Análise: Sem a 'derrota decisiva' esperada por Trump, Irã se vê mais empoderado do que antes da guerra
Jornal O Globo

Análise: Sem a 'derrota decisiva' esperada por Trump, Irã se vê mais empoderado do que antes da guerra

O presidente dos EUA, Donald Trump, tem deixado nas entrelinhas (e por vezes explicitamente) sua impaciência com os rumos da guerra que decidiu lançar há quase um mês contra o Irã. Na semana passada, disse que os objetivos militares estavam perto de serem concluídos. No sábado, ameaçou atacar instalações energéticas iranianas caso o Estreito de Ormuz siga fechado, mas depois mudou de ideia. Na terça-feira, enviou uma proposta de paz a Teerã, afirmou que estava dialogando com o regime e declarou que venceu o conflito. Mas parafraseando uma velha expressão do ludopédio nacional, "faltou combinar com os iranianos". Afirma TV estatal: Irã rejeita plano de 15 pontos de Trump e faz novas exigências para encerrar a guerra Irã ameaça minar 'rotas de acesso ao Golfo Pérsico: Conheça armas que podem travar o tráfego marítimo e afetar economia global Nos últimos 26 dias, o Irã sofreu quase 10 mil ataques dos EUA e Israel, com estragos difíceis de estimar em suas capacidades militares, estruturas civis, instalações de petróleo e gás — com o risco de um desastre sanitário e ambiental — e perdeu dezenas de membros dos altos escalões. O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo, morreu no primeiro dia de ataques, assim como comandantes das Forças Armadas e Guarda Revolucionária. No círculo próximo de Trump, a expectativa era de que o regime capitulasse rapidamente, repetindo o que ocorreu na Venezuela em janeiro, quando o presidente, Nicolás Maduro, foi preso e o chavismo passou a seguir a cartilha dos EUA. Uma imagem mostra uma vista da fase 12 das instalações do campo de gás de South Pars, perto da cidade de Kangan, no sul do Irã BEHROUZ MEHRI/AFP Mas o regime estabelecido em 1979 não dá sinais de fragilidade, rejeita propostas de cessar-fogo, e projeta em palavras e ações um empoderamento que surpreendeu governos ocidentais e seus adversários. — Eu diria que esta guerra foi taticamente brilhante por parte dos Estados Unidos, os militares americanos fizeram tudo o que lhes foi pedido — disse ao canal MS Now Robert Pape, cientista político da Universidade de Chicago. — Mas o Irã não está perdendo a guerra. Pelo contrário, está mais poderoso do que antes da guerra. Cargueiro tailandês foi atacado perto do Estreito de Ormuz, no último dia 11 AFP Um dos objetivos da “Operação Fúria Épica” e da “Operação Leão Rugidor” era eliminar o programa de produção, armazenamento e uso de mísseis e drones do Irã. Em mais de uma entrevista coletiva, o Pentágono afirmou que as capacidades locais foram debilitadas “em mais de 90%” e o premier israelense, Benjamin Netanyahu, deu declarações semelhantes. Contudo, os ataques com mísseis balísticos, de cruzeiro e drones jamais cessaram ao longo de quase um mês. Os comandantes se adaptaram às dificuldades e escolhem melhor onde e como vão atacar. “Nos primeiros dias da guerra, o Irã disparou mais de 500 mísseis balísticos e mais de 2.000 drones. Taxa de acerto: inferior a 5%. As defesas resistiram. O bombardeio parecia avassalador. A maior parte foi interceptada”, escreveu Kelly Grieco, do centro de estudos americano Stimson Center, na rede social X. "As taxas de lançamento caíram mais de 90% nas duas semanas seguintes. Algo contraintuitivo aconteceu: a taxa de acerto começou a subir. O Irã estava disparando menos, mas acertando com mais frequência." Pedágio: Irã cobra até US$ 2 milhões para passagem segura de navios pelo Estreito de Ormuz e exige dados de tripulação e carga No Estreito de Ormuz, bloqueado desde o começo do mês, nem a poderosa armada de Donald Trump foi capaz de liberar a passagem de petroleiros e navios de transporte de gás. A área é monitorada por barcos de ação rápida e drones, e aqueles que tentam passar sem o aval da Guarda Revolucionária correm o risco de serem atingidos. Minas navais teriam sido instaladas em algunns pontos O raivoso ultimato de sábado não mudou opiniões. O recuo posterior deu fôlego aos mercados de petróleo, mas soou como um reconhecimento de incapacidade do republicano. — Ao controlar e interromper a passagem pelo Estreito de Ormuz, o Irã obteve uma enorme vantagem estratégica. Obteve influência no aumento dos preços mundiais da energia. Essa influência lhe traz vantagens financeiras, pois poderá transportar seu próprio petróleo pelo estreito; e se explodirmos esses petroleiros, isso fará com que os preços do petróleo subam ainda mais — disse Pope ao MS Now. Irã divulga imagens de lançamentos de mísseis: "Tel Aviv" Reprodução | Telegram IRNA Na quarta-feira, o Comando Central dos EUA disse que há 50 mil militares na região do Oriente Médio, incluindo tropas de elite especializadas em infiltrações em território hostil. Embora Trump negue, uma operação terrestre na ilha de Kharg, principal terminal de exportação de petróleo no Irã e base para ataques no Estreito de Ormuz, está nos planos. Segundo o jornal britânico Guardian, Teerã disse que se os americanos invadirem a ilha, “não se importará em explodir seu próprio território". — Eles farão isso para matar soldados americanos — revelou ao Guardian um diplomata de um país que atua na mediação entre os dois lados. Na quinta-feira, dia 3 de outubro, havia apenas um petroleiro ancorado perto da ilha de Kharg Dados do Sentinel obtidos do EO Browser/Bloomberg Antes da guerra, a República Islâmica estava nas cordas após meses de sanções, semanas de protestos nas ruas e críticas pela repressão que deixou dezenas de mortos. Mas a mudança de regime prometida por Trump e Netanyahu parece improvável a curto prazo. O país é liderado por elementos ainda mais linha-dura, forjados no sentimento pós-revolucionário anti-EUA e anti-Israel, e que têm às mãos um discurso de resistência contra uma invasão estrangeira. As vitórias, como o fechamento de Ormuz, projetam a imagem de força dentro e fora do país. O controle das forças de segurança e a promessa de mais repressão mantêm os opositores longe das ruas. Hoje, não há disposição para aceitar as demandas da Casa Branca, como as presentes em uma proposta de 15 pontos, que envolvem suas atividades balísticas e nucleares, vista como uma forma de capitulação. Em Teerã, o plano é não fazer concessões, receber compensações financeiras, manter o status quo político e garantir a soberania sobre o tráfego em Ormuz. Leve o tempo que levar.

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