Jornal O Globo
A inteligência artificial começa a ocupar um papel mais estrutural nas operações das empresas brasileiras. Depois de um primeiro ciclo marcado por testes, assistentes conversacionais e iniciativas pontuais, o mercado passa a olhar com mais atenção para os chamados agentes autônomos de IA, sistemas capazes de interpretar contexto, executar tarefas de ponta a ponta e operar processos com menor dependência de intervenção humana. No Brasil, esse movimento encontra um ambiente mais maduro: pesquisa da Deloitte mostra que oito em cada dez empresas já usam ao menos uma aplicação de IA ou GenAI, enquanto 87% pretendem manter ou ampliar investimentos em cloud, infraestrutura que tende a acelerar esse avanço. No cenário global, os sinais também apontam para consolidação. A Gartner estima que mais de 80% das empresas terão usado APIs, modelos ou aplicações de IA generativa até 2026, ante menos de 5% em 2023. Já a McKinsey aponta que 88% das organizações pesquisadas já usam IA em ao menos uma função de negócio, mas ainda de forma desigual: 62% dizem estar ao menos experimentando agentes de IA, e 23% afirmam já escalar esse tipo de sistema em alguma frente de operação. A mudança mais relevante está menos na interface e mais no desenho operacional. Diferentemente dos chatbots tradicionais, voltados a respostas pontuais, os agentes autônomos conseguem planejar etapas, priorizar ações, recuperar contexto e executar fluxos mais completos em áreas como qualificação comercial, cobrança, reativação de base, agendamento e suporte. Em um ambiente de pressão por eficiência, margem e tempo de resposta, a discussão deixa de ser apenas sobre automação e passa a envolver coordenação de processos. “Durante muito tempo, empresas tentaram resolver problemas isolados com tecnologia, mas o verdadeiro gargalo sempre esteve nos processos como um todo. A nova geração de agentes autônomos muda isso ao integrar execução, decisão e aprendizado em um único sistema”, afirma Yuri Gomes, empreendedor do ecossistema mineiro e fundador da ProcessLab. A leitura de Yuri parte de uma experiência prática em operações comerciais, marketing e automação. Após vender a ProcessLab Corp. no fim de 2025, ele reinvestiu parte relevante do capital em seis empresas de diferentes verticais, ampliando a tese de agentes autônomos para setores com rotinas intensivas em atendimento, recorrência e fricção operacional. Hoje, esse portfólio reúne frentes como AiPharma, no varejo farmacêutico, IAFit, voltada ao mercado fitness, NEA, na formação de engenheiros de IA e agentes, Visto, focada em lojas que vendem pelo WhatsApp, ViO10, em mobilidade, e SkinnIA, direcionada a clínicas de beleza e salões. Yuri Gomes Arquivo pessoal “Passei anos dentro de operação comercial e marketing e vi a mesma guerra acontecer sempre: vendas culpando o lead e tráfego culpando o atendimento. O problema nunca foi um lado só, era o sistema entre os dois. Agentes autônomos resolvem isso porque executam tarefas complexas com consistência e padrão, independentemente do volume e do horário”, diz. A tese encontra ressonância em um ponto central da adoção corporativa de IA: o mercado já entende o potencial da tecnologia, mas ainda enfrenta dificuldade para transformá-la em mudança estrutural. Segundo a Deloitte, apenas 34% das organizações pesquisadas estão começando a usar IA para promover transformações mais profundas, como criação de novos produtos, serviços ou reinvenção de processos essenciais. Outros 30% redesenham processos-chave com base em IA, enquanto 37% ainda a utilizam de forma mais superficial. Esse recorte ajuda a explicar por que os agentes autônomos passaram a chamar atenção em setores tão diferentes. Em mercados nos quais a operação depende de velocidade de resposta, continuidade de atendimento e personalização em escala, como farmácia, fitness, varejo conversacional, mobilidade e estética, o ganho potencial não está apenas em reduzir custos, mas em reorganizar a forma como a empresa executa trabalho. Nesse contexto, a IA deixa de funcionar como ferramenta acessória e passa a ser incorporada à engrenagem do negócio. O avanço, no entanto, não elimina a necessidade de critério. A própria McKinsey mostra que a maior parte das empresas ainda está na fase de experimento ou piloto, e a Deloitte reforça que governança, maturidade digital e infraestrutura seguem como pré-requisitos para escalar o uso de IA com segurança e consistência. Para o mercado brasileiro, o movimento sinaliza uma transição importante. Se no ciclo anterior a adoção de IA ainda era vista como diferencial tecnológico, a tendência agora é que agentes autônomos passem a ser avaliados como componente operacional. Em vez de apenas responder perguntas, eles começam a assumir fluxos, encurtar tempos de decisão e redistribuir a lógica de execução dentro das empresas. Para negócios que operam sob pressão comercial e alta exigência de atendimento, essa mudança tende a pesar cada vez mais na competitividade.
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