Biocombustíveis são trunfo do Brasil em tempos de guerra
Jornal O Globo

Biocombustíveis são trunfo do Brasil em tempos de guerra

Passadas mais de cinco décadas da criação do Proálcool, o Brasil atravessa a atual crise de oferta de petróleo com vantagem. O país conta com um mercado consolidado de combustíveis de base renovável, os biocombustíveis, substitutos dos fósseis. Enquanto o mundo convive com as incertezas da guerra contra o Irã e a escassez de energia, no Brasil, a safra recorde de cana-de-açúcar e a fartura de milho garantem o abastecimento crescente de etanol. Possível escassez: Agência ambiental de Trump autoriza venda de gasolina com mais etanol no verão dos EUA Efeitos: Fávaro diz que guerra pressiona custos, critica alta de fertilizantes e pede cautela aos produtores A estimativa do setor é que a produção de etanol alcance 30 bilhões de litros na safra 2025/2026, com quase 4 bilhões de litros a mais que na anterior. O volume extra é quase equivalente ao total de gasolina importado pelo Brasil em 2025, segundo a União Brasileira da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica). Para os produtores, o momento é oportuno não apenas para atender à demanda interna como também a externa. Unidade da Inpasa, produtora de etanol de milho Divulgação — O Brasil é o segundo maior produtor de biocombustíveis no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. O etanol atende à demanda interna e tem potencial para abrir novos mercados. Isso é fruto de uma trajetória bem-sucedida, iniciada no Proálcool, e de uma conjugação de elementos que favoreceram a consolidação desse mercado — afirmou João Victor Marques Cardoso, pesquisador da FGV Energia. Além do incentivo do governo com a criação do Proálcool, em 1975, o investimento em tecnologias para tornar o campo mais produtivo ajudou a viabilizar o mercado de biocombustíveis. A Lei do Combustível do Futuro, de 2024, ampliou a demanda. A consolidação dos veículos flex abriu portas. Em três anos: Finep apoiou 3.090 projetos de inovação com contratos de R$ 36,4 bilhões Ao mesmo tempo, o programa Renovabio funcionou como um estímulo, ao obrigar as distribuidoras a compensar a venda de combustíveis fósseis com a compra de créditos de descarbonização, que pode vir dos renováveis. Há, hoje, diferentes formas de consumo dos biocombustíveis no mercado interno. O etanol hidratado move os motores dos veículos de passeio. O anidro é misturado à gasolina numa proporção de 30%. Após a realização de testes de viabilidade, a perspectiva é ampliar essa mistura para 35%. O biodiesel, produzido principalmente a partir da soja, é adicionado ao óleo diesel na proporção de 14%, e a projeção é chegar a 16% já no início do ano que vem. Em 2030, poderá ser 20%. Evandro Gussi, presidente da União Brasileira da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) Divulgação O presidente da Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (Aprobio), Jerônimo Goergen, diz estar disposto a ajudar financeiramente o governo a testar a expansão das misturas neste momento de crise: — Não queremos oportunismo. Mas o setor está disposto a ajudar a realizar testes para que o B16 (diesel com 16% de biodiesel) possa sair logo. Pode ser a solução. A maior vitória vai ser demonstrar a qualidade do nosso biodiesel. Segunda geração Apesar dos avanços do biodiesel, o etanol é o biocombustível mais usado no país. São 37,1 bilhões de litros vendidos, segundo o último balanço elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), em 2025. O produto responde por 6,7% de toda energia consumida no Brasil, mais do que o GLP (2,9%), conhecido como gás de cozinha, mas ainda menos do que a gasolina (8,6%) e o diesel (17,2%). E o consumo de etanol cresceu num ritmo bem maior do que seus principais concorrentes: foram 6 pontos percentuais (pp) em uma década, até 2024, enquanto o do diesel subiu 0,1 pp e o da gasolina caiu 4 pp. Gustavo Mariano, vice-presidente de Trading da Inpasa Divulgação — O problema atual, de escassez de oferta de