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Imóveis vazios em Sorocaba (SP) e Jundiaí (SP) poderiam abrigar quase 100 vezes o número de famílias sem-teto, aponta levantamento do g1 Reprodução/Google Maps Sorocaba (SP) tem 40 imóveis residenciais vazios para cada família que vive em situação de rua. Em Jundiaí (SP), a proporção é ainda maior: 57 casas ou apartamentos desocupados para cada núcleo familiar sem-teto. O levantamento, feito pelo g1, cruzou dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDH) e revela que o problema não é a falta de moradias, mas a dificuldade de acesso a elas. Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp ✍Esta reportagem integra uma série especial produzida pelo g1 Sorocaba e Jundiaí sobre a Campanha da Fraternidade 2026, que neste ano tem como foco o direito à moradia e busca discutir os desafios e iniciativas voltados para garantir condições dignas de habitação às famílias brasileiras. A primeira reportagem, que explica o objetivo da campanha deste ano, pode ser conferida neste link. No mapa apresentado abaixo, é possível comparar a quantidade de habitações vazias, junto ao número de famílias em situação de rua em cidades do estado de São Paulo. Os dados são de núcleos familiares que estão inscritos no CadÚnico. Por isso, o número pode estar sub-representado. Este levantamento provoca reflexões sobre a realidade de uma parte da população que vive sem a garantia do seu acesso ao direito à moradia digna nas cidades brasileiras. Neste contexto, o g1 entrevistou especialistas para contribuir na interpretação dos dados e compreensão dos desenhos de soluções e políticas públicas que são sugeridas para este setor. Levantamento mostra quantidade de imóveis desocupados em cidades do estado de São Paulo Déficit habitacional cai ao menor nível da história, mas brasileiros vivem cada vez mais em moradias precárias Por que sobram casas e falta moradia? O direito à moradia digna é uma garantia do art. 6º da Constituição Federal, e é infringido não apenas quando pessoas ficam em situação de rua, mas também quando certas condições de dignidade humana não são contempladas no ambiente onde residem. Ou seja, nem sempre "ter um teto" é igual a "ter uma casa". Não ter uma habitação digna, segura e salubre representa inseguranças para a saúde e bem-estar dessa população. Mas, além das questões estruturais, a ausência de serviços sociais também é ponto de adoecimento e exclusão dos cidadãos que não conseguem desfrutar deste direito. Para a doutora em geografia humana e professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em Sorocaba, Rosalina Burgos, as discussões sobre habitação devem estar relacionadas a uma leitura macro social. "Se ela não estiver diretamente atrelada às outras secretarias, às outras políticas de outros setores, ela não vai funcionar. Essa política habitacional, ela vai estar apenas ligada aos interesses privados que são, aí sim, cada vez mais priorizados em detrimento da oferta para as classes populares, que justamente são aquelas que se situam nessa camada dos números do déficit habitacional", defende a professora. Ainda de acordo com a análise, o problema não é a falta de casas, mas a especulação imobiliária. Imóveis são mantidos vazios como um investimento, aguardando a valorização para gerar lucro futuro "Por que tantas unidades vazias? Porque isso é especulação. É a possibilidade futura de lucro. [...] Essa especulação visa a adentrar territórios ainda não ocupados, puxando para esses territórios processos de valorização crescente. E esse mais distante não significa apenas que é a formação de uma periferia popular. Estamos falando principalmente dos condomínios de médio ou alto padrão, principalmente os de alto padrão, que vão puxando esta infraestrutura cada vez mais distante, fazendo com que a cidade se torne cada vez mais espraiada, extensa e segregada", reflete. Rosalina Burgos é doutora em geografia humana pela Universidade de São Paulo (USP) e atua como professora no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Condição Humana (PPGECH/UFSCar) Arquivo pessoal Solução: ocupar e reformar o que já existe A arquiteta e urbanista Sandra Lanças, pesquisadora do Centro de Ciência para o Desenvolvimento da Habitação de Interesse Social do Estado de São Paulo (CCD HIS SP, financiado pela Fapesp), aponta que manter imóveis vazios, principalmente nos centros, gera insegurança, desvalorização e desperdício de infraestrutura já existente, como redes de água e esgoto. A solução, segundo ela, é reformar esses prédios para oferecer moradia a trabalhadores e jovens, reduzindo deslocamentos e aproveitando a estrutura já pronta. "Não faltam imóveis já construídos que poderiam ser utilizados de alguma maneira social. [...] Isso seria um ciclo virtuoso", conclui. Para a pesquisadora, a construção civil também precisa "aprender a reciclar espaços", o que traria ganhos ecológicos e econômicos. "Não haveria necessidade de tantas construções novas, materiais novos e etc. A construção civil precisa aprender a reciclar espaços, e isto livra muito tempo, dinheiro e energia para ser investido em outras melhorias para a sociedade." "Na arquitetura e urbanismo temos sugestões principalmente nas áreas centrais de cidades maiores: que eles possam ser inteligentemente reformados, para que sejam oferecidos aos trabalhadores destas áreas centrais para diminuir custos e ganhar estas horas de deslocamento, que oneram os orçamentos das pessoas e suas famílias, quando as têm." Outra relação feita por Sandra vai de encontro com uma necessidade da população jovem que busca conquistar seus imóveis no início da vida adulta. Segundo a pesquisadora, eles também são afetados pela dinâmica atual do mercado imobiliário e da construção civil, que desprezam o potencial de transformação dos centros desocupados em polos habitacionais. "Os jovens também utilizarão estes espaços de áreas centrais, e eles precisam muito, pois têm aquela idade em que eles precisam ter sua independência, mas o preço exorbitante dos apartamentos, cada vez menores, diga-se de passagem, mas com áreas comuns nem sempre utilizadas, são compradas pela nova geração, que está lutando para sobreviver com menores salários", alerta. Sandra Lanças é doutora em planejamento urbano e regional pela FAU-USP e presidente do Instituto Arquitetos do Brasil na Região Metropolitana de Sorocaba - SP Arquivo pessoal Ações na prática O Centro de Ciência para o Desenvolvimento da Habitação de Interesse Social do Estado de São Paulo (CCD HIS SP) tem o objetivo de, até 2029, desenvolver um sistema para ser utilizado por órgãos públicos e empresas de construção civil capaz de apresentar diagnósticos das condições de demanda da habitação de interesse social no estado, indicando a variação do déficit e das necessidades habitacionais para auxiliar na assertividade das decisões para o setor. Na particularidade do cenário sorocabano, a Prefeitura de Sorocaba informou que mais de 101 mil pessoas se cadastraram no programa habitacional "Casa Nova Sorocaba", o que evidencia a alta demanda por moradia. No entanto, a administração municipal afirmou que apenas dois empreendimentos de interesse social estão em "estágios avançados": o Residencial Morada dos Eucaliptos, com prazo de entrega até 2028, e o CDHU Jardim Eliana, com obras autorizadas em 2026. *Colaborou sob supervisão de Gabriela Almeida Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM
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