Jornal O Globo
O homem busca com cuidado: não serve qualquer uma, tem que ser das grandes. A maior, se possível. Cavuca aqui, cutuca ali, procura por lá. É preciso persistir. Confere o formato de uma, sente o peso de outra, calcula o impacto das duas. Finalmente encontra o que queria. Quem precisa do Oscar: como em qualquer arte, a graça não é ganhar, é fazer Nada de pacientes sentados, de secretária entediada e revistas à mesa: o admirável mundo novo da telemedicina Com alguma dificuldade levanta a imensa pedra acima da cabeça, como se fosse a Copa do Mundo. Vitorioso, caminha para a beira do lago e, com um sorriso, arremessa a pedra na água. Tchibum! Ao ouvir o estrondo e ver as ondas se formando, uma alegria ancestral toma conta do homem. Diria, pelo olhar, que ele conseguiu se conectar com o divino. O divino masculino, se é que existe. É um sentimento efêmero: ele logo sai em busca de outra. Se possível, maior que a primeira. Quando vi a cena num vídeo, fiquei espantado: então não sou só eu que acho graça em jogar pedras no lago? Tem mais gente assim por aí? O vídeo prossegue: apresenta a incomparável felicidade de encontrar uma pedra arredondada, no tamanho perfeito para arremessar na água e fazer quicar uma, duas, quem sabe três vezes. Depois vem o arremesso de bolinhas de papel no cesto do escritório. Será que o autor do vídeo me conhece de algum lugar? O algoritmo percebe o momento e dispara dezenas de vídeos do gênero “o que faz um homem feliz”. Pelo jeito, não estou sozinho. Subir em um lugar alto e ficar olhando a paisagem, em silêncio. Pode ser no telhado, em uma montanha, no topo do prédio. Não importa. O que vale é a vista e o silêncio. Outra satisfação que achava que era coisa minha, mas, pelo jeito, é de muitos homens. Chutar um objeto ao longo do caminho. Pode ser uma lata, uma pedra ou uma embalagem velha. Não importa se você demora muito mais porque tem que ficar fazendo zigue-zagues ou desvios. Vale a pena. Mais uma felicidade masculina prêt-à-porter. Em 1979, voltando da escola no último dia de aulas, consegui ir chutando uma pedra desde o alto da Santa Clara até a esquina com a Tonelero. Foi uma epopeia no coração de Copacabana, que envolveu, além de perícia, negociações com transeuntes, porteiros e cachorros. Lembro até hoje da felicidade ao chegar em casa. Uns quatrocentos metros, talvez quinhentos, sem contar os desvios e os zigue-zagues. Esquecer? Jamais. Sou desses. Mais um item nos vídeos sobre a felicidade masculina: ficar sentado entre amigos, com uma bebida na mão, sem falar nada. Se tiver um pôr do sol ao longe ou uma fogueira por perto, está completo. Talvez seja este um dos mais incompreensíveis para as leitoras. Como assim “juntos sem falar nada”? Qual a graça de estar entre amigos e não trocar uma palavra, perguntarão. Pois é, acho que somos assim, meio estranhos. A falta de comunicação verbal pode ser um defeito, mas às vezes é uma bênção. Alguns dirão que esses tais vídeos são fake news, que essas são alegrias prosaicas demais, coisa de gente imatura. Pode ser. Quanto mais velho a gente fica, mais procura as alegrias de menino, que nunca nos abandonam. Podem ficar buzinando no meu ouvido que um carro veloz, uma mansão à beira-mar ou uma poltrona na primeira classe são a única maneira de fazer um homem feliz. Estão perdendo tempo: continuo feliz chutando pedrinhas e, em silêncio, me deslumbrando com fogueiras e o pôr do sol. Foram quinhentos, medi na semana passada. Que dia.
Go to News Site