Jornal O Globo
Devair Alves Ferreira tinha um ferro-velho em Goiânia. Ele vivia de comprar e vender equipamentos e peças de metal obsoletos. Em setembro de 1987, os catadores de sucata Roberto dos Santos Alves e Wagner Pereira venderam para ele uma cápsula de chumbo de 100kg que os dois tinham furtado do prédio abandonado onde havia funcionado o Instituto de Radiologia de Goiânia. No ferro-velho, a peça foi aberta e, dentro dela, Devair e dois funcionários acharam um pó azulado que brilhava no escuro. Eles não sabiam, mas estavam diante de 19,26g de Césio 137, material altamente radioativo. Césio 137: O que houve com as vítimas da tragédia em Goiânia Série da Netflix: Quem foi o físico que inspirou personagem de Massaro Estava começando, então, a maior tragédia nuclear da história do Brasil, que apavorou a capital de Goiás e marcou o país no fim dos anos 1980. Quase quatro décadas depois, o acidente é resgatado pela série "Emergência Radioativa", em cartaz na Netflix, dirigida por Fernando Coimbra, com Johnny Massaro, Ana costa e Paulo Gorgulho nos papéis principais. Instagram: Siga nosso perfil, com fotos de cem anos de jornalismo Devair é representado na série pelo personagem Evenildo, vivido por Bukassa Kabengele. Sem noção do perigo que corria, o dono do ferro-velho ficou encantado com o brilho do material levou para sua casa, onde mostrou para sua mulher, Maria Gabriela, representada na série por Antônia (Ana Costa). Na residência do casal, outros parentes tiveram contato com o pó azulado. Entre eles, estava Ivo Ferreira, irmão de Devair, que, igualmente fascinado com a substância, levou um pouco para sua própria casa, onde sua filha, Leide das Neves, de 7 anos, brincou com o material radioativo. Césio 137. A pequena Leide das Neves no leito do hospital, no Rio José Doval/Agência O GLOBO Dias depois, essas e várias outras pessoas que tiveram contato com o Césio 137 começaram a ficar doentes, com náuseas, dores de cabeça, intensa perda de cabelo e ferimentos horríveis na pele. Todos acabaram internados. Nas semanas seguintes, quatro morreram. A pequena Leide foi a paciente com o mais alto índice de contaminação e faleceu com infecção generalizada e danos em vários órgãos. Já a mulher de Devair, Maria Gabriela, morreu cerca de um mês após a exposição. Funcionários do ferro-velho, Israel Baptista e Admilson Alves, de 22 e 18 anos, foram a óbito dias depois dela. Gerson Brenner: O assalto que acabou com a carreira do ator no auge, em 1998 O Plano Cruzado: Combate à hiperinflação e a revolta do Big Bob no Centro do Rio O material radioativo contaminou diferentes locais de Goiânia. Um monitoramento realizado pelo governo detectou diferentes níveis de radiação em 249 pessoas. O medo se espalhou pela cidade. Dezenas de pessoas tentaram impedir o enterro de Leide e Maria Gabriela, temendo que os corpos contaminassem o solo. Somente após muita confusão, a menina e a tia foram enterradas. Como os caixões de concreto revestidos com chumbo pesavam cerca de 600kg, foi necessário um guindaste para colocá-los nas covas. Lourdes, a mãe da menina, mal teve tempo de se despedir da filha. Devair e Ivo, que de forma ingênua levaram o césio para suas casas, foram salvos. Mas o sofrimento de ver seus entes queridos perdendo a vida de forma lenta e dolorosa por causa do material deixou os dois irmãos arrasados. Nos anos seguintes, eles lideram com o luto e outras sequelas. De acordo com uma reportagem do GLOBO no dia 24 de outubro de 1993, seis anos depois da tragédia, eles estavam morando em uma vila a 25km de Goiânia, não tinham condições de trabalhar e sobreviviam com suas famílias graças a uma pensão do governo estadual que, segundo as vítimas, era insuficiente. Técnicos que trabalharam na descontaminação por Césio 137 em Goiânia Gilberto Alves / Agência O Globo Os sobreviventes tiveram que lidar com preconceito. Numa entrevista à BBC, em 2011, Odesson Alves Ferreira, irmão de Ivo e Deavir, também contaminado pelo césio, contou que, mesmo após receberem alta, as crianças da família sofriam bullying na escola. Os colegas de trabalho o evitavam e vizinhos quiseram até apedrejar a casa dele. "Minha mulher começou a ter distúrbios nervosos, apareceram caroços no rosto e na cabeça. As pessoas corriam dela na rua, ela entrava no ônibus e saíam pela outra porta", contou o sobrevivente, que se tornou líder da Associação das Vítimas do Césio 137. Mamonas Assassinas: Como foi a tragédia que matou os integrantes da banda A revolta do beijo em Sorocaba: Um protesto contra juiz que proibiu beijo na ditadura Muitos sobreviventes carregaram sequelas pelo resto da vida, como depressão e fadiga constante. Na reportagem de 1993, Devair contou ao GLOBO que se sentia fraco e debilitado demais para trabalhar. Ele tinha se tornado alcóolatra e morreu em 1994, de cirrose hepática, mas, segundo Odesson naquela entrevista à BBC, o laudo cadavérico mostrou que ele tinha câncer em três órgãos. Seu irmão Ivo também carregou sequelas físicas durante anos e se tornou um fumante compulsivo, chegando a fumar seis maços de cigarro por dia. Acabou falecendo em 2003, vítima de enfisema pulmonar. “Devair queria morrer, a gente tentava tirar ele do vício, internamos ele algumas vezes, mas ele não queria ficar e não ficava mesmo", contou Odesson em entrevista ao site Sagres On Line, de Goiás. Tumulto no enterro de Leide das Neves Ferreira, vítima do Césio 137, em 26 de outubro de 1987 Sergio Marques / Agência O Globo
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