‘Super-família’ das profundezas: Pesquisadores descobrem 24 novas espécies de animais a 6 mil km de profundidade na costa do México; veja
Jornal O Globo

‘Super-família’ das profundezas: Pesquisadores descobrem 24 novas espécies de animais a 6 mil km de profundidade na costa do México; veja

Cientistas identificaram 24 novas espécies de anfípodes das profundezas marinhas — incluindo uma raríssima nova “superfamília” — na Zona Clarion-Clipperton (CCZ), no Oceano Pacífico central, entre 4,5 e 6 mil metros de profundidade, numa área que se estende entre o Havaí e a costa do México. As descobertas foram publicadas em 24 de março em uma edição especial de acesso aberto da revista ZooKeys. Leia também: Planta de 400 milhões de anos produz água com composição química igual à de meteoritos, diz estudo; saiba qual é Rinoceronte no Ártico: Especialistas descobrem fóssil que reescreve história da evolução e migração da espécie A CCZ, que cobre cerca de seis milhões de quilômetros quadrados, é considerada um dos ecossistemas menos compreendidos da Terra. O estudo representa um avanço significativo no mapeamento da biodiversidade local, onde mais de 90% das espécies ainda não foram oficialmente descritas. Fotografia de um anfípode da espécie Cleonardo daniela Reprodução: Centro Oceanográfico Nacional do Reino Unido A pesquisa foi liderada por Anna Jażdżewska, da Universidade de Lodz, e Tammy Horton, do Centro Oceanográfico Nacional do Reino Unido, com a participação de 16 especialistas e jovens pesquisadores. O grupo se reuniu em 2024, na Polônia, para um workshop intensivo de taxonomia, focado na identificação e descrição de espécies da região. Entre os principais resultados, os cientistas descreveram 24 novas espécies distribuídas em 10 famílias de anfípodes, incluindo predadores e necrófagos. O estudo também trouxe marcos importantes, como a identificação de uma nova família (Mirabestiidae) e de uma nova superfamília (Mirabestioidea), representando ramos inéditos na árvore evolutiva. Além disso, foram definidos dois novos gêneros, Mirabestia e Pseudolepechinella, e registrados os maiores níveis de profundidade já observados para alguns grupos conhecidos. Fotografia de um Lepechinelloides polymetallica, um crustáceo encontrado em regiões de alta profundidade Reprodução: Centro Oceanográfico Nacional do Reino Unido Dia da Água: Controvérsia sobre uso de recursos hídricos por data centers chega ao Brasil Segundo Tammy Horton, “Encontrar uma nova superfamília é incrivelmente empolgante, e algo que acontece muito raramente, então esta é uma descoberta de que todos nós vamos nos lembrar”. Ela acrescentou: “Com mais de 90% das espécies na CCZ ainda sem nome, cada espécie descrita é um passo vital para melhorar nossa compreensão deste ecossistema fascinante. Descrever as espécies encontradas nesses estudos é um passo crítico para documentar a rica biodiversidade da CCZ, permitindo que possamos nos comunicar de forma eficaz sobre essa fauna.” O trabalho integra a iniciativa Sustainable Seabed Knowledge Initiative (SSKI), da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, e o projeto “One Thousand Reasons”, que busca descrever formalmente mil novas espécies até o fim da década. A pesquisa contou com colaboração internacional de instituições como o Museu de História Natural de Londres, o Museu Canadense da Natureza, a Universidade de Hamburgo e o Instituto Senckenberg, entre outros. O estudo também destacou a eficiência de workshops colaborativos de taxonomia, que aceleram o processo de descoberta científica. Anna Jażdżewska ressaltou: “Este foi um processo verdadeiramente colaborativo que nos permitiu alcançar o objetivo ambicioso de descrever mais de 20 espécies novas para a ciência em um ano — algo que não seria possível se cada um de nós trabalhasse de forma independente”. Ela completou: “As descobertas da equipe fornecem informações cruciais para futuras decisões de conservação e políticas públicas, e destacam a importância de dar continuidade a esse trabalho.” No ritmo atual, de cerca de 25 novas espécies descritas por ano, os cientistas estimam que os anfípodes da região oriental da CCZ possam ser quase totalmente catalogados na próxima década. Além do avanço científico, o estudo também chamou atenção pelo processo criativo de nomeação das espécies. Muitas receberam nomes inspirados em pessoas, experiências pessoais e até na cultura pop. As pesquisadoras Tammy Horton e Anna Jażdżewska foram homenageadas com espécies batizadas em sua honra. Horton também nomeou uma espécie em homenagem à filha. Outras homenagens incluíram o registro mundial de espécies marinhas (WoRMS), descrito como “um recurso maravilhoso para todos os taxonomistas marinhos”. Jovens cientistas também participaram do processo, com nomes inspirados em familiares e até personagens de videogame. Um exemplo curioso é a espécie Pseudolepechinella apricity, cujo nome remete ao calor do sol de inverno. Horton explicou: “Apricity significa a sensação do calor do sol de inverno, e é uma das minhas palavras favoritas. Foi muito apropriado usá-la durante o workshop, enquanto discutíamos nossas descobertas sob o calor do sol de fevereiro em meio à neve do inverno polonês em Lodz. Certamente também foi adequado usá-la para uma de nossas descobertas de anfípodes”. Ela concluiu: “Nos reunimos como colegas de pesquisa, mas o espírito de colaboração e a experiência compartilhada brilharam, então foi importante reconhecer isso em nosso trabalho.”

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