Jornal O Globo
No momento em que o presidente dos EUA, Donald Trump, envia sinais desencontrados sobre como e quando quer encerrar o conflito contra o Irã, iniciado há quase um mês, os iranianos se preparam para um desfecho extremo: uma invasão em terra, provavelmente contra uma ou mais ilhas na área do Estreito de Ormuz ou mais para dentro do Golfo Pérsico. Além de reforçar defesas, Teerã sugere que poderá expandir a guerra para outra passagem crucial, o Estreito de Bab al-Mandeb, na entrada do Mar Vermelho, onde seus aliados, a milícia iemenita houthi, causaram problemas em um passado recente. Falhas em interceptação levantam questão: Israel superestimou sua capacidade de defesa ou subestimou capacidade de ataque do Irã? Novo alvo: Israel afirma ter matado o chefe da Marinha da Guarda Revolucionária do Irã ligado ao bloqueio do Estreito de Ormuz Segundo o portal Axios, citando fontes do Pentágono, os EUA querem impor um “golpe final” ao Irã, combinando bombardeios mais intensos e a tomada de ao menos uma das ilhas na região do Estreito de Ormuz, de forma a permitir a reabertura da passagem. Os cenários incluem a invasão da ilha de Larak, usada pelos militares iranianos em ações no estreito, ou uma ofensiva em Qeshm, a maior ilha do Golfo Pérsico e que nos últimos anos passou de um popular destino de férias a uma estratégica base de mísseis e drones. — É um pouco como um porta-aviões impossível de ser afundado —disse ao jornal britânico Times Sascha Bruchmann, analista militar do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. — Existem cavernas e minas de sal naturais, que são usadas como depósitos subterrâneos para os [drones] que agora mantêm navios como reféns. Estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb Editoria de Arte Outros alvos citados pelo Axios são as ilhas de Abu Musa, onde há estruturas complexas, e Grande Tunb e Pequena Tunb, onde há algumas unidades militares. As três ilhas são reivindicadas pelos Emirados Árabes Unidos, mas não está claro se o país poderia apoiar ou participar de uma ofensiva. Por fim, a joia da coroa das especulações sobre uma invasão: Kharg, principal terminal petroleiro do Irã e de onde são lançados ataques contra embarcações na região do Golfo Pérsico. Os bombardeios recentes na área, afirmam especialistas, seriam a preparação para a entrada de forças de elite. Nos últimos dias, os americanos anunciaram o envio ao Oriente Médio de milhares de soldados de unidades especializadas em infiltrações e tomada de posições em território inimigo. Além da presença em terra, a imposição de um bloqueio naval está na lista de Washington. — Se o objetivo é demonstrar a vulnerabilidade econômica do Irã, então, é claro, a tomada da Ilha de Kharg é uma opção — afirmou à rede australiana 9 News a professora da Universidade da Austrália Ocidental Jennifer Parker, que integrou a Marinha australiana por 20 anos. — Mas se eu fosse o comandante dessa operação, pensaria que seria um erro tático e operacional. Haveria muitas desvantagens em assumir o controle de qualquer uma das ilhas principais próximas ao Irã. Guerra no Oriente Médio: Conheça o caça F-15 do 'inimigo' que o Irã afirma ter atingido no Estreito de Ormuz; vídeo A movimentação não passou despercebida pelos iranianos. "Com base em alguns dados, os inimigos do Irã, com o apoio de um dos países da região, estão se preparando para ocupar uma das ilhas iranianas", disse o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, na rede social X nesta quinta-feira. "Todos os movimentos inimigos estão sob a vigilância constante de nossas Forças Armadas." Mohammad-Bagher Ghalibaf, o presidente do Parlamento iraniano ICANA NEWS AGENCY / AFP Informações da Inteligência dos EUA mostram que o Irã está reforçando posições em Kharg, com o envio de tropas das Forças Armadas e da Guarda Revolucionária e a disponibilização de novos sistemas antiaéreos e lançadores portáteis de mísseis. Citados pela rede CNN, fontes da Inteligência afirmam que minas antipessoal e antitanque foram colocadas em áreas costeiras e perto de bases. Na quarta-feira, um representante do governo iraniano disse ao jornal britânico Guardian que Teerã não hesitaria em bombardear Kharg — incluindo suas instalações de petróleo e gás — caso fosse tomada, de forma a causar o maior número possível de mortes entre as tropas invasoras. Com a ilha localizada a menos de 30 km da costa, os