Vice-governador do Maranhão acusa uso político do MP e diz ser alvo de ‘monitoramento ilegal’ em meio a disputa eleitoral
Jornal O Globo

Vice-governador do Maranhão acusa uso político do MP e diz ser alvo de ‘monitoramento ilegal’ em meio a disputa eleitoral

O vice-governador do Maranhão, Felipe Camarão (PT), afirmou ser alvo de uma “campanha jurídico-midiática” e acusou o governador Carlos Brandão (sem partido) de usar a estrutura do Estado e o comando do Ministério Público para persegui-lo politicamente. A declaração ocorre após o procurador-geral de Justiça, Danilo José de Castro Ferreira, pedir seu afastamento do cargo sob suspeita de envolvimento em um esquema de movimentações financeiras atípicas. Em nota, Camarão diz que há “monitoramento ilegal” de sua vida pessoal e de sua família, além de acusações que classifica como “infundadas” e baseadas em “ilações”. Segundo ele, o procedimento teria sido impulsionado por interesses eleitorais de Brandão, com quem rompeu politicamente no fim de 2025. Pernambuco: Erika Hilton cobra Raquel Lyra após uso de fotos de deputadas em álbum de suspeitos Bolsonaro: Médico diz que ex-presidente tem 'significativa melhora' e deve ter alta na sexta-feira “O governador manipula as instituições do Estado do Maranhão para atingir seus adversários”, afirmou o vice, acrescentando que o pedido de afastamento tem “timing perfeito” para favorecer uma eventual candidatura de Brandão ao Senado, ao lado do sobrinho, Orleans Brandão (MDB). Procurado, o governo do Maranhão afirmou que a "medida é conduzida exclusivamente pelo Ministério Público do Estado do Maranhão, órgão dotado de independência funcional e autonomia em relação ao Poder Executivo Estadual", e afirmou que "com preocupação", o governo tomou conhecimento do pedido de afastamento de Camarão através da mídia. "As ações e os pedidos de afastamento conduzidos pelo Ministério Público do Estado do Maranhão (MP-MA) ocorrem no estrito âmbito das atribuições constitucionais daquele órgão, que goza de plena independência funcional e autonomia em relação ao Poder Executivo Estadual. Conforme é de conhecimento público, as investigações em curso baseiam-se em documentos obtidos por órgãos independentes ao Poder Executivo. O governador do estado não possui qualquer ingerência, domínio ou participação nas investigações conduzidas pelo Ministério Público ou pelos referidos órgãos de controle. Sendo assim, o Governo do Estado repudia de forma veemente qualquer tentativa de politização do caso ou ilações infundadas", comunicou o governo do estado, em nota. A manifestação de Camarão é uma resposta direta à ofensiva do Ministério Público estadual. Como mostrou reportagem do GLOBO, o procurador-geral apontou indícios de que o vice-governador teria se beneficiado de uma suposta “rede de laranjas” para movimentar ao menos R$ 6,3 milhões, além da aquisição de imóveis de alto padrão em São Luís. O pedido de afastamento foi encaminhado ao Tribunal de Justiça do Maranhão. Camarão nega irregularidades e afirma que os valores mencionados são legais e devidamente declarados, inclusive no Imposto de Renda. Ele também questiona a origem das informações e sustenta que o processo se baseia em “prova ilegal”, sem aprofundamento investigativo. O vice-governador afirma ainda que não foi formalmente notificado ou ouvido no âmbito do procedimento. “Em nenhum momento fui citado, intimado ou tive direito a me manifestar”, disse, acrescentando que confia na reversão do caso no Judiciário. Outro ponto levantado por Camarão é o vazamento de informações sigilosas da investigação. Segundo ele, houve divulgação ilegal do conteúdo do processo, o que motivou medidas judiciais. O vice informou que acionou o Tribunal de Justiça do Maranhão para apurar responsabilidades pelo vazamento e que pretende levar o caso ao Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). A crise se insere em um cenário de disputa política no estado. De um lado, o grupo ligado a Carlos Brandão; de outro, aliados do ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, de quem Camarão é próximo. As duas alas disputam o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a eleição estadual de 2026. O racha se intensificou após Brandão lançar a pré-candidatura do sobrinho ao governo, movimento visto por aliados de Camarão como quebra de acordos políticos firmados anteriormente. O vice, que também é pré-candidato ao Palácio dos Leões, tem elevado o tom das críticas e fala em uso da máquina pública para interferir no processo eleitoral. Procurado, o Ministério Público estadual não respondeu até a publicação desta reportagem. Disputa política O pedido de afastamento vem em meio aos atritos políticos entre a ala vinculada ao governador e ao ministro do STF Flávio Dino, ex-chefe do Executivo maranhense. Ligado ao magistrado, Camarão atuou no secretariado nos dois mandatos em que Dino comandou o governo. Os dois grupos disputam o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na corrida ao Executivo estadual. Este mês, Carlos Brandão se antecipou à definição da chancela petista e lançou a pré-candidatura ao governo do sobrinho Orleans Brandão (MDB), de quem deseja alavancar a imagem como seu sucessor. Foi um novo ponto de tensão com aliados de Dino, cujos apoiadores buscam consolidar a candidatura de Felipe Camarão. Pelas redes sociais, este mês, Camarão publicou imagens de Brandão num ato político do passado para rebater as alegações do governador de que nunca houve acordo pela sua candidatura. O vice afirmou que o chefe do Executivo maranhense desrespeitou um acordo com o PT Nacional. "Só vencemos por causa de Lula/PT (garantido por eu ser o vice) e pela força/popularidade de Flávio Dino. Ocorre que será DESCUMPRIDO por razões familiares, por causa do programa segundo emprego para o sobrinho e pela traição ao povo do Maranhão. Da minha parte, só posso pedir desculpas por ter ajudado a eleger a neo oligarquia e dizer ao povo: SERÃO DERROTADOS EM OUTUBRO!", escreveu Camarão, em postagem no Instagram. A ruptura ganhou força após o vazamento de gravações de conversas nas quais aliados de Dino cobravam do grupo de Brandão o cumprimento de acordos firmados durante a eleição de 2024. Como mostrou O GLOBO, o diretório estadual do PT afirma que uma decisão sobre o nome da sigla na corrida pelo Palácio dos Leões será de Lula, mas admite que o cenário preferencial seria uma candidatura de terceira via, que unisse as alas rompidas. A coluna de Lauro Jardim reportou, ainda, que PT e o PSD discutem uma aliança no Maranhão que pode fortalece a candidatura do prefeito de São Luís, Eduardo Braide (PSD), ao governo do estado. As conversas envolvem dirigentes nacionais do partido e podem ter uma definição até o final do mês, segundo interlocutores das legendas. A nominata que vem sendo desenhada envolve Eliziane Gama (PSD) e Felipe Camarão numa possível chapa ao Senado.

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