Jornal O Globo
Você já deve ter reparado que o Rio está cheio de gringo. Não é força de expressão: é logística. Você sai de casa e tropeça em um, pede um café e ouve três idiomas, atravessa Copacabana e tem a sensação de que o mundo inteiro resolveu combinar de passar por aqui ao mesmo tempo. Primitivo: O restaurante de bairro que ainda cozinha para seus clientes Casa de Malandro: A história do bar que virou escola de samba... e foi campeão do carnaval E não existe lugar melhor para observar esse fenômeno do que o balcão do Príncipe de Mônaco, na esquina da Miguel Lemos com a Aires Saldanha. Observar, no caso, não é modo de dizer. É método. A calçada larga do bar funciona como um camarote involuntário daquela parte da cidade. Do meu lado, o bar simples — pastel, empada, gente apoiando o cotovelo no vidro frio. Do outro, ali em frente, o desfile: turistas, exageros e pratos que passam como se fossem alegorias na passarela. Dia desses, uma mesa de turistas estrangeiros resolveu colaborar com a tese e pediu 13 lagostas. Não três, não cinco — treze. E para 13 comensais, nada de dividir, cada passaporte ficou com a sua. Os atendentes entraram em estado de alerta, fizeram postura de final de campeonato. E o balcão, até então território de chope e conversa, virou plateia. Ninguém ali pediu lagosta. Mas todo mundo assistiu. Celulares surgiram, pescoços se esticaram, comentários atravessaram o balcão. As travessas passaram como atração: uma, duas, três… até a conta deixar de fazer sentido. Deixou de ser jantar alheio, virou evento coletivo. Foi parar até no Instagram do restaurante, coisa de noite histórica. Noite história no Mônaco: 13 turistas estrangeiros pediram 13 lagostas ao mesmo tempo Reprodução/Redes Sociais Ode ao ambulante desconhecido: Um viva ao bar que anda no carnaval Algo parecido acontece quando uma turma de coreanos dá as caras. Garçons começam uma coreografia silenciosa para ver quem assume o atendimento e até a velha clientela se prepara. Todos já sabem: vem aí o pedido de sempre. E eis que surge, imponente, o siri santola, que para gringo ganhou a alcunha de King Crab, um caranguejão de proporções e preço pouco razoáveis (a unidade custa R$ 1.199). No balcão, surgem teorias: dez quilos, doze, ninguém sabe ao certo. Quem come — e quem pode pagar — são os gringos. Mas o espetáculo é coletivo. As enormes patas atravessam o salão como se fossem patrimônio compartilhado: poucas bocas degustam, muitos olhares acompanham, o burburinho surge, e, por alguns minutos, o balcão inteiro participa daquela refeição sem precisar tocar em nada. Nem no cartão de crédito. O quase extinto coquetel de camarão e a Sinfonia do Mar, amontoado de frutos do mar com nome que parece querer resolver o oceano inteiro também rendem cenas parecidas. Mas se engana quem acha que o Príncipe de Mônaco não tem suas iguarias para quem ostenta, com certo orgulho, um mero CPF. São mais simples — e, não por acaso, mais saborosas. O chope é um dos mais cremosos de Copacabana, o gurjão de peixe um dos melhores da cidade. O que falta de fama à empada de camarão sobra em sabor. Eu, particularmente, me resolvo no pastel de siri, que além de ótimo, ajuda a reequilibrar as contas depois da inflação indecente das casquinhas por aí. Passaporte: Dois bares para viajar o mundo sentado na calçada do Rio As trilhas, aquele peixe com gosto de camarão, vêm fritas ou grelhadas, e combinam com a maresia ali do lado. Os mais locais, inclusive, proporcionam cena 100% brasileira que só o Mônaco entrega. Vez ou outra, um barraqueiro da praia se aboleta no balcão. E, do nada, uma porção qualquer sai com a baixela embalada em papel filme, direto para a areia. Sim, clientes pedem aquele peixinho frito do bar, mas que vai ser consumido na beira do mar. E há ainda o aquário de caranguejos vivos na calçada. O cliente aponta, escolhe, e minutos depois o bicho volta — não exatamente ao mar, mas na panela — pronto para o bate-estaca que, segundo os iniciados, faz dali um dos melhores lugares da cidade para comer o crustáceo. Aquário com caranguejos vivos vira atração das crianças Thales Machado Um lugar onde o Brasil se apresenta sem mediação, para quem chega de fora e para quem tem certeza que já viu de tudo. Duvido. Bares e memória: Por que a morte de um garçom dói diferente no Rio Isso é o Príncipe de Mônaco. Você pode enxergar um restaurante com mesas, cadeiras, cardápio e comida. Ou pode olhar com um pouco mais de atenção e perceber que aquilo funciona como uma espécie de resumo do Rio, um ponto onde o simples e o exagerado convivem, onde brasileiros e estrangeiros se misturam, uma atração turística em funcionamento contínuo. O Príncipe de Mônaco. Rua Miguel Lemos, 18, Copacabana. Todos os dias, das 9h às 2h.
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