Jornal O Globo
Circula nas redes sociais algumas publicações que alertam para evitar aplicar perfume diretamente no pescoço, sob a justificativa de que a região, por estar próxima à tireoide e ter pele mais fina e vascularizada, facilitaria a absorção de substâncias químicas capazes de interferir no equilíbrio hormonal. A mensagem vem sendo compartilhada como um alerta de saúde, levando usuários a repensar hábitos cotidianos. É #FAKE! É #FAKE que BYD contratou 10 mil chineses para formar ‘cidade’ na Bahia É #FAKE: Jeffrey Epstein foi visto dirigindo carro na Flórida? O conteúdo sugere que a exposição frequente a fragrâncias nessa área específica do corpo poderia afetar a produção hormonal, especialmente em pessoas mais sensíveis. Mas a alegação não encontra respaldo em evidências científicas e simplifica de forma incorreta como ocorre a absorção de substâncias pelo organismo. Como é o post? A matéria viral aparece em formato de imagem com texto explicativo, recomendando que o perfume não seja aplicado no pescoço. Em uma das publicações, compartilhadas pelo médico de medicina integrativa, José Nasser, o conteúdo sugere que essa área do corpo aumentaria a absorção de compostos químicos presentes nas fragrâncias, elevando o risco de alterações hormonais. É #FAKE que usar perfume no pescoço cause problemas hormonais Captura de tela/Instagram Nos comentários, usuários demonstram preocupação e dizem ter mudado hábitos: “Sempre tive esse receio e não passava com medo de afetar a tireoide” “Parei agora” “Ainda bem que acabei de aprender” A mensagem reforça a ideia de um risco específico ligado à região do pescoço, o que não encontra respaldo científico. Procurado pelo GLOBO, o médico ainda não esclareceu as bases científicas de sua afirmação. Por que é falso? Não há evidência científica de que aplicar perfume no pescoço cause alterações na tireoide. Ao GLOBO, a endocrinologista Caroline Serrano, diretora do Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), explicou que a afirmação não se sustenta: — Não existe nenhuma evidência robusta de que aplicar perfume no pescoço cause alteração na função da tireoide. A especialista explica que, embora perfumes possam conter substâncias classificadas como desreguladores endócrinos, isso não significa que seu uso leve a doenças hormonais: — A gente sabe que perfumes têm compostos que podem ser considerados desreguladores endócrinos, como parabenos e ftalatos. Mas não existe nenhum estudo de causa e efeito mostrando que isso provoque disfunção da tireoide. Outro ponto central é que a lógica do post está equivocada ao sugerir que o local de aplicação faria diferença: — Independentemente de ser aplicado no pescoço, no pulso ou em outra região, a absorção é pela pele. Se essas substâncias penetrarem, elas entram na circulação e podem agir em diferentes tecidos. Ou seja, evitar o pescoço não reduz risco, até porque esse risco não foi comprovado. O que há de verdade? É correto afirmar que existem substâncias com potencial de interferir no sistema endócrino em diversos produtos do dia a dia, incluindo cosméticos. No entanto, a própria ciência ainda não estabeleceu claramente como isso ocorre em humanos em condições reais de exposição. — Os desreguladores endócrinos já foram demonstrados como capazes de interferir na função hormonal, mas principalmente em estudos in vitro ou em modelos animais. Em humanos, ainda são poucos os estudos e não existe uma relação direta de causa e efeito bem estabelecida, especialmente no caso da tireoide — afirmou Caroline. A especialista também destaca que a exposição a esses compostos é ampla: — A gente está exposto a desreguladores endócrinos de várias fontes: plásticos, alimentos, pesticidas, outros cosméticos. Não é algo específico do perfume. O que realmente afeta a tireoide? Os fatores de risco conhecidos para alterações na tireoide são outros, bem estabelecidos pela medicina. Carolina destaca — Os principais fatores são exposição à radiação, excesso ou deficiência de iodo, doenças autoimunes e alguns medicamentos. Existem também alguns contaminantes específicos, como o perclorato, mas isso está relacionado, por exemplo, à água contaminada, não ao uso de perfume. A publicação viral parte de um conceito real: a existência de substâncias com potencial ação hormonal, mas tira uma conclusão incorreta. — Não existe nenhum estudo robusto na ciência que mostre que passar perfume cause disfunção da tireoide — concluiu Caroline. Portanto, a afirmação de que aplicar perfume no pescoço faz mal à tireoide é falsa.
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