americanos seriam alvos fáceis para mísseis, foguetes e drones. — Eu ficaria muito preocupado com isso — disse o almirante reformado James Stavridis, ex-comandante supremo aliado da Otan à CNN. — Os iranianos farão tudo o que puderem para infligir o máximo de baixas às forças americanas, tanto nos navios no mar quanto, principalmente, quando as tropas terrestres estiverem em seu território soberano. Análise: Sem a 'derrota decisiva' esperada por Trump, Irã se vê mais empoderado do que antes da guerra De acordo com a agência Tasnim, cerca de um milhão de combatentes foram mobilizados, e há um grande número de voluntários se apresentando para pegar em armas. Uma fonte dos serviços de segurança disse que o plano é criar um “inferno histórico” para quem pisar no território do Irã, e declarou que Ormuz não será reaberto à força. — Os EUA querem abrir o Estreito de Ormuz com táticas suicidas e autodestrutivas; tudo bem. Estamos preparados tanto para a execução dessa estratégia suicida quanto para a manutenção do Estreito fechado — disse a fonte à Tasnim. Os iranianos prometeram retaliar contra as monarquias árabes do Golfo (cada vez mais perto de se juntarem à guerra de Trump), contra bases americanas na região e mencionaram, pela primeira vez, a criação de uma nova frente: o Estreito de Bab el-Mandeb, na entrada do Mar Vermelho, por onde passam cerca de 12% do tráfego marítimo global. A milícia houthi, aliada de Teerã, com frequência ataca e sequestra embarcações que por ali transitam, e em comunicado se disse pronta para fechar o estreito e “punir ainda mais o inimigo”. — O Estreito de Bab el-Mandeb é considerado um dos estreitos mais estratégicos do mundo, e o Irã tem tanto a vontade quanto a capacidade de criar uma ameaça totalmente crível contra ele — disse um representante das Forças Armadas à Tasnim. — Se os americanos quiserem pensar em uma solução para o Estreito de Ormuz com medidas estúpidas, devem ter cuidado para não adicionar mais um estreito aos seus problemas. Houthis controlam rota alternativa do petróleo no Mar Vermelho Editoria de Arte / O Globo Nesta quinta-feira, Trump adiou, pela segunda vez, o prazo para que Ormuz seja reaberto, sob ameaça de "obliterar" a infraestrutura elétrica iraniana. Em mensagem na rede Truth Social, disse que o ultimato vencerá agora no dia 6 de abril, às 20h pelo horário de Washington, 21h pelo horário de Brasília, e que o novo prazo foi determinado a pedido do Irã. Na mensagem, o presidente disse que "negociações estão em andamento e, apesar das declarações errôneas em contrário divulgadas pela mídia de notícias falsas e outros, estão indo muito bem". O prazo original vencia na segunda-feira. Horas antes, ele havia dito que cabia a Teerã convencê-lo a baixar as armas e sugeriu que o regime estava desesperado por um acordo. Na terça-feira, os EUA apresentaram, através do Paquistão, um plano de 15 pontos, já rejeitado pelo Irã. — Eles estão implorando para chegar a um acordo. Não sei se seremos capazes disso. Não sei se estamos dispostos a isso — disse Trump, acrescentando que “não se importa” se um acordo não for firmado, e que tem “outros alvos que queremos atingir antes de partirmos”. Sob ataque: Irã lança mísseis contra Israel e atinge Tel Aviv após negar haver negociações com governo Trump O secretário de Estado, Marco Rubio, mencionou que “algum progresso concreto” foi obtido nas conversas indiretas, mas não há sinais de que uma reunião entre as partes possa ocorrer tão cedo. Fontes diplomáticas, citadas pelo Wall Street Journal, disseram que o Irã quer amenizar as demandas do plano americano antes de se sentar à mesa — o regime rejeita a imposição de limites ao programa de mísseis e exige manter a capacidade de enriquecimento de urânio, pontos cruciais na proposta. Oficialmente, Teerã nega qualquer tipo de diálogo. À imprensa estatal, membros do governo citaram que estavam negociando com Washington pouco antes de serem atacados por Israel no ano passado, e horas antes de Trump ordenar o bombardeio contra seu país. — O simples fato de estarem falando em negociações já é uma admissão de derrota. Não eram eles (EUA) que falavam em “rendição incondicional”? Então por que estão mobilizando seus oficiais de mais alto escalão para buscar negociações? — disse o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, nesta quinta-feira.
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