Jornal O Globo
O tempo é o grande desafio e o maior trunfo no musical “Espelho mágico”, que celebra os 60 anos da TV Globo. A montagem condensa em pouco mais de duas horas a história da emissora em suas mais diferentes áreas de atuação, como jornalismo, esporte, dramaturgia e entretenimento. Em cena, cerca de 30 atores se revezam para contar essa trajetória com dinamismo, sem preocupação com a cronologia dos acontecimentos. A minissérie “Anos rebeldes”, por exemplo, pode ter uma curiosa conexão com “A grande família”, assim como a vilã Carminha poderia, numa boa, andar lado a lado de uma topetuda Odete Roitman — na versão mais recente de “Vale tudo”, diga-se, vivida nas telas por Debora Bloch. No enredo, o protagonista, Alfredo (Marcos Veras), aparece como um autor tentando adaptar a história da Globo em um musical de teatro. Atormentado com o volume descomunal de cenas, fatos, personagens e trilhas sonoras, ele recebe uma ajuda de Nossa Senhora das Oito, a célebre novelista Janete Clair (vivida por Eliane Giardini), que o guia pelos desafios de um roteiro — no qual, segundo ela, não pode faltar tanto rigor quanto emoção. — Tive a ideia de falar do processo de criação de um autor de teatro. Em cena, chegamos até a brincar com os primórdios da TV, mostramos o que seria um primeiro estúdio. Depois disso, vamos aos personagens das primeiras novelas, da autora Glória Magadan (1920-2001) — afirma o diretor e autor Gustavo Gasparani. A trilha sonora, diz Gasparani, é o fio condutor da história. Em cena, ganham vida faixas como “Brasil”, que marcou a abertura de “Vale tudo” nas versões de 1988 e 2025; “Me chama que eu vou”, de “Rainha da Sucata”; “Superfantástico”, da Turma do Balão Mágico; e “Pavão misterioso”, de “Saramandaia”. Um dos pontos altos acontece quando uma atriz trajada como Xuxa puxa sua versão de “Ilariê”. Para se emocionar Em muitos momentos, a peça repete o formato dos programas de auditório, levando os artistas do palco a se comunicarem com a plateia. O grande Chacrinha (1917-1988), por exemplo, sorri e acena para quem o assiste nas primeiras fileiras. Outra figura curiosa, uma apresentadora criada pelo espetáculo, acumula diversos aspectos de figuras conhecidas da TV como Ana Maria Braga, Serginho Groisman e Faustão. De jeito escrachado, ela leva o público às risadas quando convida o autor (personagem de Veras) para dar uma breve, brevíssima, entrevista. Ou seja, na história, Alfredo acaba interagindo e se deixando transformar pelos personagens que ele mesmo conheceu vendo na TV. E assim a história do canal é contada por meio de atos. Marcos Veras diz que a interação com as figuras eternizadas é fonte de grande emoção para ele, que diz ter sido “criado” na frente da televisão. — Tudo que passa na “tela” do musical me emociona. “A grande família”, eu assisti muito. Ao ver a chamada da abertura do programa do Chico Anysio, me lembrei muito do meu pai, assistíamos juntos em casa — diz. Em São Paulo, o musical está em cartaz no Teatro BTG Pactual Hall, em Santo Amaro, até 3 de maio. Após a temporada paulistana, a montagem chegará ao Rio, no Teatro Riachuelo, em 15 de maio. Quem for conferir a montagem ainda poderá ver, na recepção, itens cenográficos como figurinos originais de novelas como “Vale tudo” e “Tieta” e seriados como “Tapas e beijos”. Além disso, uma nave espacial emprestada pela própria Xuxa também está estacionada no local. — A história da TV Globo se confunde com a história de cada um de nós. É uma grande celebração aos últimos 60 anos da cultura brasileira — afirma Luiz Calainho, sócio da Aventura, à frente da produção da montagem.
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