Jornal O Globo
Líderes políticos condenaram a onda de violência anti-imigração que tomou as ruas de Belfast e outras localidades da Irlanda do Norte após um ataque a faca ocorrido na noite de segunda-feira. Veículos foram incendiados, famílias foram retiradas de suas casas sob escolta policial e diversos imóveis sofreram danos em meio aos distúrbios que tomaram as ruas do país. Os episódios ocorreram após a acusação de um refugiado sudanês de 30 anos pelo ataque que deixou um homem gravemente ferido. Contexto: Vídeos mostram incêndios, ônibus destruído e protestos antimigração na Irlanda do Norte Nos EUA: Governo Trump espera terminar muro na fronteira com México até o fim de 2027 O suspeito, identificado como Hadi Alodid, foi acusado de tentativa de homicídio, porte de faca em local público e ameaças de morte contra um funcionário do sistema público de saúde britânico. Em audiência realizada nesta quarta-feira no Tribunal de Magistrados de Belfast, ele teve a prisão preventiva mantida por quatro semanas. Alodid participou da sessão por videoconferência e contou com a assistência de um intérprete de árabe. A vítima, identificada em tribunal como Steven Ogilvy, permanece hospitalizada. Segundo informações apresentadas durante a audiência, ele perdeu o olho esquerdo, sofreu danos no olho direito e teve ferimentos no pescoço e nas costas. O ataque ocorreu na área da Kinnaird Avenue, no norte de Belfast, na noite de segunda-feira. Um vídeo que mostra a agressão circulou amplamente nas redes sociais nas horas seguintes ao incidente. Após o ataque, uma onda de violência se espalhou por diferentes áreas de Belfast. No leste da cidade, um ônibus foi tomado por manifestantes e incendiado. Veículos foram queimados em vias públicas, enquanto lixeiras em chamas foram usadas para bloquear ruas. O Serviço de Bombeiros do país informou ter atendido 62 ocorrências relacionadas aos distúrbios. Depois de cobrarem pagamentos atrasado: Quatro trabalhadores rurais imigrantes são queimados vivos em carro na Itália Diversas famílias precisaram deixar suas casas sob proteção policial. O chefe da polícia da Irlanda do Norte, Jon Boutcher, afirmou que entre os resgatados havia um bebê de apenas dois meses. Segundo ele, os policiais retiraram famílias de diferentes comunidades para levá-las a locais seguros. Boutcher disse que “não há justificativa” para os episódios registrados e insistiu que os responsáveis pelos distúrbios serão tratados de acordo com a lei. — Na noite passada resgatamos muitas famílias. E, alías, não eram apenas famílias de comunidades étnicas minoritárias; eram famílias de diversas comunidades que acabaram envolvidas nesse comportamento repugnante da noite passada. Isso vai passar — disse, após ser questionado sobre este ser o terceiro ano consecutivo de episódios de violência no país. Uma das residências atingidas pelo fogo pertence a Jamie Corrie, morador do leste de Belfast há 13 anos. À BBC, ele disse que sua casa foi destruída após um carro estacionado do lado de fora ser incendiado. Segundo Corrie, o veículo pertencia a estrangeiros que viviam na residência vizinha. Ele afirmou que tentou alertar os responsáveis antes que o incêndio começasse, mas não conseguiu evitar a destruição do imóvel. — Ficar ali vendo sua casa queimar é uma sensação da qual nunca vou me recuperar. — disse. — O que isso resolve? O que isso realmente faz? Incendiar carros, destruir a própria comunidade, e agora um dos seus próprios moradores acabou de perder a casa. A ruazinha era tranquila. Sei que há pessoas de várias nacionalidades ali, estrangeiros, eu entendo isso, mas... eu cuido da minha vida. Tudo naquela casa foi destruído, de cima a baixo. Havia coisas de valor sentimental que não podem ser substituídas e que nunca mais vou recuperar. Jamie Corrie diante de sua casa destruída pelo fogo em Belfast após uma noite de violência anti-imigrante que incendiou veículos e imóveis Paul Faith / AFP A ministra da Justiça da Irlanda do Norte, Naomi Long, condenou os ataques contra famílias que nada tinham a ver com o esfaqueamento. Em entrevistas à imprensa britânica, ela afirmou que crianças e jovens famílias ficaram sem casa após os episódios de violência. Long também declarou que o debate sobre o status migratório do suspeito era irrelevante para a avaliação do crime e afirmou que o homem possuía situação migratória regularizada e autorização para permanecer no Reino Unido por cinco anos. ‘Holofote perigoso’ A primeira-ministra da Irlanda do Norte, Michelle O’Neill, classificou os ataques contra residências como “covardia repugnante” e afirmou que não existe justificativa para os episódios. Ela também descreveu o ataque a faca como “hediondo e errado”, mas alertou para tentativas de usar o caso para atacar pessoas inocentes que vivem e trabalham na região. Já o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, afirmou que as cenas registradas em Belfast foram “chocantes e completamente inaceitáveis”. Em declaração no X, ele disse que estava claro que pessoas foram alvo por causa de sua origem e afirmou que os responsáveis pelos atos de violência sentirão “todo o peso da lei”. Starmer acrescentou que conversou com líderes locais, além de representantes da polícia e dos serviços de emergência. Initial plugin text A deputada Claire Hanna, líder do Partido Social-Democrata e Trabalhista, comparou os acontecimentos a uma “perseguição baseada em raça”. Segundo ela, houve relatos de homens percorrendo bairros para identificar e expulsar estrangeiros. A parlamentar do Sinn Féin Deirdre Hargey afirmou que mensagens divulgadas nas redes sociais incentivaram protestos e ajudaram a mobilizar pessoas para as ruas. Entre os que repercutiram o caso nas redes sociais esteve Tommy Robinson, ativista britânico de extrema direita cujo nome verdadeiro é Stephen Yaxley-Lennon. Ele teria convocado manifestações após o ataque. O bilionário Elon Musk também compartilhou publicações e informações sobre locais de encontro para manifestantes na Irlanda do Norte. Em abril: França e Reino Unido firmam acordo para frear fluxo migratório no Canal da Mancha Enquanto isso, a polícia enfrentou críticas após inicialmente informar que o suspeito seria originário da Somália. Posteriormente, as autoridades corrigiram a informação e esclareceram que ele é sudanês. Suleiman Abdulahi, líder comunitário que trabalha com refugiados na Irlanda do Norte, afirmou que o erro colocou a comunidade somali sob um “holofote muito perigoso” e contribuiu para alimentar a violência contra pessoas inocentes. A família da vítima, por sua vez, divulgou um comunicado pedindo privacidade e agradecendo às pessoas que prestaram socorro durante o ataque. Os familiares afirmaram que a rápida intervenção de moradores ajudou a salvar a vida de Ogilvy e agradeceram aos profissionais dos serviços de emergência e aos médicos e enfermeiros envolvidos. E pediram, por fim, que a população rejeite a violência: “Estamos cientes das tensões e das discussões sobre protestos após este incidente. Queremos deixar absolutamente claro que os distúrbios ocorridos durante a noite não são bem-vindos, e que o protesto pacífico é o único caminho a seguir”, escreveram. “Temos muitos migrantes que dão uma contribuição valiosa ao nosso país, inclusive em nosso sistema de saúde e no setor de hospitalidade, e dependemos deles para o funcionamento do país. Não queremos que esta terrível tragédia seja usada para dividir as pessoas ou alimentar a hostilidade”. (Com Bloomberg e New York Times)
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