Jornal O Globo
Uma pesquisa publicada na revista científica Science Advances mostrou que o voo dos mosquitos ao buscar humanos é guiado por estímulos específicos e a descoberta pode servir para aprimorar estratégias de proteção. O estudo identificou que o comportamento dos insetos não é aleatório. Leia: Árvores mais antigas do mundo abrigam uma das redes de biodiversidade mais complexas, descobrem cientistas Veja atambém: Saiba quem é a professora da Unicamp presa por furto de material biológico de laboratório de virologia Para chegar aos resultados, os cientistas utilizaram um sistema de rastreamento tridimensional por infravermelho capaz de registrar, com precisão, a posição e a velocidade dos mosquitos em tempo real. A partir de milhões de dados coletados, foi desenvolvido um modelo matemático baseado em “aprendizado bayesiano”, capaz de prever como os insetos reagem a diferentes estímulos. Preferência por superfícies escuras Um dos experimentos utilizado envolveu um voluntário usando uma roupa dividida entre duas cores: metade branca e metade preta. Mesmo com a emissão de CO₂ e odores sendo idêntica nos dois lados do corpo, os mosquitos se concentraram majoritariamente na região escura. Um sujeito humano vestindo uma roupa metade preta, metade branca. Os painéis restantes mostram projeções 2D de trajetórias 3D de mosquitos ao redor do sujeito mostrado à esquerda, coloridas pela velocidade de voo Reprodução / DLH, Instituto de Tecnologia da Geórgia O resultado indica que os insetos utilizam o contraste visual como referência para direcionar o voo, demonstrando uma clara preferência por superfícies escuras. Esse padrão sugere que a visão não apenas auxilia na localização, mas também influencia diretamente a decisão de aproximação. O estudo também mostra que os estímulos visuais não atuam de forma isolada. Quando combinados ao CO₂, eles intensificam o comportamento de busca, fazendo com que os mosquitos mantenham trajetórias mais estáveis e direcionadas. Observações em torno de indivíduos humanos revelaram ainda que os insetos tendem a desacelerar próximos ao corpo, especialmente na região da cabeça, indicando uma preparação para o pouso. As trajetórias se tornam mais densas nesses pontos, refletindo a integração de múltiplos sinais sensoriais. Modelo pode sevir de aprimoramento nas estratégias de controle Com base nessas observações, os pesquisadores desenvolveram um modelo capaz de prever as trajetórias dos mosquitos em diferentes cenários. A ferramenta permite simular como os insetos respondem a variações nos estímulos, oferecendo uma nova forma de entender o comportamento desses vetores. Segundo o estudo, os resultados indicam que estratégias de controle podem se tornar mais eficientes ao explorar essas respostas previsíveis. A manipulação dos estímulos pode aumentar a eficácia de armadilhas e outras tecnologias voltadas à redução da população de mosquitos. O mosquito da dengue Freepik/Jcomp Roupas claras, repelentes e menos exposição Para reduzir o risco de picadas, os achados do estudo indicam que vale começar pela escolha das roupas e do ambiente. Os mosquitos demonstraram preferência por superfícies escuras e maior resposta a contrastes visuais, o que torna peças claras uma alternativa mais segura, especialmente em áreas expostas do corpo. Como a combinação de estímulos visuais com o dióxido de carbono (CO₂) da respiração aumenta o foco do mosquito no alvo, situações em que a pessoa está muito visível e exposta favorecem a aproximação. Na prática, essas estratégias podem ser combinadas com medidas já conhecidas de proteção. O uso de repelentes nas áreas expostas do corpo continua sendo uma das formas mais eficazes de evitar picadas, assim como roupas que cubram braços e pernas em locais de maior incidência. Ventiladores e correntes de ar também ajudam a dispersar sinais como o CO₂ e dificultam o voo dos insetos. A soma dessas ações — reduzir a atração visual e química e criar barreiras físicas — tende a diminuir significativamente a chance de contato com os mosquitos.
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