Jornal O Globo
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta quinta-feira as suspeitas que recaem sobre dois servidores da instituição no caso Master geraram um processo de "luto" e consternação no órgão. O ex-diretor de Fiscalização Paulo Souza e o ex-chefe do departamento de Supervisão Bancária Belline Santan foram afastados administrativamente após uma investigação interna do órgão encontrar evidências de que eles receberam "vantagens indevidas" — o que ambos negam. Posteriormente, o ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), determinou também o afastamento no âmbito judicial após investigação da Polícia Federal apontar que os dois atuavam como "consultores informais" do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, dentro do BC. — Não gostaria de fazer nenhum tipo de comentário que reduzisse a consternação dentro do BC. Para todos os servidores do BC, a ética é um valor muito caro. Realmente foi um processo de luto que ainda está sendo vivenciado por todos os servidores. E eu sinto muito isso. A casa respondeu, como sempre, de maneira muito pronta, correta, buscando sanear todos os problemas e tendo, acima de qualquer coisa, esse valor que está dentro do BC que é a retidão, a governança e o que é o seu mandato — afirmou o presidente do Banco Central. Segundo Galípolo, os processos adotados pela governança do BC, como as decisões colegiadas, permitiram que a instituição cumprisse seu papel e identificasse as irregularidades. — É muito importante que cada um de nós desenvolva o seu papel institucional dentro do mais absoluto rigor. Significa não recuar e não ceder sobre o que são prerrogativas e o que é o seu mandato nem um milímetro e também não exacerbar buscando algum tipo de protagonismo ou buscando passar ilações, distorções, fazer coisas para tentar empurrar numa direção que possa existir algum tipo de interesse — disse. Galípolo afirmou que não há "salvador da pátria” no caso. — É muito importante isso para o bem da institucionalidade da República. A gente está em um momento que é essencial que cada um de nós respeite o rigor do que é o seu mandato institucional, não vai ter salvador da pátria para um momento como esse. Vai ser cada um de nós fazendo o que é nosso papel institucional que vai fazer a gente passar por esse desafio que está colocado para o país. O presidente afirmou que o órgão está sempre buscando aprimorar a governança, mas que isso depende de um reforço de recursos humanos e do arcabouço legal, citando a necessidade de aprovação do projeto de resolução bancária e da proposta constitucional que amplia a autonomia do BC. Como mostrou O GLOBO, o regulador já está conduzindo uma revisão nos processos de supervisão após o escândalo do Master, que deve ser acelerado após as suspeitas de desvios contra os servidores. — O PLP (projeto de lei) de resolução bancária vai complementar uma década em discussão. Seria importante ter atualização de legislação que tem mais de 50 anos. E que pudesse ter ferramentas de atuação em casa de estabilidade de maneira mais rápida e com mais instrumentos. O PLP de resolução bancária atualiza o arcabouço para o Banco Central lidar com instituições em crise. O projeto cria uma série de etapas objetivas de que devem ser observadas nessa situação, implicando primeiro os controladores, depois os credores e também criando um seguro nos moldes do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para atuação nas instituições com problemas graves. Depois desses passos, o projeto prevê a possibilidade de empréstimo ou ajuda temporária do Tesouro Nacional caso os bancos em crise sejam sistematicamente relevantes, ou seja, tenham a capacidade de provocar grandes estragos no sistema financeiro. O governo, no entanto, quer derrubar a parte do projeto que trata do socorro da União. O BC, por sua vez, defende esse dispositivo. — A história mostra que, no fim do dia, a gente tem que usar essas ferramentas. A discussão é se vamos fazer em tempos de paz e calmaria, para gente poder debater tranquilamente. Ou se vamos ser pressionados. O BC tem pouca dúvida quando acontece essas coisas os olhos se voltam para gente e a gente é obrigado a tomar decisões neste momento — avaliou Galípolo.
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