Jornal O Globo
Depois de anos associando sua imagem a transformações estéticas, Ju Isen decidiu olhar para dentro e nomear um incômodo que, por muito tempo, não se resolvia no espelho. Aos 39 anos, a influenciadora revelou que está em tratamento para transtorno de dismorfia corporal há mais de um ano, condição marcada por uma percepção distorcida da própria aparência. Confira: Influenciador exibe transformação física após perder 40 kg e diz que 'braços de Hulk' o fazem usar camisas sob medida Saiba mais: Influenciadora semelhante a Kylie Jenner revela cirurgia íntima após relação frustrada "Eu fazia um procedimento acreditando que aquilo ia resolver, mas pouco tempo depois já encontrava outro detalhe que me incomodava. Era como se nunca fosse suficiente, mesmo com tantas mudanças", disse. Ao compartilhar a experiência, ela também trouxe números que ajudam a dimensionar esse percurso: cerca de R$ 500 mil investidos em mais de 50 procedimentos estéticos. Ainda assim, a satisfação nunca parecia chegar. "Mesmo depois de tantos procedimentos, eu ainda não me enxergava como as pessoas me viam. Sempre parecia que tinha algo errado, algo que precisava ser corrigido. Hoje eu entendo que não era sobre o que eu via no espelho, mas sobre como eu interpretava aquilo. É um processo que ainda estou vivendo. Eu continuo me cuidando, mas com outra consciência. Não é mais aquela busca constante por mudar tudo o tempo todo", afirmou. Ju Isen revela diagnóstico de dismorfia corporal após gastar R$ 500 mil em procedimentos Reprodução Instagram O relato reflete um fenômeno cada vez mais frequente nos consultórios: a dificuldade de reconhecer a própria imagem de forma realista. "O fenômeno de distorção de imagem, também conhecido como transtorno dismórfico corporal, é uma condição que faz com que as pessoas tenham um foco obsessivo em características que consideram inadequadas para sua aparência. Dessa forma, elas perdem a capacidade de reconhecer de forma realista a beleza do seu corpo. Essa é uma doença tão comum e que acontece com tanta frequência que mais de 4 milhões de pessoas na faixa etária de 15 a 30 anos apresentam esse transtorno no Brasil", explica a cirurgiã plástica Heloise Manfrim, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). Entre os comportamentos associados ao quadro está o chamado body checking, uma checagem constante do corpo, que pode envolver espelhos, balança, roupas antigas ou comparações frequentes com outras pessoas, especialmente nas redes sociais. "O paciente checa seu corpo com fita métrica, balança, roupas antigas e espelho, diversas vezes ao dia. Existe também a comparação com outras pessoas nas redes sociais. Todos estes comportamentos estão associados a superavaliação do corpo, do peso, da alimentação", detalha a cirurgiã plástica Beatriz Lassance, também membro da SBCP. Em muitos casos, essa distorção está ligada a transtornos alimentares, como bulimia e anorexia nervosa. "No caso da bulimia nervosa, a pessoa tem episódios de compulsões alimentares, seguidas de métodos compensatórios inadequados como vômitos induzidos, uso de laxantes ou diuréticos e prática de exercícios em excesso, para evitar o ganho de peso. Os portadores de anorexia nervosa se caracterizam pela recusa em manter um peso mínimo esperado para a idade e a altura através da restrição do comportamento alimentar, pelo temor excessivo em ganhar peso, e pela distorção da percepção da imagem corporal", afirma a médica nutróloga Marcella Garcez, diretora e professora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN). "Essas são patologias que necessitam de atendimento médico, com acompanhamento multidisciplinar. Se a pessoa identificar que não consegue se controlar e que os episódios estão muito frequentes, deve procurar atendimento", orienta. A pressão por padrões estéticos é outro fator que ajuda a explicar o aumento desses casos. "Acredito que as redes sociais e o uso de filtro