Entrevista: ‘Escândalo do Master não tem coloração partidária’, diz Efraim Filho
Jornal O Globo

Entrevista: ‘Escândalo do Master não tem coloração partidária’, diz Efraim Filho

Filiado ao ao PL no fim de semana, o senador Efraim Filho (PB) deixou a liderança do União Brasil no Senado em um momento de pressão sobre a legenda por causa do avanço do escândalo do Banco Master. Em entrevista ao GLOBO, ele afirma que sua saída foi construída ao longo dos últimos meses e não está diretamente ligada ao episódio. O parlamentar sustenta que o escândalo não se restringe a um partido específico. Efraim defende a instalação de uma CPI para investigar o caso, critica a judicialização de disputas no Congresso e diz que o Supremo Tribunal Federal (STF) concentra poder excessivo. Também aposta no crescimento da direita em 2026 e vê espaço para Flávio Bolsonaro avançar no Nordeste. O senhor se filiar ao PL e deixa a liderança do União Brasil no Senado em um momento em que o partido aparece associado ao caso Banco Master. Que leitura o senhor faz desse timing? Sua saída também é um sinal de desgaste do União Brasil? Esse movimento começou em julho do ano passado, quando levei a Michelle Bolsonaro à Paraíba para anunciar o apoio do PL à minha pré-candidatura ao governo, ainda pelo União. Foi algo construído de forma gradual, com aproximação de agendas entre o PL e aquilo que eu defendo na Paraíba. A filiação agora é a consolidação desse processo. Estou sendo muito bem acolhido no PL. Deixo o União Brasil sem mágoa, agradecido. Desde o primeiro dia no Senado fui convidado para liderar a bancada, o que é raro, e exerci essa função honrando o partido. Nunca estive envolvido em qualquer escândalo. Saio pela porta da frente e de cabeça erguida. O senhor acredita que há um desgaste político do União Brasil hoje ou esses problemas estão mais restritos a dirigentes? O escândalo do Master não tem coloração partidária. Ele tem tentáculos em diversos partidos e também em diferentes Poderes. Alcança o Supremo, alcança o governo e alcança a política. O União é um elemento desse contexto, mas não é a face do escândalo. Não vejo como um desgaste específico do partido nem como algo que tenha motivado minha saída. O fato de Antonio Rueda ter advogado para o Master e ter relação com Vorcaro agrava o alcance do caso? Coloca em outro patamar? O caso Master já está no patamar mais elevado possível. Envolve Justiça, política e está sendo acompanhado de perto pela sociedade. Esse já é o nível máximo de gravidade. Pode atrapalhar a federação entre PP e União Brasil? O presidente do PP, Ciro Nogueira, também é citado como pessoa próxima ao banqueiro e patrocinou peojro que beneficiava o Master. Eu acho que a federação está consolidada. Mas, como estou de saída, não participei das últimas conversas sobre os rumos e a condução desse processo. Então, minha condição de opinar sobre esse tema é muito limitada. O senhor defende a instalação de uma CPI do caso Master no Senado? Defendo. Assinei o pedido. A CPI pode contribuir com as investigações que a Polícia Federal já vem conduzindo. Por que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), não quer instalar CPI do Master nem prorrogar a do INSS? Essa é uma decisão que cabe ao presidente do Senado, que avalia o cenário. Não vi uma posição definitiva de que não vá instalar. É preciso aguardar para entender os próximos passos. Há pressão para retirada de assinaturas da CPI? A mim não chegou nenhum pedido. Também não ouvi relatos além do que foi publicado na imprensa. O recurso ao STF para prorrogar a CPMI do INSS é legítimo ou enfraquece o Congresso? A judicialização da política contribui para o cenário atual, de um Supremo com poderes ampliados, porque o Parlamento não consegue resolver seus próprios conflitos. Esse é um tema que deveria ser resolvido à luz do regimento interno. O recurso só faz sentido se houver violação do regimento. Fora disso, não é o melhor caminho. Ao deixar o União Brasil e se aproximar do PL ao lado de Flávio Bolsonaro, isso é um movimento regional ou nacional? É um movimento que dialoga com o sentimento do país. Hoje, a política nacional desperta mais mobilização do que as realidades locais, algo que se inverteu em relação ao passado. Sou oposição ao governo e acredito que o Brasil precisa experimentar mudanças. Um quarto mandato de Lula não é a melhor opção. Vejo em Flávio um perfil equilibrado, com disposição para o diálogo. Qual deve ser a estratégia de Flávio Bolsonaro para conquistar votos no Nordeste? Demonstrar que o governo não conseguiu entregar o que prometeu. Lula foi eleito com base na expectativa de retomar um período econômico do passado que não se concretizou. Hoje há um sentimento de frustração, inclusive no Nordeste. Eu ando nas ruas e escuto isso. O crescimento de Flávio pode vir dessa frustração, com um discurso mais equilibrado, que dialogue com o eleitor de centro que votou em Lula na eleição passada. No PL, o senhor passa a ser bolsonarista ou mantém um perfil de centro-direita? Minha agenda sempre esteve alinhada à direita: sou contra o aborto, contra a legalização das drogas, a favor de um Estado mais enxuto, com menos carga tributária e menos burocracia. Fui relator da PEC contra a legalização das drogas. Há convergência com o bolsonarismo. Meu perfil continua sendo equilibrado, sereno e aberto ao diálogo com diferentes correntes. Como o senhor avalia hoje a relação do governo Lula com o Senado? O governo tem grande dependência do presidente do Senado para conseguir aprovar suas pautas. O Davi tem um perfil de compromisso com seu campo político e vinha alinhado com o governo. As divergências recentes têm gerado dificuldades para o governo avançar em sua agenda, tanto em votações de autoridades quanto em projetos importantes. Há risco de o governo não conseguir aprovar indicações, como a de Messias? Hoje o nome nem foi enviado pelo governo. Diferentemente de outros momentos, a decisão agora está com o próprio governo. Me parece que há receio de não ter votos suficientes para aprovação. A direita fala em impeachment de ministros do STF. Isso pode acontecer? A direita cresce porque se conecta com a vontade das ruas. Há uma percepção de concentração excessiva de poder no Supremo. Se houver maioria no Senado, não dá para descartar. O Brasil já viveu impeachment de presidente — não é impossível discutir o de um ministro. O senhor citou a segurança pública como tema central de 2026. Por quê? Em 2018 o tema foi corrupção. Em 2022, economia. Em 2026 será segurança pública. A escalada da violência está no dia a dia das pessoas, das grandes cidades ao interior. O brasileiro está amedrontado. Esse será o tema que vai orientar o debate eleitoral. Acredito que a direita está mais conectada com esse sentimento, com um discurso mais firme no enfrentamento à violência.

Go to News Site