Jornal O Globo
Médicos do principal hospital cardiopediátrico de Cuba enfrentam o desafio de definir quais crianças terão acesso prioritário a tratamentos que podem salvar vidas, em meio à crise energética e ao bloqueio de combustível imposto pelos Estados Unidos, que agravam a pressão sobre o sistema de saúde da ilha. Caminhando 'no fundo de um poço já fundo': Sob escassez e sem combustível, cubanos veem mudança na Venezuela quase com esperança Rota via Guiana: Em meio à crise energética, Brasil vira novo destino dos sonhos de cubanos Durante visita de jornalistas da AFP ao Centro de Cardiologia Pediátrica William Soler, em Havana, mães com máscaras acompanhavam os filhos em quartos escuros, iluminados apenas pela luz natural. Embora os hospitais cubanos convivam há anos com falta de insumos e equipamentos antigos, a situação se intensificou após medidas adotadas pelo governo de Donald Trump, que ampliaram as restrições ao fornecimento de combustível no início do ano. Mulher cuida de sua filha no Centro de Cardiologia Pediátrica William Soler Yuri Cortez / AFP Sem recolhimento: Falta de serviços básicos afunda ruas de Havana em lixo e esgoto Segundo a cardiologista Herminia Palenzuela, de 79 anos, o hospital — único do tipo no país — passou a enfrentar decisões difíceis. Crianças com quadros menos graves ficam no fim da fila, aguardando por recursos. A unidade atende recém-nascidos, crianças e gestantes com diagnósticos de cardiopatias graves. — Os recursos são reservados para os casos mais críticos, porque são pacientes que podem morrer a qualquer momento — afirma a médica. Initial plugin text Com capacidade para 100 leitos, o hospital não consegue utilizá-los integralmente. A equipe raciona equipamentos e insumos, priorizando pacientes em estado mais grave. — Gostaríamos de operar mais, mas os recursos não permitem — diz Palenzuela. A crise energética agrava o quadro. Com apagões diários — incluindo dois blecautes nacionais na última semana —, o governo prioriza o abastecimento de hospitais, que operam com geradores. Ainda assim, a rotina dos profissionais é afetada. Palenzuela comparece ao hospital três vezes por semana, enquanto outros funcionários percorrem longas distâncias a pé devido à falta de transporte. Centro de Cardiologia Pediátrica William Soler, em Havana Lisandra COTS / AFP O diretor do centro, Eugenio Selman, afirma que a escassez de medicamentos e equipamentos é um problema antigo, associado ao embargo dos Estados Unidos, mas que atingiu outro patamar. — Vivemos isso há décadas, mas agora alcançou níveis dramáticos — diz. A crise se agravou com a interrupção do fornecimento de petróleo da Venezuela após a queda de Nicolás Maduro, em janeiro. Para as famílias, o acesso ao tratamento depende da disponibilidade de equipamentos. Yaima Sánchez, mãe de um menino com taquicardia, conseguiu atendimento porque havia um aparelho disponível. — Venho com a esperança de que os médicos atendam com o que têm — afirma.— Às vezes o equipamento não está disponível ou não funciona por falta de baterias. De acordo com o Ministério da Saúde, mais de 96 mil cubanos aguardam cirurgias, incluindo cerca de 11 mil crianças, em meio à reorganização do sistema. Na tentativa de amenizar a situação, o hospital recebeu medicamentos, alimentos e produtos de higiene enviados por um comboio internacional, que levou 50 toneladas de ajuda humanitária à ilha. — A situação é difícil, e por isso levamos ajuda — afirma a ativista italiana Martina Steinwurzel. O coordenador da ONU em Cuba, Francisco Pichón, anunciou um plano emergencial de US$ 4,1 milhões (cerca de R$ 496 milhões) para viabilizar a importação de combustível e manter serviços essenciais. — Se a situação persistir e as reservas de combustível se esgotarem, há risco de deterioração rápida, com possível perda de vidas — alerta.
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