerem isso juntos, torna-se muito mais viável. Não há tantos bilionários, são pouco mais de 3 mil. E é claro onde está o dinheiro deles. A maior parte está no mercado financeiro. Portanto, tecnicamente, não é difícil, desde que exista vontade política. A menos que se tema que mudem de país, o que é pouco provável se muitos países adotarem a medida simultaneamente. Além do desafio de ajudar os mais pobres diante das mudanças climáticas, há crescente turbulência geopolítica e guerras, mais refugiados. Como adaptar políticas públicas? Banerjee: Esses problemas estão profundamente interligados. Não é que um torne mais difícil resolver o outro. Em muitos casos, os refugiados vêm de lugares onde, por causa das mudanças climáticas, a vida se tornou impossível. Se fosse possível oferecer apoio nessas regiões, especialmente nos países que estão na linha de frente das mudanças climáticas, com transferências que permitissem às pessoas permanecerem onde estão, menos gente seria forçada a migrar. Certame: Aena, Zurich e RIOGaleão vão disputar leilão do aeroporto Galeão Muitos desses problemas decorrem da mesma lentidão: de um lado, não conseguimos chegar a um consenso sobre políticas climáticas; de outro, não conseguimos concordar sobre a tributação dos muito ricos, que poderia financiar o apoio para que as pessoas permanecessem em seus territórios. Devemos pensar nesses desafios como problemas que precisam ser enfrentados em conjunto, porque eles se reforçam. Como mitigar os riscos que a tecnologia e a IA trazem? Duflo: As novas tecnologias hoje ameaçam não apenas o mercado informal, mas também as classes médias, especialmente em países de renda média que se beneficiaram da oferta de serviços intelectuais ao mundo. Ainda é cedo para dizer quão grave será o impacto e quem será mais afetado, mas sabemos que será uma grande crise. Esther Duflo e Abhijit Banerjee defendem a criação de programas de proteção social para enfrentar desafios trazidos pela inteligência artificial e a crise climática, incluindo taxação de grandes fortunas Bryce Vickmark/Fundação Lemann/Divulgação Por isso, podemos recorrer às evidências para entender o que funciona: o que deu certo ou não em proteção social, o que ajudou as pessoas a encontrar novos empregos e a fazer a transição para outras ocupações. Já existe boa base de evidências que pode ser utilizada. Esse será um problema tanto em países ricos quanto em países de renda média, será um desafio global. Marketplace: Mercado Livre anuncia R$ 57 bi em investimentos, 10 mil empregos e 14 centros de distribuição Como vai funcionar a nova Lemann Collaborative? Duflo: O objetivo é simples: garantir que as políticas públicas no mundo, e particularmente no Brasil, sejam baseadas em evidências sólidas. Para isso, vamos aproveitar o conjunto de evidências que o J-PAL acumulou em 20 anos para compartilhar com formuladores de políticas públicas e organizações da sociedade civil no Brasil. E criar conexões entre acadêmicos brasileiros e universidades, como a de Zurique. Vamos nos conectar com estudantes, primeiro por meio dos cursos Micromasters, que desenvolvemos ao longo dos anos, uma plataforma on-line na qual as pessoas podem obter uma certificação do MITx (plataforma de cursos on-line do MIT), que já está operando no Brasil, no Insper. E vamos usar essa plataforma para criar novos programas na Universidade de Zurique, acolher estudantes brasileiros e oferecer muitas bolsas de estudo para que eles façam os cursos. Quais seriam os três principais eixos de trabalho? Duflo: Uma grande virtude do nosso trabalho é atuarmos como rede. Nossa missão é facilitar o trabalho dos outros, neste caso, de estudantes, acadêmicos e formuladores de políticas públicas brasileiros. Por isso, não cabe a mim definir prioridades. Ainda assim, alguns temas são importantes para a Fundação Lemann, para o J-PAL e para nós, pessoalmente. Em 1ª atualização Orçamento 2026: Governo faz bloqueio de R$ 1,6 bi em gastos Educação é central, especialmente educação na primeira infância e desigualdade educacional. Outro grande tema é o clima e a conservação, sobretudo a preservação da Amazônia. Um terceiro tema relevante, sobretudo em Belém, onde o J-PAL já trabalhou bastante, é emprego para jovens. Essas já são prioridades em andamento, e tenho certeza de que continuaremos a ver avanços e surpresas positivas quando damos às pessoas os meios para fazer seu trabalho melhor. Que iniciativas do Brasil poderiam ser replicadas globalmente? Banerjee: O Bolsa Família e seus programas correlatos já foram replicados amplamente e tiveram enorme influência no mundo todo. A questão agora é como lidar com dois problemas simultâneos: deslocamentos causados pelo clima e pessoas que não conseguem mais trabalhar ao ar livre ou exercer suas atividades habituais por causa do calor extremo. Como criar programas ampliados de proteção social? O Brasil entrou relativamente cedo nesse campo e investiu mais do que muitos outros países. Ao mesmo tempo, surge a questão de como pensar algo semelhante para a classe média, já que a IA ameaça muitos empregos. Como lidar com isso? O Brasil tem sido um pouco líder na reflexão sobre transferências sociais, e o mundo inteiro precisará enfrentar esse debate. Duflo: Na interseção entre clima e transferências sociais, lançamos na COP30 a discussão sobre o “Pix do Clima”, que prevê transferências automáticas em períodos extremos para indivíduos e repasses automáticos para comunidades mais afetadas pelas mudanças climáticas. Minha esperança é que o Brasil possa liderar a implementação e a experimentação do “Pix do Clima”, unindo inovação climática, a agenda da Amazônia, a COP30 e a longa experiência do país com transferências sociais como o Bolsa Família.
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