petróleo e derivados, é parecido com o da década de 1970. Mas o Brasil construiu sua defesa, o que o restante do mundo não fez. No Proálcool, houve intervenção governamental completa. Mas, com o tempo, o mercado se qualificou. Hoje, há o papel governamental e o do mercado — disse o presidente da Unica, Evandro Gussi. Pioneira na produção de etanol de segunda geração no Brasil, a Granbio é um exemplo de empresa que acompanha os passos do setor em busca de soluções. A empresa abriu as portas em 2014, fabricando etanol a partir da celulose. Os preços não acompanharam as projeções e, em 2025, a empresa optou pelo melaço como matéria-prima. Agora, com a demanda por renováveis aquecida, a Granbio pode voltar a investir numa unidade de etanol de segunda geração. — A gente está sendo muito procurado já pela Europa para, potencialmente, reativar a planta de etanol celulósico, porque eles veem não só a diferença de preços, comparado à gasolina, mas também uma alternativa de segurança energética soberana — afirmou Bernardo Gradin, presidente do grupo. Ele ressaltou, no entanto, que a abertura da nova unidade dependerá da conquista de um contrato de longo prazo. O foco é a venda ao mercado externo. No mesmo sentido, a Inpasa, produtora de etanol de milho, mira na exportação, ao mesmo tempo em que se volta para o aquecimento do mercado interno, sobretudo nordestino. Gustavo Mariano, vice-presidente de Trading da empresa, argumenta que o etanol brasileiro tem boa entrada, principalmente, em mercados que seguem critérios de alta sustentabilidade, como o europeu, e que a tendência de valorização do produto nacional cresce diante da guerra. A expectativa da Inpasa é exportar 1 bilhão de litros a mais do que em 2024, acréscimo de cerca de 70%. — Por enquanto, há uma cautela, porque os mercados estão tentando compreender como ficará o cenário de precificação e demanda. A gente sente os compradores mais curiosos, tentando entender os volumes disponíveis para ver quais são as possibilidades de mudança, mas acho que vamos começar a ver, de fato, compras mais elevadas quando o cenário internacional se estabilizar mais — disse Mariano. \unidade agroindustrial da Atvos Divulgação Já a vice-presidente Comercial, de Logística e Planejamento da Atvos, Andrea Ramos, avalia que, com a crise do petróleo, fica claro que o etanol é uma opção economicamente viável. A empresa produz etanol a partir da cana-de-açúcar. — Sinto que o consumidor final está mais atento a essas questões (de segurança energética). Do Proálcool até hoje, a cabeça do consumidor vem mudando e ele vem percebendo que o etanol, além de ter competitividade relevante, melhora a octanagem (capacidade de resistir a altas temperaturas e pressão) do motor e emite menos — ressaltou Andrea. Eletrificação da frota Por enquanto, as transformações são conjunturais, de acordo com o chefe de Commodities da consultoria Barchart, Fernando Berardo. Os desdobramentos da guerra e o seu tempo de duração é que vão definir o quanto a segurança energética passará a ser, definitivamente, um critério determinante para os consumidores. Para o futuro, a expectativa é que o etanol exerça papel relevante também na eletrificação da frota, segundo Alexandre Alonso, chefe-geral da Embrapa Agroenergia. As biorrefinarias, que utilizam os renováveis como matéria-prima, são, da mesma forma, uma tendência cada vez mais real. O etanol, além de combustível de uso direto, é intermediário de uma série de outros biocombustíveis. A partir dele é possível produzir hidrogênio de baixa intensidade de carbono e combustível sustentável de aviação, por exemplo. — A gente tem visto um movimento das usinas se consolidarem como biorrefinarias. Num futuro breve, os principais polos agrícolas estarão conectados a polos agroindustriais, de biorrefinarias, que, além de produzirem biocombustíveis, vão produzir químicos renováveis, bioprodutos… Isso dá sustentabilidade financeira a um empreendimento — afirmou Alonso.

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