Falta de segurança afetou o transporte de alunos de 95% das escolas públicas, revela pesquisa
Jornal O Globo

Falta de segurança afetou o transporte de alunos de 95% das escolas públicas, revela pesquisa

As imagens são conhecidas e se repetem no Rio com frequência inaceitável: crianças e adolescentes agachados em corredores e salas de aula, amparados por professores e outros funcionários de escolas públicas, enquanto tiros — que não raro deixam marcas em paredes e muros das unidades — são ouvidos. Essa é apenas a face mais conhecida e dramática das muitas formas como a rotina de violência afeta estudantes cariocas. A simples tarefa de ir à escola e voltar para casa tem sido atravessada pela lógica de confronto. Fraudes em licitações e contratos militares: polícia prende coronel do Exército na Barra da Tijuca por participação em esquema que desviou R$ 11 milhões Truculência: vídeo mostra PM agredindo jovens em escola estadual no Largo do Machado; agente foi afastado das ruas Essa realidade é revelada no estudo “Percursos interrompidos: efeitos da violência armada na mobilidade de crianças e adolescentes no Rio de Janeiro”, elaborado em parceria pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o Instituto Fogo Cruzado e o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni-UFF). O levantamento, tornado público hoje, analisou dados de janeiro de 2023 a julho do ano passado e chegou à conclusão de que cerca de 190 mil estudantes tiveram o trajeto para a escola afetado por bloqueios, tiroteios, instalação de barricadas, guerra entre facções e operações policiais que levam à alteração de horários e rotas nos serviços de ônibus, BRT, trens e metrô. O impacto da violência por bairro Editoria de Arte Foram registradas no período 2.228 interrupções no transporte público na cidade causadas direta ou indiretamente por episódios de violência armada. Os pesquisadores mostram ainda que cerca de 95% das escolas da cidade registraram ao menos um episódio de interrupção do transporte público em seu entorno no período. Mãe de Henry Borel: Monique Medeiros é demitida do cargo de professora do município do Rio — Os números são estarrecedores. São 95% das escolas impactadas em dois anos e meio. E há um ponto importante: não há um pico isolado puxando esses dados. Eles estão distribuídos ao longo do tempo, o que mostra uma rotina de violência que afeta o trajeto de crianças e adolescentes até a escola — diz Maria Isabel Couto, diretora de Dados e Transparência do Instituto Fogo Cruzado. 2.228 interrupções Na tarde de ontem, a técnica de enfermagem Rosimeire da Silva Profeta, de 37 anos, aguardava o ônibus com os dois filhos, alunos do Ginásio Educacional Olímpico Reverendo Martin Luther King, na Praça da Bandeira. O ponto fica na Avenida Paulo de Frontin, via onde, na semana passada, um ônibus foi incendiado por criminosos em resposta a uma operação policial no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, que resultou em oito mortes. Naquele dia, as crianças, claro, tiveram que faltar à aula. — Não conseguimos vir. E não foi a primeira vez. No ano passado, aconteceu duas vezes — disse Rosimeire. Não muito longe dali, na Praça Condessa Paulo de Frontin, um grupo de jovens uniformizados, alunos da Escola Municipal Pereira Passos, aguardava na fila para embarcar no coletivo. Todos relataram problemas para ir à aula na quarta-feira passada. Para um deles, a rotina é ainda mais afetada: morador do Jacarezinho, na Zona Norte, o rapaz enfrenta dificuldade para se deslocar entre a casa e a escola sempre que há confrontos no local. Agostina Páez: 'Eu errei', diz argentina acusada de racismo no Rio; advogados aguardam despacho de juiz para que ela possa cumprir pena em seu país — É muito difícil. Quando tem operação, é horrível para sair de lá. Tem vez que a gente perde o dia de aula, tem vez que chega atrasado e não consegue entrar — diz o adolescente de 15 anos, aluno do 1º ano do ensino médio. Das 2.228 interrupções registradas, 786 ocorreram em 2023, 852 em 2024 e 590 até julho de 2025. Entre os casos registrados em horário escolar, a principal causa foi a instalação de barricadas nas vias (32,4%), seguida por operações policiais (22,7%), manifestações (12,9%), ações criminosas (9,6%) e registros de tiros ou tiroteios (7,2%). Quinze anos de obras: governo do Rio anuncia adiamento da abertura parcial do novo MIS, na orla de Copacabana — A pesquisa é centrada no acesso à escola e considera apenas os dias letivos. Trabalhamos com um raio de 250 metros em relação às escolas e também com os trajetos percorridos pelos estudantes. Ainda que haja concentração em alguns territórios específicos, é um fenômeno disseminado — diz Carolina Grillo, coordenadora do Geni/UFF. — É importante salientar que as escolas de muito alto risco de interrupções são justamente as escolas em que os alunos matriculados são de maioria negra. Foram identificadas 120 escolas com risco de serem afetadas por interrupções do transporte por conta da violência considerado elevado. A maior parte fica nas zonas Norte (71) e Oeste (48). No ranking de bairros mais atingidos pelo problema, os três primeiros são Penha (296), Jacarepaguá (108) e Bangu (89), áreas onde há registros recorrentes de confrontos entre grupos criminosos, incluindo tráfico e milícia, além de frequentes operações policiais. Carnaval 2027: Mangueira vai celebrar Oyá, divindade do candomblé conhecida como a senhora dos ventos e das tempestades — Quando a violência armada impacta mais regiões que já são vulneráveis, como Penha e Bangu, e impede o acesso das crianças à escola nesses locais, isso aprofunda a desigualdade — diz Flavia Antunes Michaud, chefe do escritório do Unicef no Rio. — Em estudos anteriores, já mostramos que crianças e adolescentes expostos à violência armada crônica se evadem mais e têm desempenho escolar pior. Agora, estamos trazendo uma camada adicional: não basta ter escola, uniforme e merenda, é preciso garantir que a criança consiga chegar à escola. Propostas sugeridas De acordo com a Secretaria municipal de Educação (SME), entre fevereiro e dezembro do ano passado 590 escolas foram fechadas pelo menos uma vez por causa de operações policiais e confrontos. Em 2024, foram 473 unidades. A pasta mantém convênio com a Cruz Vermelha para “mitigar riscos, orientar a comunidade escolar e garantir protocolos eficazes para minimizar o impacto da violência armada no ambiente escolar”. O sindicato das empresas de ônibus (Rio Ônibus) informou que, só este ano, 387 veículos foram alvo de vandalismo, um foi incendiado, 191 tiveram suas rotas desviadas e 39 foram utilizados como barricadas. Entre agosto e dezembro de 2025 — período também não contemplado no estudo — 1.187 coletivos foram vandalizados, quatro incendiados, 457 desviados e 171 usados em bloqueios. No campo das propostas, o estudo aponta caminhos como a integração do monitoramento de incidentes e dados operacionais em tempo real; a criação de planos com rotas alternativas e garantia de proteção aos alunos; a coordenação permanente entre os sistemas de transportes, segurança e políticas sociais, entre outros. — A pesquisa mostra que não dá para tapar o sol com a peneira. O impacto é grande, persistente e disseminado. Isso precisa ser levado em consideração por gestores da segurança, da educação e do transporte. Resolver o problema estrutural é algo de longo prazo, mas é possível pensar em medidas para reduzir danos no curto prazo — avalia Maria Isabel Couto. Initial plugin text

Go to News Site