às vezes geram uma busca por algo irreal, então as pessoas ficam obcecadas por parecerem outra pessoa, terem outra característica, o que causa uma distorção de imagem. Com muito filtro, as pessoas tornam-se até irreconhecíveis", observa o cirurgião plástico Paolo Rubez. Ju Isen abre o jogo sobre distorção de imagem após gastar R$ 500 mil em estética Reprodução Instagram Embora qualquer parte do corpo possa se tornar foco de insatisfação, pele, cabelo, nariz e formato corporal estão entre os pontos mais frequentemente observados. Para além do diagnóstico, especialistas reforçam a importância de ampliar o olhar sobre cuidado e bem-estar. "Além da indicação do tratamento psiquiátrico, o cirurgião plástico deve recomendar sempre a todas essas pacientes que substituam essas horas de tela do celular por mais tempo de qualidade, para as pessoas com que elas convivem e amam. Sempre que possível pensar nisso, praticar atividade física, cuidar do seu corpo, cuidar da sua saúde mental, porque esses padrões simplesmente não devem existir", acrescenta a Dra. Heloise. "É um tema complexo e, na verdade, ainda é um grande desafio mostrar para cada paciente que é necessário que ele acolha cada mudança do seu corpo; e que às vezes o mais correto é investir na saúde do corpo e da mente. Não é um trabalho fácil, mas nós sempre precisamos estar ao lado dessas pessoas para orientar, acolher e acompanhar", completa. Nesse cenário, a insatisfação com o próprio corpo pode até funcionar como ponto de partida para mudanças positivas, desde que não se transforme em obsessão. "Até o exercício físico pode passar de uma forma de autocuidado e melhora da saúde para bodychecking contínuo de partes isoladas do corpo", comenta a Dra. Beatriz. Para romper esse ciclo, o caminho passa por estratégias de reconexão consigo mesma. "Tratar-se com amor, mesmo à frente do espelho. Você falaria desta forma com alguma amiga? E por que fala assim com você mesma? Aprender a identificar estes momentos e mudar a forma com que você fala com você mesmo é importante. Também é fundamental melhorar o ambiente com gatilhos para o bodychecking. Retirar a balança de casa, sumir com as fitas métricas, alguns psicólogos sugerem o exercício de cobrir espelhos. Saber analisar com crítica as imagens das mídias sociais é importante. Aprender a desconfiar sempre do que está vendo, pode ser a pose em que a foto foi tirada, photoshop, filtro, até a luz da exposição pode favorecer a foto. Medidas de autocuidado podem desviar a atenção do corpo e bodychecking. Agradar-se como um passeio ao ar livre, café com alguma amiga, um bom livro, artesanato, fazer coisas que deem prazer e aproveitar o momento, prestando atenção, ajudam. São conceitos de mindfullness que dão feedback a nós mesmos de sensações e não somente de corpo", orienta a médica. Sobre intervenções estéticas, os especialistas ressaltam que o desejo de mudança não é um problema em si, desde que esteja alinhado à saúde física e emocional. "No entanto, precisamos sempre entender que o principal foco é a nossa saúde e nós devemos ao máximo deixar de viver como refém da aprovação do outro", pontua a Dra. Heloise. Já o Dr. Paolo enfatiza a importância de alinhar expectativas: "Como a percepção estética está mais apurada, pelas próprias informações técnicas que encontram nas mídias sociais, as pessoas se tornaram mais exigentes com relação aos resultados. Por isso, é muito importante trabalhar bem as expectativas de cada paciente para que não haja frustrações caso o tratamento não atinja o desejo do paciente". Por fim, a atenção dos profissionais também é peça-chave nesse processo. "Melhorar as habilidades de comunicação com técnicas e perguntas de entrevista estruturada é valioso ao lidar com pacientes que procuram cirurgia estética, especialmente se houver suspeita de problemas psiquiátricos subjacentes", declara a Dra. Heloise.
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