As pessoas que nasceram nos anos 60 desenvolveram uma resiliência particular, diz psicólogos
Jornal O Globo

As pessoas que nasceram nos anos 60 desenvolveram uma resiliência particular, diz psicólogos

Durante a década de 1960, um modelo parental caracterizado por baixa supervisão adulta e resolução autônoma de conflitos lançou as bases para uma estrutura psicológica robusta nas crianças daquela época. Canetas emagrecedoras: 45% dos usuários mantêm a perda de peso após um ano sem os medicamentos Vacina gripe 2026: campanha começa neste sábado, e Ministério da Saúde divulga quem pode receber a proteção no SUS De acordo com estudos recentes em psicologia do desenvolvimento e economia comportamental, esse ambiente, embora carente de validação emocional constante, permitiu o desenvolvimento de uma “tolerância ao sofrimento” e um “locus de controle interno” que protegeram essa geração contra diversas patologias mentais na vida adulta. A origem da autonomia obrigatória Em 1966, a psicóloga Diana Baumrind, da Universidade da Califórnia, Berkeley, identificou três estilos parentais: autoritário, autoritativo e permissivo. No entanto, além dessas categorias, a realidade cotidiana da década de 1960 para a maioria das crianças envolvia uma independência quase total. Com pais sobrecarregados de trabalho e uma cultura que não priorizava o bem-estar emocional, as crianças eram obrigadas a gerenciar seus próprios deslocamentos para a escola, resolver conflitos com os colegas sem a intervenção de terceiros e tolerar a espera sem gratificação instantânea. Essa dinâmica é descrita por especialistas como o psicólogo Peter Gray, do Boston College, como um exercício essencial de "brincadeira livre". Gray argumenta que a capacidade de direcionar as próprias atividades e negociar com outras crianças sem a supervisão de adultos é o que permite que as crianças desenvolvam habilidades de sobrevivência emocional. O declínio da resiliência e a mudança no controle A análise de dados históricos mostra uma transformação drástica na percepção do controle pessoal. A psicóloga Jean Twenge analisou o conceito de "locus de controle" (a crença de se a pessoa controla sua vida ou se é controlada por fatores externos) e descobriu que, entre 1960 e 2002, as pontuações dos jovens se deslocaram para o lado do controle externo. Em 2002, o jovem médio sentia-se mais controlado por forças externas do que 80% dos jovens da década de 1960. Essa mudança coincidiu com um aumento nas taxas de ansiedade, depressão e suicídio. Pesquisas sugerem que a geração da década de 1960 acreditava fortemente em sua capacidade de tomar decisões, um fator de proteção crucial para a saúde mental. Tolerância à ansiedade como ferramenta Um conceito fundamental nesse fenômeno é a "tolerância ao sofrimento": a capacidade de conviver com o desconforto sem a necessidade de eliminá-lo imediatamente. Na década de 1960, isso era praticado por necessidade. A ausência de telas, a necessidade de economizar para pequenas compras e a falta de intervenção de adultos diante do tédio ou de leves casos de bullying funcionaram como um treinamento emocional acidental. No entanto, especialistas alertam que esse modelo não estava isento de custos. A repressão emocional e o estigma em torno da saúde mental também eram a norma na época, causando danos significativos. O impacto da superproteção atual Em contraste com a liberdade de seis décadas atrás, a vigilância constante de hoje pode estar enviando uma mensagem implícita de inadequação para as novas gerações. Ao proteger as crianças de todos os obstáculos, reduz-se a margem para o desenvolvimento de mecanismos de enfrentamento antes da idade adulta. As evidências indicam que, enquanto antes as crises emocionais eram administradas precocemente no recreio, hoje em dia elas são adiadas para a idade adulta, quando o indivíduo não possui as ferramentas acumuladas para lidar com elas.

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