Jornal O Globo
A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) atravessa uma crise sem precedentes. Em 11 de março, por meio de uma carta pública, os 23 votantes do Prêmio FNLIJ, que indica obras “altamente recomendáveis” e é referência para professores e bibliotecários, renunciaram coletivamente para denunciar “problemas estruturais” que comprometem o funcionamento da entidade, assim como “sua missão histórica, sua credibilidade pública e a integridade de seu patrimônio material e simbólico”. 'Um dos grandes encontros da minha vida': No Rio, Édouard Louis cai no samba e exalta cultura brasileira Azar Nafisi, escritora iraniana: 'As pessoas preferiram morrer a continuar vivendo sob este regime' Criada em 1968, a FNLIJ é uma instituição sem fins lucrativos, mantida sobretudo por contribuições de editoras, que desempenhou papel central na promoção da literatura infantojuvenil no país. Implementou projetos para abastecer bibliotecas de escolas públicas, realizava o Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, participava da formulação de políticas públicas, oferecia seminários para educadores e deu destaque à literatura de autoria indígena muito antes de o mercado editorial se abrir à diversidade. Também abriu espaço para editoras brasileiras em palcos internacionais de prestígio, como a Feira do Livro Infantil de Bolonha, na Itália, e a Bienal de Ilustração de Bratislava, na Eslováquia. O passado de tantos serviços prestados à literatura infantojuvenil contrasta com o presente de decadência e um futuro incerto. O Prêmio FNLIJ não deve ser realizado em 2026, e a entidade perdeu o direito de indicar autores para o Prêmio Hans Christian Andersen, o chamado Nobel da Literatura Infantojuvenil, já conquistado por três autores brasileiros: Lygia Bojunga (1982), Ana Maria Machado (2000) e Roger Mello (2014). Por falta de pagamento da anuidade, a FNLIJ perdeu o vínculo com o Conselho Internacional de Livros para Jovens (IBBY, na sigla em inglês), maior instância representativa do setor, que concede o prêmio. Ao GLOBO, o IBBY confirmou o desligamento da FNLIJ após dois anos de inadimplência. “Lamentamos que no momento nossa organização não esteja conectada com a rica e diversa tapeçaria da literatura infantil brasileira e esperamos encontrar novos caminhos para trazer o Brasil de volta à nossa comunidade internacional”, diz a nota. Kamel Daoud: Atração da Flip, autor argelino critica intelectualidade decolonial e relata perseguição em seu país — O Brasil sempre fez ótima figura lá fora. É um absurdo que os editores brasileiros tenham deixado a situação chegar ao ponto de perdermos o direito de apresentar candidatos ao Prêmio Hans Christian Andersen — diz Ana Maria Machado. Sem solução à vista, o setor já aposta em novas entidades que possam ocupar o espaço da FNLIJ. Como alternativa, desponta o Instituto TAL (Todas As Linguagens: Livros, Infâncias, Juventudes), organização sem fins lucrativos que reúne figuras atuantes na promoção da literatura infantojuvenil e que pretende dar continuidade à missão da FNLIJ. Formalizado em fevereiro, o TAL conta com o apoio de instituições como a Biblioteca Nacional e a Cátedra Unesco de Leitura PUC-Rio. Elizabeth Serra, ex-secretária-geral da FNLIJ e maior liderança da FNLIJ por décadas, atua no conselho fiscal da nova instituição. Dois vencedores do Prêmio Hans Christian Andersen estão no conselho consultivo: Ana Maria Machado e Roger Mello. Volnei Canônica, presidente do TAL, disse ao GLOBO que o instituto já nasceu em interlocução com o IBBY e espera representar o Brasil junto à entidade. Em 2 de abril, o instituto realizará seu primeiro seminário, com a presença do presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Marco Lucchesi, e de escritores como Daniel Munduruku e Otávio Júnior. O russo é pop: Protagonista de 'Noites brancas' conquista jovens no TikTok, impulsionando vendas de clássico de Dostoiévski — O instituto já nasce em interlocução com todo o ecossistema da literatura infantojuvenil, capaz de colocar em diálogo diferentes campos, como o do mercado, o da pesquisa e da promoção da leitura. Por ser plural e diverso, o TAL pode ter um impacto maior e uma atuação melhor que outras instituições — diz Canônica, que trabalhou na FNLIJ entre 2007 e 2009 e foi diretor do Ministério da Cultura no governo Dilma Rousseff. Em nota enviada ao GLOBO, a Câmara Brasileira do Livro (CBL), que, em princípio, poderia se candidatar ao IBBY, disse que está em diálogo com a entidade e com atores do setor para “contribuir para a reconstrução de uma presença institucional sólida, estruturada e contínua do Brasil nesse espaço”. Embora o setor dê sinais de ter desistido de salvar a FNLIJ, seu presidente, o advogado Julio Cesar da Silva, disse ao GLOBO que segue trabalhando pelo “renascimento” da instituição. — Continuo buscando recursos junto a entes privados e espero que a nova fase da FNLIJ comece já em abril. Se surgirem outras instituições com o objetivo de promover a literatura infantojuvenil, terão meu apoio. Quanto mais instituições investidas na causa, melhor. Mesmo assim, vamos resgatar a FNLIJ — promete Silva, que afirma já ter recorrido a deputados federais e estaduais, mas sem sucesso. Nos tempos áureos, a FNLIJ contava com o apoio financeiro de cerca de 50 editoras. No entanto, em vista da incapacidade da entidade de representar os interesses do setor, segundo editores e ex-colaboradores da FNLIJ, as contribuições escassearam nos últimos anos. A debandada das editoras contribuiu para afundar a FNLIJ, mas a crise começou muito antes. Processo judicial Em 2015, a FNLIJ foi alvo de uma ação do Ministério Público do Rio de Janeiro que apontava possíveis irregularidades em convênio firmado, em 2005, entre a instituição e a Prefeitura de Nova Iguaçu para a realização da Bienal do Livro do município. O contrato, no valor de R$ 1,3 milhão, ocorreu sem licitação. A ação foi julgada improcedente em 2023. Com acesso limitado a recursos financeiros devido ao processo judicial, a FNLIJ definhou. O quadro de funcionários diminuiu de cerca de 20 pessoas para apenas uma bibliotecária. Até vaquinha precisou ser feita para pagar a anuidade do IBBY. A última edição do Salão FNLIJ do Livro foi realizada em 2019. Ex-votantes do Prêmio FNLIJ ouvidos pelo GLOBO (a posição é voluntária e ocupada por especialistas ligados a universidades) estão preocupados com a preservação do acervo da instituição, guardado no subsolo da Casa da Leitura, da Biblioteca Nacional. Segundo eles, a realização do prêmio no ano passado foi “um transtorno”, devido à ausência de funcionários para organizar o processo. Eles também acusam o presidente da FNLIJ, que entrou em 2022 como interventor nomeado pelo MP, de não conhecer a área e não ter sido capaz de apresentar planos de ação para salvar a entidade. Julio Cesar da Silva se defende afirmando ser doutor em Letras e autor de ensaios acadêmicos sobre Monteiro Lobato. Confiante que encontrará um financiador em breve, ele planeja convocar os ex-votantes e propor a realização do Prêmio FNLIJ 2026. Um desses ex-votantes, porém, disse já estar “fazendo o luto” da FNLIJ e que é hora de apostar em “novas iniciativas”.
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